26/12/2007

plog entrevista

Mês de despedidas em Natal. Além da Limbo Livros Selecionados, outro importante reduto aos amantes da boa cultura está fechando. A Velvet Café & Música cerra suas portas ainda esse mês, deixando órfãos alguns poucos que não se incomodam com os forrós da vida, mas gostariam de ir um pouco além. Após publicar o texto Então é Natal em minha coluna na Digi, no qual falei sobre essas duas perdas, recebi diversas manifestações sobre o assunto. Dentre elas, do próprio Marcelo Morais, dono da Velvet. Em entrevista por e-mail, ele falou um pouco mais sobre o fim da sua loja. E sinaliza: pode ser um recomeço.

PLOG: Após tantos anos à frente da Velvet, imagino que não foi uma decisão fácil encerrar as atividades. Como foi esse processo?

Marcelo
: Não foi nem um pouco fácil, porque eu ficava pensando e martelando idéias na minha cabeça para ver se existiria algo que pudesse incorporar àquele espaço para que ele se revitalizasse (aliás, foi por isso que criei o café): fiz sessões de filmes, o Automatics tocou por lá, fiz lançamento de zine, do documentário da Solaris. Alguns com uma boa presença, outros, um fiasco, mas de uma forma geral, bem aquém de minhas expectativas. Se de repente insistisse mais um ano, quem sabe?, mas isso iria ser um sacrifício que eu não estou mais disposto a fazer, o desestímulo me fez decidir, perdi o prazer no que fazia.

PLOG: Apesar de fechar a loja, você vai continuar vendendo CDs pela internet. Fale um pouco sobre esse nicho de mercado.
Marcelo: A cultura do MP3 afetou bastante a venda de CDs no espaço físico, e acredito que muitos que ainda compram CDs, compram pela net. Em 2006 resolvi fazer uma experiência para ver como é que era a receptividade, e foi muito, mas muito além do que eu imaginava. Acredito que o mercado de CDs, de 2 ou 3 anos para cá, se restringe a colecionadores, assim como o velho vinil. Então encontrei esses colecionadores na internet, gente de todo país que ainda adora o CD, em especial do sul do Brasil. Eu deveria me mudar para lá e reabrir a Velvet em Porto Alegre. Vendo muito para o Rio Grande do Sul. Descobri que muitos CDs que tenho expostos por aqui e passam batidos, são bem procurados Brasil afora. Vou investir nisso.

PLOG: Câmara Cascudo disse que “Natal não consagra nem desconsagra ninguém”. O que vemos na prática é que a cidade tem tradição em desvalorizar projetos ligados à cultura. Você acha que essa tradição influenciou em seu negócio?
Marcelo: Concordo com a frase, é uma cidade apática. Vinícius de Moraes certa vez disse que São Paulo era o túmulo do Samba. Para mim, Natal é o túmulo da cultura, embora exista muita gente que batalhe para reverter isso. Mas é uma questão cultural. Aqui, bom é o que vem de fora para dentro, e não o de dentro para fora. O MADA, por exemplo, é um puta festival, com virtudes e falhas, mas não falta gente que fale mal dele, e é um privilégio ter um evento assim na cidade, assim como o Festival do DoSol. Sempre se apontam mais a falhas do que as virtudes, é impressionante e absurdo. Entre outras coisas, vi gente reclamando do preço do ingresso! É brincadeira, né? Acho que essa tradição afetou meu negócio porque como é uma cidade que não tem o hábito de consumir cultura, muito menos cultura pop, então o mercado se torna muito pequeno e restrito.

PLOG: A Velvet é bem localizada e tem um público fiel, o que torna o negócio potencialmente lucrativo. Alguém te procurou querendo assumir o ponto?
Marcelo: De fato a Velvet é bem localizada (porém sem estacionamento na frente, proibido recentemente pela STTU) e tem um público fiel, mas aí é que está, não é mais um negócio potencialmente lucrativo. Já foi, antes do mp3, hoje não é mais. Algumas pessoas me procuraram, e pensam em revitalizar o espaço (que não seria mais a Velvet), com livros, café e CDs. Acredito que com outras coisas mais.

PLOG: Há algo a dizer aos órfãos da Velvet?
Marcelo: Quero agradecer imensamente a eles, que compartilharam comigo e fizeram daquele espaço um lugar especial, com muita gente boa, super-educada e acima da média mesmo. Realmente me orgulho muito de todos que freqüentaram a Velvet. Quero dizer ainda que a Velvet continuará na ativa, só que online, inclusive mantendo e reforçando o seu newsletter semanal.

21/12/2007

nos cinemas

30 DIAS DE NOITE

Você anda sentindo falta de um filme de terror de verdade diante dessa enxurrada de adolescentes jorrando ketchup, mortes bizarras que provocam gargalhadas e espíritos em atuações sofríveis? Muito bem, você precisa ver “30 dias de noite”, em cartaz nos cinemas de Natal.

O filme é uma adaptação da grafic novel homônima, dirigido por Dave Slade (de “Menina má.com”) e roteirizado, dentre outros, pelo próprio autor do gibi, Steve Niles. Fora isso, contou com a produção executiva de Sam Raimi (diretor da trilogia “Homem-aranha”). Esses requisitos já seriam suficientes para você ir pro cinema esperando algo bom. Mas acredite: é muito melhor do que você imagina.

A trama é simples e genial. No inverno, uma cidade do Alaska passa um mês de total escuridão todos os anos. Dessa vez, entretanto, será invadida por vampiros. Os sanguessugas preparam o ataque para o primeiro dia sem sol. E pretendem devorar (sim, este é o termo, pois estão famintos) todos os 152 habitantes que não deixaram a cidade. Josh Hartnett, em excelente e convincente atuação, é o xerife de Barrow. E vai enfrentar as criaturas da noite sem fazer idéia do que sejam.

Este é, aliás, um ponto alto da trama. Os moradores da cidade não sabem o que está atacando. Assim, nada de água benta, crucifixos ou cordões de alho. Ao invés disso, eles se escondem como podem. E a sensação de impotência e claustrofobia cresce a cada ataque. Outro ponto alto é que os vampiros do filme não têm nada do glamour de “Entrevista com o vampiro”. São, na verdade, bestiais. Famintos, animalescos, irracionais, só querem saber mesmo de matar sua fome (e, por conseguinte, todos os seres vivos da pequena cidade de Barrow).

Assustador, “30 dias de noite” não é um filme para estômagos fracos. Com cenas fortes, muito fortes, fortíssimas, a direção de Slade dá dor no pescoço, vertigens e muitas reviravoltas nas tripas. Mas é uma aula de como fazer terror nesses dias em que a violência já virou lugar-comum.

“30 dias de noite
Título original: “30 Days of Night”
Gênero: Terror / Suspense
País: Nova Zelândia/EUA, 2007 - 113 min
Direção: David Slade
Roteiro: Steve Niles, Stuart Beattie e Brian Nelson
Elenco: Josh Hartnett, Melissa George, Danny Huston, Ben Foster, Mark Boone Junior, Mark Rendall.

19/12/2007

maya para os jovens escribas

E foi assim: auditório lotado, banca reunida, grupo pronto pra apresentar. Esses foram os momentos que antecederam o Trabalho de Conclusão de Curso da agência experimental Maya, que tinha como cliente o Jovens Escribas.

Esses caras são mesmo pirados. Pelas regras da UnP, eles teriam que apresentar uma campanha completa, com pesquisa, mídia e algumas peças obrigatórias. Mas eles foram além e apresentaram 9 campanhas. Isso mesmo, mais de 100 peças publicitárias pro Jovens Escribas. Sabe por que? Bom, a pesquisa de opinião, feita num universo de quase 300 pessoas, revelou que a marca da editora importa muito pouco para a decisão de compra de um livro. O que pesa mesmo é o conteúdo. Ou seja, para ser vendedora, a campanha teria que apresentar um a um cada livro que nós do Jovens Escribas já lançamos.

Foi uma danação só peças. Cada uma melhor que a outra. Os caras me encheram de orgulho mesmo. Lógico que a marca Jovens Escribas também teve uma campanha. Institucional, com teaser e grandes idéias. O VT dessa campanha, no qual atuei, está aqui embaixo.




Para os livros, as campanhas eram focadas em seus conteúdos. Com muitas ações de guerrilha e marketing viral, tivemos carrinho de sorvete pra vender "Verão Veraneio" de Carlos Fialho nas praias, frascos de comprimido pra serem deixados em locais públicos vendendo “Lítio”, o meu romance, um panfleto de uma festival de música fictício (“Imagine All The People Festival”) para vender “É tudo mentira”, também de Carlos Fialho, e por aí vai.

A campanha de cada livro tinha um vídeo viral, baseado em seu conteúdo, para se espalhar pelo Youtube. Advertainment puro! Como não dava pra produzir todos, a agência escolheu o vídeo criado para “Contos Bregas” de Thiago de Góes. Escolheram certo. Foi a peça mais aclamada da apresentação e você pode dar umas boas gargalhadas assistindo logo embaixo. Imperdível!



Parabéns a todos da agência Maya. Foi um prazer e um grande orgulho ajudar vocês a fazer esse trabalho magnífico.E atção a todos do mercado publicitário: olho nesses caras. Não é todo dia que a gente encontra jovens tão talentosos e dedicados.

17/12/2007

doce vida

A minha infância toda passando nas capas daqueles discos. Fazia tanto tempo. Juro que pensei ser um sonho ou uma memória tão forte que vem com exatos cheiros, cores e gostos. Mas não. Era a realidade. Eles estavam todos ali. Abelhudos, Trem da Alegria, Balão Mágico, Topo Giggio e a indefectível discografia da Xuxa. Todo mundo tinha disco da Xuxa.

Simony era a estrela maior do Balão Mágico e fazia com Jairzinho duetos românticos. Ninguém poderia imaginar que ela viraria ex-mulher de ex-presidiário. Já o filho de Jair Rodrigues era uma criança feia de doer, que despertava a simpatia mais pela pena do que pela identificação. Os dois formavam uma espécie de casalzinho romântico infantil. Naquela época, eu não sabia o que era pedofilia.

No rastro desse sucesso, vinha o Trem da Alegria com o inesquecível Juninho Bill. Era tempo de cantar “O gato de botas” e dizer “Juninho Bill pra presidente do Brasil”. Que fim levou ele, hein? Fui atrás no Google: agora é vocalista de uma banda de rock obscura e tenta não ser mais o Juninho Bill. Apesar do público, nos shows, sempre pedir pra ele tocar “Piuí, piuí, piuí, abacaxi”.

Mas ninguém fazia um sucesso tão aterrador quanto Xuxa. Autodenominada “a rainha dos baixinhos”, a loira ditou tendências e influenciou, para o bem ou para o mal, toda uma geração. Mês passado, ela veio à Natal gravar seu novo programa. O que eu vi de marmanjo dizendo que queria conhecê-la foi assustador. Com uma ponta de emoção contida, como estivessem mais próximos que nunca de realizar um sonho de infância, falavam: queria ver a Xuxa. Eu também queria, devo confessar. Mulher inacessível, ícone de uma época, La Meneghel soube fazer de si mesma uma interessante personagem. Amigos que estavam na produção do programa me disseram que ela é exatamente como na TV: quer dizer, ou Xuxa finge o tempo inteiro que é retardada, ou efetivamente é.

Enquanto revejo a capa de seu primeiro disco, com o peitinho da rainha vazando na blusa transparente, meus amigos brincam dizendo de cor o endereço do Xou da Xuxa. Rua Saturnino de Brito, 74, Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Este é o endereço mais famoso dos oitenta. Tenho certeza que há excursões para lá, diversos trintões guiados por uma ex-paquita que agora ganha a vida nos escombros de um sucesso avassalador.

Por falar nas Paquitas, elas também estavam lá. Presentes num LP que tinha quatro loiras na capa e três na contracapa. A decisão foi tomada com base na beleza: as bonitas na frente, as feias atrás. Um péssimo exemplo. Talvez por atitudes assim, minha geração seja ultrafocada na própria aparência. Talvez. Não quero colocar a culpa em ninguém além de nós mesmos. Afinal, nós fizemos esses ídolos. Nós escolhemos gostar do fútil “bom dia, amiguinhos, já estou aqui”. Meus amigos falam da nave espacial, dos pompons do auditório, das pernas das Paquitas. A riqueza de detalhes é tão grande que fico aguardando o Moderninho surgir de trás do sofá para anunciar o baixinho sorteado.

Vou recolocando os discos de volta à estante. Um a um. Minha infância contada em faixas de vinil, lembranças compostas por Michael Sullivan e Paulo Massadas. Quem sabe eu fosse uma pessoa melhor se tivesse ouvido só ópera. Ao invés disso, sou produto de uma época que é exatamente como as balas que amava na infância: colorida e saborosa, mas vazia e desnecessária. Como diria Xuxa: a vida é um doce.

14/12/2007

tcc, cpmf, pipl & outras coisas

Dias e dias de ausência, mas minha vida vai voltando ao normal. Fim de ano é assim mesmo. Muito trabalho, pouco prazer, tudo pra fazer um extra e comprar roupa nova. He he he. Então, estou voltando aos poucos. Lá vão umas rapidinhas.

Programe-se
Você sabe o que é TCC? É o famoso Trabalho de Conclusão de Curso que a galera de Publicidade da UnP faz todos os anos. Eles montam uma agência experimental, escolhem um cliente, fazem pesquisa, briefing, mídia, campanha e apresentam tudo numa grande noite. Bem, essa introdução é pra dizer que a agência experimental Maya apresenta seu TCC hoje, às 21h, no auditório da CDL/Natal. E que o cliente é o Jovens Escribas. Quem viu o estande que eles prepararam pro JE na Exprom sabe que vem coisa boa por aí. Então, façam volume na CDL. Eu não perco por nada.

Making of do VT da Maya pro Jovens Escribas. Luís Moraes coordenando as fotos pro stop-motion e eu lá na tela, tá vendo?

Mais uma do making of: Bertoni fazendo marcação de cena

Programe-se de novo
Depois do primeiro CD, “Festival do Desconcerto”, a banda SeuZé inova no segundo álbum, “A Comédia Humana”. O que seria um material suficiente para integrar um novo disco com cerca de 12 faixas, foi dividido para ser lançado em 4 compactos multimídia, cada um contendo 3 músicas mais conteúdo de fotos, letras e cifras, aparições da banda na imprensa, além de um videoclipe. O lançamento é manhã.


No torrent
Acabo de assistir aos dois primeiros episódios da série Californication, a nova de Cris Duchovny (aquele que vivia às voltas com mistérios e abduções na extinta Arquivos X). Eu era fã das aventuras de Fox Mulder e Dana Scully, mas isso não me torna suspeito pra dizer que Californication é uma das melhores coisas que vi nesses últimos anos. O enredo é o seguinte: Hank é um escritor em crise criativa que acabou de se separar e que mata o tempo fazendo… sexo! É um tal de comer toda mulher que aparece pela frente que vou te contar!

Cris Duchovny no modelito Hank: perdeu as calças ao fugir da casa de uma mulher casada

O melhor é o humor. No episódio dois, por exemplo, transando no quarto da ex-mulher (!) com uma amiga dela (!!), Hank é flagrado logo após vomitar pelo cômodo (!!!)… Parece non-sense, mas pra quem viu o episódio inteiro faz todo o sentido. Digamos que se trata de uma “Sex and the city” para homens. Classe AAA!

Errata: o nome do ator é David Duchovny, como alertou Thiago de Góes nos comentário e Luanda Holanda por e-mail, e não Cris Duchovny, como escrevi aqui nas pressas. Foi mal, galera, viajei. Mas a série é boa mesmo assim.


CPMF
Pra quem quer ter uma visão bastante embasada – e perturbadora – sobre o imbróglio da CPMF e as repercussões de seu fim, recomendo o artigo A Batalha e a Guerra da CPMF de Flávio Aguiar, publicado esta semana no site Carta Maior. Num dos trechos mais contundentes, Aguiar explica que "72% da CPMF é paga por pessoas jurídicas, sobretudo as grandes empresas. 28% pelas pessoas físicas. Dentro dos 28%, 22% são da classe média. Ou seja, as grandes empresas, representadas nominalmente ou pela ação política da FIESP, não querem que 35 bilhões de reais de sua contribuição corram o risco de ir para investimentos sociais". Tá entendendo melhor o que aconteceu esta semana no Senado? Pois é, também me assustei.

E por falar nisso
E Garibaldi como presidente do Senado, hein? Prefiro não comentar… Mas se você quer um comentário sobre isso, lá vai outro link: Presidência do Senado, texto publicado esta semana no Blog do Rosk. Disse tudo o que eu penso. E mais um pouquinho.

O terror dos coments
Cecilia Giannetti, colunista da Folha, vem sentindo na pele a sanha assassina dos leitores. Seu artigo "Arrastão classe média", publicado na Ilustrada em 11 de dezembro, despertou a ira dos leitores. O problema? Bom, o artigo fala com um pouco de sarcasmo sobre como a classe média invade os shoppings na época de Natal, tornando qualquer passeio insuportável. Li o texto e não vi nada de mais. Mas segundo a própria Giannetti, em e-mail encaminhado ao grupo de discussões do JE, "os editores me pareceram preocupados com as mensagens e eu, naturalmente, preocupada com meu emprego". É, o leitor agora tem voz.

A voz do leitor
No blog Telescopica, vemos uma mostra do poder do leitor com as novas ferramentas da web. No texto Hecatombe já, Jean Boechat mostra como um cara denunciado de espancamento numa matéria do Fantástico teve sua vida completamente exposta na internet. Descobriram o profile dele no Orkut e daí pra saberem a vida toda, do estado civil à situação no SPC, foi um pulo. Segundo Boechat, "terrorismos e vandalismos on-line rolando pra cima do sujeito". Nesse caso, parece que o cara merecia. Mas até quando para acontecer com alguém que não merece?

Até quando?
A resposta pra pergunta lá de cima é simples: Pipl. A palavrinha que tem som de "people" (do inglês: pessoas) é um justamente um rastreador de pessoas na internet. Explico melhor: é um Google de seus registros na web. Explico melhor ainda: se você se cadastrar num site, deixar um comentário, mandar um e-mail pra uma lista pública, criar um profile num site de relacionamentos, enfim, tudo que fizer na web o Pipl rastreia. A diferença do Google está nas informações mostradas. Segundo matéria do G1, "ao escrever 'David Pogue' nas duas caixas de buscas, o Google dá prioridade à página oficial do colunista do New York Times, enquanto o Pipl exibe um site com todos os endereços de pessoas com esse mesmo nome nos Estados Unidos". É a privacidade chegando ao seu fim.

Frase do dia
"Farsante, mentiroso e sem-vergonha."
Do presidente Hugo Chávez da Venezuela para o presidente Álvaro Uribe da Colômbia

29/11/2007

¿por qué no te callas, lula?

Sou a favor da criação de um novo cargo no Governo Federal. Mais honesto que o presidente do Senado, menos bocó que o presidente da Câmara, mais eficiente que a ministra da Casa Civil. De relevância vital para a paz do país, seria o Rei da Espanha Brasileiro. Já pensou um Juan Carlos I todinho só pra gente? Seria um espetáculo do crescimento, amigo.

Encarnando a voz do povo no Executivo, este incauto profissional da sinceridade teria a incumbência de acompanhar nosso muy hablante presidente Lula o tempo inteiro, a qualquer compromisso, sempre lavando a honra do povo. Como? Simples: a cada asneira que nosso chefe de Estado proferisse, o Rei da Espanha Brasileiro berraria um sonoro “¿Por qué no te callas, Lula?”. Assim, impostado e grave, com sotaque espanhol pra tornar a coisa toda mais contundente. Convenhamos, ele teria bastante trabalho.

Esta pequena ocupação seria de suma importância pra que os brasileiros não ficassem usando nariz de palhaço toda vez que nosso ilibado presidente discursa sobre o escândalo da moda. Ele disse que não existe caos aéreo coisa nenhuma? ¿Por qué no te callas, Lula? Jurou que não sabia nada sobre o mensalão? ¿Por qué no te callas, Lula? Falou que a crise no abastacimento de gás não tem relação alguma com a nacionalização do gasoduto Bolívia-Brasil? ¿Por qué no te callas para siempre, Lula?

O trabalho é duro e envolve diversas horas extras. Afinal, Lula é uma máquina incansável de produzir pérolas da ignorância. E o pior: mesmo quando acerta gramaticalmente, todos os pingos nos is, nenhuma concordância fora do lugar, sempre dá um jeito de insultar nossa inteligência. Quer um exemplo? Discursando sobre a possibilidade de uma nova onda de apagões há pouco mais de uma semana, o presidente foi enfático: “Não há crise no setor energético! O abastecimento do Brasil está garantido até 2012!”. Alguém diga a Lula que isso não demora nem cinco anos pra acontecer. E que um país que só tem energia garantida por no máximo um quadriênio está sim em crise. Gravíssima, por sinal.

Ao contrário do que você pode estar pensando, o investimento para termos um Rei da Espanha Brasileiro não seria tão alto. E poderia sair, por exemplo, da arrecadação da CPMF. Se quiséssemos investir em um produto de grife, tenho certeza que Juan Carlos I em pessoa assumiria o cargo por uma módica quantia. Afinal, seria um prazer inenarrável ser pago para mandar o presidente calar a boca. Mas como brasileiro é dado a um produto pirata, creio que descambaríamos para um Rei da Espanha Brasileiro e paraguaio. Assim, qualquer um que tivesse freqüentado ao menos duas aulas de castelhano – e aprendido que na língua de Cervantes agudo tem som de circunflexo e dois eles têm som de LH – poderia se candidatar ao cargo. Isto porque pronunciar o bordão de Juan Carlos I com acento ibérico é essencial para o sucesso na profissão. Eu seria o primeiro da fila.

Não precisa nem dizer que o advento do Rei da Espanha Brasileiro causaria um grande mal-estar na América Latina. O primeiro a se pronunciar seria o onipresente e agora onipresidente Hugo Chávez, da Venezuela. Ele acusaria Lula de – dou um doce pra quem adivinhar – fascista. Afinal, o primeiro “¿Por qué no te callas?” foi emitido para ele, na reunião da Cúpula Ibero-Americana de Santiago do Chile, pelo monarca espanhol em pessoa. Quem esses neoliberais usurpadores pensam que são?, berraria Hugo Chávez minutos antes cortar a concessão pública do mote na Venezuela. Quem ousasse dizer a frase, seria perseguido sem tréguas com o aval da nova constituição bolivariana.

O vizinho Evo Morales, da Bolívia, teria uma reação ainda pior: nacionalizaria o bordão, acusando os europeus de roubar a frase nos tempos da colonização. Conforme defenderia, o “¿Por qué no te callas?” é um produto típico de seu país, já que ele vive perguntando isso ao povo e sempre obtém a mesma resposta: o silêncio. Em termos, Evo Morales tem razão.

Já Nestor Kirchner, da Argentina, não diria nada. Ao que parece, seguindo o enredo de um tango de mau gosto, muitos problemas ficariam para a sucessora e esposa (futuramente ex, podem aguardar) Cristina Kirchner. Soy solamente primeiro-damo, diria Nestor, tirando el cullo de la reta.

Por sua vez, Michelle Bachelet, do Chile, estremeceria 7.7 graus na escala Richter só de pensar no assunto.

É sabido que Lula perdeu diversas oportunidades de ficar calado. Das metáforas futebolísticas às comparações estapafúrdias, nosso presidente vai entrar pra história como o autor de grandes impropérios. Conseguiu, veja só, ultrapassar o intelectual Fernando Henrique Cardoso no quesito “era melhor ficar calado”. FHC, pra quem não lembra, foi autor de aforismos de alto teor sociológico como “Aposentado é tudo vagabundo”, “Vida de rico em geral é muito chata” ou “Se a pessoa não consegue produzir, coitada, vai ser professor”. São coisas que eu preferia esquecer que foram ditas por um chefe do Executivo.

O Rei da Espanha Brasileiro só não teria utilidade nas horas em que Lula repentinamente se cala. No mensalão, por exemplo. Cortaram a língua do homem, foi? Tão falante, tão discursante, e de repente o presidente vira uma introspecção só. Ante o mar de lama que tomava conta de seu amado PT, vazando gordas gotas de coliformes fecais pro resto do país, o que obtivemos como resposta oficial foi zero. Nessa hora, deu vontade de chutar a porta do Palácio da Alvorada, entrar pisando firme, encontrar Lula devorando sua marmitinha diária e gritar bem nas fuças presidenciais: ¿Por qué no hablas nada, Lula?

23/11/2007

no front: começa o ENE 2007

E na cerimônia de abertura...

O ENE – Encontro Natalense de Escritores, começou ontem. Com uma programação mais diversificada que ano passado, e até mesmo mais atrativa, meu temor era que a organização incorresse em erros bobos que estragassem o brilho da estréia. Bom, ocorreu. Primeiro, colocar o Prefeito pra falar é uma afronta. O evento é promovido pela Prefeitura, com dinheiro público e na melhor das intenções. Justamente por isso, não deveria ficar tão claro que é mais uma obra do Prefeito de Todos. A gente chega todo empolgado, louco por literatura, ansioso pelas palestras, e de repente percebe que aquilo tudo é jogo de cena pra Carlos Eduardo ficar bem na fita. Tudo bem, eu sei que a vida é assim. Mas não custa nada desejar que não fosse.

Veríssimo & Ventura
Estamos falando de dois grandes nomes da literatura, que inclusive são amigos de longa data. Creio que a organização do evento pensou exatamente isso ao suprimir um moderador do debate. Colocar dois escritores sozinhos num palco é um homicídio doloso com requintes de crueldade. Por mais falantes, desinibidos e amigos que sejam, sempre chega a hora do silêncio constrangedor. E, sejamos sinceros, Zuenir Ventura e Luís Fernando Veríssimo são tudo, menos falantes e desinibidos. A notícia boa é que isto foi uma das poucas coisas ruins do grande debate do dia. Simpáticos e esforçados, os autores brincaram, contaram histórias interessantes e falaram muito sobre a produção diária de crônicas. Um prato cheio para mim, que experimento o dever de escrever há tão pouco tempo.

O que são dois pontinhos brancos no palco do ENE?
Luís Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura.


Zuada
Outro ponto negativo da mega-estrutura do ENE foi o barulho do lado de fora da tenda. Ninguém se tocou que a tenda tem paredes de lona que não são, definitivamente, isoladores acústicos. Assim, enquanto a palestra rolava lá dentro, do lado de fora um grupo de zambê girava uma capoeira ao som de batuques, abafando completamente as vozes dos escritores (não custa pergunta: o que um grupo de zambê tem a ver com literatura?). E se fosse só isso, tudo bem. Mas ainda tinha gente que queria conversar, não tinha onde sentar e ia pra dentro da tenda bater papo. Pra essas, desejo a morte.

Articulação zero
A Prefeitura deixa bem claro que o ENE pertence a ela, só a ela, a mais ninguém. A iniciativa de fazer um evento como este é louvável, sem dúvidas, mas nada explica a falta de articulação com as livrarias de Natal a fim de tornar o evento ainda maior. A assessoria de imprensa de uma grande rede da cidade me confidenciou que chegou a procurar a Prefeitura a fim de desenvolver atividades paralelas no Largo da Rua Chile. A Prefeitura mostrou-se fechada a interferências e disposta a não dividir os louros de publicidade do ENE com mais ninguém. Dessa forma, o evento não cresce. E isso, lamentavelmente, é uma dura realidade em Natal.

Ah, as pessoas
É sempre emocionante chegar a um evento de literatura e ver tudo lotado. Minhas eternas memórias da Flip 2007 dão conta de que isso foi uma das coisas mais legais que vi em Paraty. Por isso, elejo este fato como o melhor acontecimento do ENE em seu primeiro dia. O Largo da Rua Chile estava cheio de gente, a tenda também, as proximidades idem. Claro, não era um show de Ivete Sangalo. Mas tinha gente o suficiente para deixar este ensaio de escritor muito satisfeito por ter um evento assim em Natal.

Por falar nisso
Já que toquei no assunto “ensaio de escritor”, vocês precisam ver o que está acontecendo nos comentários da minha coluna da Digi. Esta semana postei o texto ¿Por qué no te callas, Lula? e venho, desde segunda, percebendo até onde vai a fé cega de algumas pessoas nos políticos (como fosse política uma questão de fé). De “subescritor” até “Diogo Mainardi do Nordeste”, já me acusaram de tudo. Num momento pra lá de inspirado, uma leitora falou que “se em um único dia da sua vida você tivesse passado fome, não diria metade das baboseiras que escreveu”. Essa leitora é uma tal Mary, que ficou tão puta, mas tão puta com meu texto que já deixou mais de 5 comentários, todos cheios de insultos cultos direcionados a mim. O que estou achando disso tudo? Bom, talvez eu responda na coluna da próxima segunda-feira.

Freud explica
E essa matéria de capa do Jornal de Hoje, hein? Publicado no dia 16/11/07, me fez pensar se não teria ocorrido nada mais relevante que esse pênis para ocupar o espaço da primeira página. Realmente, um exemplo único de jornalismo verdade.


Frase do dia
“É muito difícil escrever fácil”
Zuenir Ventura, no ENE, ao falar sobre a linguagem fluida de suas crônicas

20/11/2007

meu melhor quase amigo

A gente é quase amigo. Quase mesmo. Falta pouco pras coisas mudarem e então estamos curtindo essa fase boa dos começos. Sempre conversamos horas e horas, num animado jogo de duplos sentidos, mas apenas quando nos encontramos por acaso no bar ou na praia ou na livraria. A gente já tem o telefone um do outro, mas quase não nos ligamos. É estranho pensar nisso, mas é exatamente assim que acontece. Até agora, sem uma razão muito forte, não nos ligamos. Da última vez, eu que liguei. Por engano.

A gente vai pras mesmas festas e conhece as mesmas pessoas. Nos comportamos naturalmente quando nos vemos e de repente é aquele estouro de brindes, gargalhadas, felicidade. Amigos de infância que não se viam há 20 anos: mas a gente não se conhece nem há dois. E quer saber? É bom ter alguém assim. Que não faz tão parte da sua vida como os outros; não forma nem deforma a sua identidade; não define, com a presença, quem você é. Apenas está ali. Disponível na medida do possível.

A gente encerra em si, um para o outro, a gênese de algo muito bom, muito grande. Quem sabe um dia não vamos mochilar pela Europa com apenas 100 euros no bolso? Quem sabe um dia, bêbados e falantes, não fazemos um brinde silencioso após contar coisas perdidas da infância? Quem sabe quando velhos, enrugados, rotos, não lembramos de como éramos inocentes e verdadeiros na segunda idade?

Por hora, entretanto, apenas falamos dos assuntos correntes. Política, religião, entretenimento. De vez em quando, descobrimos um traço da personalidade do outro sem querer. Percebi que ele é um falso calmo no dia em que sua namorada ligou, ele respirou fundo e atendeu com um suave “oi, amor”. Deixei escapar que sou emocionalmente imaturo no mesmo dia: ele reclamou que ela é do tipo grudenta e eu sem saber o que responder. Pedi outra cerveja.

A gente curte os mesmos filmes, mas isso não quer dizer que gostamos dos mesmos filmes. Significa que temos um interesse comum pelo mesmo tipo de cinema e nem sempre concordamos com a qualidade do que vemos. Eu gostei de “Dogville” e ele classificou como um filme chatíssimo. Nossa amizade vai crescendo nessas diminutas diferenças.

Lembro que quando nos conhecemos, me bateu lá dentro aquela certeza de que seríamos próximos. Ainda me refiro a ele como “meu colega”, mas desde já tenho como certo que um dia, quem sabe, quando distantes, possa sentir saudades e fazer uma ligação interurbana para dizer que tudo que mais queria era dividir uma gelada com ele. A saudade de um amigo é das coisas mais puras que podemos sentir.

A gente é quase amigo e se trata assim. Não se abraça, apesar do aperto de mão caloroso. Não se liga, apesar da felicidade ao se encontrar. Não falamos de nossos problemas e isso torna tudo agradável e cheio de leveza, muito embora subsista certa superficialidade. Mas já ensaiamos ultrapassar o limite do quase. Semana passada, perguntei por que estava tão calado e meu quase amigo hesitou, começou a falar, mas calou. Eu não insisti.

Tenho muitos colegas, mas é ele que guarda as maiores chances de um dia estar comigo na final da Copa de 2014. É ele que provavelmente vai disputar com outros o título de padrinho do meu primeiro filho. É ele, certamente, dentre os quase amigos que tenho, que logo mais perderá o quase. A não ser que eu o conheça tão completamente que perceba não valer a pena. Ou vice-versa.

16/11/2007

programe-se


Começa hoje o Rock Na Rua 2007. Com a iniciativa da colega Camila Pedrassoli, o festival toma conta do Largo da Rua Chile até amanhã. São 11 bandas por dia, com ingressos a apenas 3 reais. A temporada sai por 5. E com a garantia de que você vai encontrar uma galera gente fina, tomar uma cervejinha gelada e ouvir música da boa. Os destaques de hoje, a partir das 18h, são as bandas Experiência Ápyus, Seu Zé e Rosa de Pedra (não por acaso, bandas de queridos amigos meus). Se vou estar lá? Lógico. Pra saber mais, clique aqui. A gente se encontra na Ribeira.

PROGRAMAÇÃO

Sexta, 16

18h30 - sala de Estar

19h30 - Servantes
19h50 - Ad Vintage
20h30 - Toy Guz
21h10 - Sunset Boulevard
21h50 - Lunares
22h30 - Mafalda Morfina
23h10 - Rosa de Pedra
23h50 - Experiência Ápyus
00h30 - Uskaravelho
01h10 - Seu Zé

Sábado, 17

16h30 - Klamah

17h10 - Sex Bomb
17h50 - Rock Rovers
18h30 - Skiva
19h20 - The Volta
19h50 - The Sinks
20h30 - Brand New Hate
21h10 - MobyDick
21h50 - Fliperama
22h30 - Peixe Côco
23h10 - Reverse Rock

14/11/2007

idema na fogueira

Felizmente ainda existe vida inteligente em Natal. Conforme afirmei no texto Humanidade: projeto inviável, a culpa pelo desastre ecológico no Rio Potengi, que matou cerca de 40 toneladas de peixes do dia para a noite em agosto desse ano, foi mesmo do próprio Idema - Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente. Na época, o órgão responsabilizou única e exclusivamente a empresa de carcinicultura Veríssimo & Filhos, que funciona a todo vapor nas imediações do local do desastre. Agora, após analisar oito volumes do processo, a promotora de Justiça do Meio Ambiente Gilka da Mata concluiu que o Idema é tão responsável pelo desastre quanto a empresa, conforme noticiou o Diário de Natal na edição de hoje.

Segundo o jornal, “O problema é que o Idema foi licenciando os viveiros [da Veríssimo & Filhos] aos poucos. Assim, o técnico responsável vistoriava e relatava dizendo que o projeto estava de acordo com a licença inicial. Mas na realidade, não estava. A principal questão encontrada foi a falta de taludes (divisórias) entre os viveiros e a inexistência de um canal onde os dejetos deveriam permanecer três dias antes de serem descartados no rio, conforme apresentava o projeto inicial. ‘Esse canal não existe, simplesmente não foi instalado. Nem o talude’, afirmou a promotora.”

Eu já tinha cantando a bola, então nem me surpreendi com a notícia. É óbvio que o Idema fez vista grossa. Isso é a cara do pacto social que afunda cada vez mais o Brasil: o funcionário público finge que trabalha, o Governo finge que paga bem, a propaganda governamental finge que tudo funciona, e lá vamos nós ladeira abaixo.

Claro, não vou iniciar uma guerra contra o funcionalismo público. Conheço pessoas que estão nesse setor e realmente trabalham. Infelizmente, trata-se de uma bem-vinda exceção. A maioria mesmo sonha com o emprego público porque é sinônimo de dinheiro certo e trabalho zero. Ignoram, portanto, que a felicidade subsidiada pelo governo enterra nosso país no caos.

O Ministério Público, contudo, parece ser uma outra bem-vinda exceção. Palmas a Gilka da Mata, que abriu processo para responsabilizar os culpados e agora põe nas mãos da Justiça as medidas cabíveis. Eu, por outro lado, fico aqui na minha desesperança de sempre: a Anac já foi, o Idema também, tantos outros já passaram pela berlinda, resta-nos esperar qual será a próxima bola da vez.

12/11/2007

teste activia

Eu fiz o teste Activia. Juro que fiz. Tudo começou como uma experiência empírica para alertar aos meus leitores a veracidade (ou não) das propagandas. Terminou como uma lição de vida que jamais esquecerei, de tocante significado filosófico e altíssimo teor existencialista.

Conforme a garota da propaganda indicava, meu dinheiro seria restituído caso eu não atingisse os objetivos desejados. Você sabe quais os objetivos desejados, ao passo que não vou incorrer no erro de usar palavras de baixo calão para explicar. O fato é que entrei nessa experiência sem medo. Afinal, se nada ocorresse, teria meu dinheiro de volta. Se ocorresse, me livraria de alguns gramas de, bem, você sabe, objetivos desejados.

No dia um, às primeiras colheradas, nada aconteceu além de uma sensação estranha no estômago, um aperto lá dentro, uma coisa que há muito não sentia. Era ansiedade. Afinal, o primeiro passo estava dado. Como um jovem que experimenta a primeira dose de uma droga da moda, eu sabia estar penetrando num universo cheio de meandros labirínticos. Assim permaneci até o quinto dia. Ansiedade e conjecturas. Nada de objetivos desejados.

Do sexto dia em diante, algo estranho aconteceu à minha fisiologia. Passei, como posso dizer?, a gaseificar fervorosamente os ambientes pelos quais circulava. Nada muito anormal, visto que um ser humano padrão faz isso constantemente. Nunca me dei ao trabalho de contar quantas emissões desse naipe meu corpo produz em circunstâncias cotidianas. Até este dia. Foram seis. No dia sete, como um enredo de Dan Brown, foram sete também. Já estava começando a montar hipóteses acerca da relação entre dias e gases quando percebi que no oitavo dia foram dez. Onze se eu contar o da hora que fui dormir (mas já era mais de meia noite, então computei o escore para o dia seguinte).

Foi exatamente no dia onze, porém, em que tudo começou a mudar drasticamente. Para usar uma metáfora suave, avancei do estado gasoso para o estado líquido. Foi bem naquela hora em que você termina de almoçar e se senta diante da tevê para desligar o cérebro. Pois bem, justo ali, quando fiz aquela leve inclinação do tronco para liberar espaço mais embaixo, que senti uma certa umidade. Acompanhada, obviamente, de um cheiro que posso descrever como o de um burro morto por envenenamento com creolina e enxofre.

Entretanto, a situação não era para alardes. Verifiquei meus trajes e a umidade não havia ultrapassado os limites do meu corpo. Estava, portanto, restrita aos meus recônditos. Feliz, fui trabalhar com a certeza de que posso confiar nas multinacionais de produtos laticínios. Afinal, meus objetivos desejados estavam quase se concretizando.

Não fosse o décimo segundo dia, diria que realmente se concretizaram. Pois o que produzi neste dia pode ser chamado de tudo, menos de concreto. Descrevo aquilo como uma espécie de trufa derretida com recheio de urubu em putrefação. Ah, sim, e não posso esquecer das dores de parturiente sofridas para que aquela pasta cor de chocolate viesse à luz. Não sei se era menino ou menina, mas definitivamente não era a cara do pai.

E no décimo terceiro dia, tudo saiu do controle. Cabalístico? Não sei. O que posso dizer é que o dia treze só não foi pior porque não era uma sexta. Em resumo, poupando os leitores de descrições escatológicas, visto que o intuito do artigo é apenas esclarecer os incautos dos riscos da propaganda não enganosa, acordei todo cagado. Em desespero, corri para o banheiro. Não sei se foi o nervosismo ou ainda o efeito Activia em meu corpo, só sei que o rastro que deixei atrás de mim, parafraseando García Márquez, não era do meu sangue na neve.

Em convulsionados movimentos, me contorci por exatos trinta e sete minutos sobre o trono de porcelana. Eu sei, eu sei, a imagem do vaso sanitário como trono é antiqüíssima, muitíssimo usada, quase um clichê, mas não posso evitar. Naquele momento, por todas as dores e cólicas e palavrões disparados contra a multinacional de laticínios em questão, eu era um rei.

No décimo quarto dia estava internado, usando pela primeira vez meu plano de saúde. Ele me garantiria enfermaria, mas resolveram isolar-me num apartamento devido ao teor altamente corrosivo de minha produção gasosa. Uma enfermeira que veio cuidar de mim ao início do dia quinze, espantou-se com o ruído muito peculiar de uma de minhas (incontáveis) excreções. Em poucos instantes, ela corria aterrorizada pelo quarto, com os olhos lacrimejados e uma terrível expressão de dor, enquanto berrava “Fui envenenada pelo gás sarin!”.

Foi com uma roupa de plástico onde pude ler “Risco de contágio biológico” que o médico me deu alta ao final do dia quinze. Voltei pra casa debilitado, mais magro, ainda com a estranha sensação de que eu era uma arma química. O importante é que o objetivo desejado foi alcançado. A lição que aprendi, por fim, de alto teor filosófico e elevado grau de sabedoria, é a mais óbvia: Activia é uma merda.

06/11/2007

preconceito com preconceituosos, parte II

“Se há algo que vem faltando ao debate público brasileiro é o princípio da caridade, descrito pelo grande filósofo analítico norte-americano Willard van Orman Quine. É a regrinha heurística segundo a qual, no curso de uma disputa intelectual, devemos conceder às declarações analisadas, principalmente às que vêm de nossos oponentes, a mais generosa interpretação possível. Isso significa que devemos tratá-las em princípio como racionais e bem-intencionadas. Só poderemos considerá-las falaciosas quando não houver outra leitura possível.”
Hélio Schwartsman, filósofo e jornalista

O trecho acima vem do texto “Aborto e caridade”, publicado na Folha em 1º de novembro. Se os que discordam do meu pensamento explanado no texto “Tenho preconceito com preconceituosos” (publicado logo aí embaixo) tivessem se dado ao trabalho de usar o princípio da caridade citado por Schwartsman, não precisaria voltar ao assunto. Mas não aconteceu. E lá vou eu novamente.

Preconceito é muito mais do que gostar ou não de uma vertente musical. Como adiantei nos comentários do post anterior, o preconceito segrega grupos inteiros da população (quer sejam étnicos, sociais, sexuais), gera conflitos armados que muitas vezes evoluem a guerras de grandes proporções e, como não bastasse, tira as oportunidades de muitos ao separar a sociedade em castas que, segundo o princípio da segregação, dominam umas às outras. Nada disso acontece com o cara que ouve rock em meio a pagodeiros.

Ainda sobre o preconceito in natura, o próprio Hélio Schwartsman publicou texto há alguns dias em que falava um pouco sobre ele. Em “O DNA do racismo”, o filósofo e jornalista da Folha fala sobre o real argumento que deve ser usado para combater o racismo e outros tipos de preconceito: “O argumento contra o racismo, o sexismo e outras chagas que desde sempre atormentam a humanidade deve ser moral. De outra forma, se um dia inventarem um teste confiável para medir a inteligência e ele mostrar discrepâncias entre grupos, o que acontece? O racismo estará legitimado?”

O que pretendo com essa enchente de citações é mostrar que preconceito de verdade, racial, social, sexual, o preconceito que vitima, macula, violenta, segrega, nada tem a ver com gosto musical. Você foi estudar numa escola de playboys onde todos achavam que roqueiro era maconheiro? Tadinho de você. Você sofre porque os amantes de música brega são destratados nos cadernos de cultura? Nossa, estou sensibilizado.

No dia em que você não puder entrar num restaurante porque é negro, ou não puder beijar a boca de quem ama porque ama alguém do mesmo sexo, ou ganhar menos que seus companheiros de trabalho pelo simples fato de ser mulher, ou ainda levar uma surra no meio da rua porque confundiram você com um batedor de carteira, bem, aí sim, podemos falar de preconceito. Por hora, vamos manter a discussão na música sertaneja. Que, ratifico, eu detesto.

01/11/2007

tenho preconceito com preconceituosos

Não é preconceito dizer que detesto música sertaneja. Quem disse? Muito menos considerar a voz de Zezé Di Camargo "um uivo esquizofrênico de gralha". Poxa, por que sempre confundem uma opinião pessoal mais severa com preconceito?

Escrevo isso motivado pelo artigo “É o preconceito que mexe com minha cabeça e me deixa assim”, de Thiago de Góes, publicado em seu blog Contos Bregas. Pois bem, Thiago, escrevo diretamente a você. Não concordo quando defende a tese de que a única motivação para falar mal do sertanejo é o preconceito. Engano seu. O gosto pessoal fala muito nessas horas e não estou dizendo que o rock defendido por Diogo Salles é o mais alto representante da cultura erudita. Não é. Apenas se difere do sertanejo no que tem de criativo, ousado, estimulante.

(Explico: o artigo de Thiago de Góes foi motivado pela polêmica em torno do artigo "Somos todos bregas" de Diogo Salles publicado no Jornal da Tarde, no qual ele escracha a música sertaneja, e que foi respondido dias depois, no mesmo veículo, pelo texto "Vamos vestir a camisa dos bregas" de Zezé Di Carmargo).

Zezé de Carmargo & Luciano numa
foto bem natural
: prefiro não comentar...

Eu detesto música sertaneja. Aquela sonoridade me irrita,
aquelas roupas me dão vergonha alheia e aquelas letras forçosamente sofredoras e sentimentalóides ultrapassam qualquer limite de compaixão pelas diferenças. Não é preconceito. É conceito mesmo. Testado exaustivamente pela superexposição desse tipo de psedomanifestação artística na mídia e aprovado pela sobrevivência da minha sanidade. Entretanto, defendo veementemente o direito de todos em ouvir o que quiser sem ser taxado disso ou daquilo. Você gosta de sertanejo, Thiago? Tudo bem. Eu detesto e quero que esteja tudo bem também.

Transformaram o sertanejo numa voz do povo, mas o termo é exatamente esse: transformaram. Não há autenticidade nem desejo artístico nesse grande mercado de duplas que produzem vibratos. É apenas mercado. Claro, até ouviria Xitãozinho & Xororó numa hora em que estivesse bêbado e bem acompanhado, apenas pelo que há de kitsch. Mas um tipo de música que só suporto se estiver imerso num barril de cachaça tem algo de errado.

Não confundamos as coisas, porém. O sertanejo nada tem a ver com o brega. O segundo é autêntico, feito com o tempero do escracho, propositadamente popular. Mas não é enfiado goela abaixo do público. A estratégia mercadológica do brega tem muito a ver com a do rock: independente, libertária, provocadora. E fique claro: não gosto de brega. Mas reconheço seu valor artístico.

Sandy & Júnior no início da carreira... Ah, num é não?

Não podemos sair por aí acusando de preconceito todos que têm opiniões firmes, e portanto contundentes, acerca de assuntos dos quais discordamos. Isso sim é preconceito. E eu tenho preconceito do preconceito dos preconceituosos. Entendeu como é uma argumentação vazia, uma retórica vaga? É o caminho fácil para quem pretende defender algo indefensável.

O sertanejo precisa de um banho de respeito à própria tradição. Passar vinte anos de carreira rimando amor com dor não é necessariamente um exemplo de fazer arte. A música, obviamente, não tem regras. É o seu encanto, seu segredo. Toca muita gente, de várias maneiras, sem explicação. Respeito todos que curtem qualquer gênero, do erudito ao funk carioca. Mas não admito ser chamado de preconceituoso só porque meus ouvidos me advertem que aquilo tudo não presta. Definitivamente, não.

30/10/2007

no front

Jornalismo: pior carreira
Essa é da Forbes. Em enquete com especialistas em profissões, a revista elegeu o jornalismo como uma das piores carreiras do século XXI. Segundo o veículo, a internet vai engolir cada vez mais os postos de trabalho dos sofridos jornalistas, já que a tendência mundial é o Jornalismo 3.0. Ou seja: conteúdo gerado pelos próprios leitores, a exemplo do que acontece, ainda na idade da pedra, com o Youtube e os blogs (por incrível que pareça, vem mais coisa por aí). Para a próxima década, a Forbes projeta o crescimento de apenas 5% nos cargos desse mercado. Ou seja, a já sofrida área vai sofrer ainda mais. Se você está pensando em ingressar nessa carreira, pense duas vezes. Pro seu bem. E pro meu.

Lembranças
Esse papo de pior carreira do mundo me lembrou do trote que minha turma levou dos veteranos, quando entrei na UFRN em 1997 (que cheiro estranho de mofo!). A turma do amigo Márcio Rodrigo, agora em Londres, nos saudou com um texto engraçadíssimo, que desfazia o glamour da profissão e desdenhava de nossos sonhos de calouro. Uma das frases que ficou marcada foi: o glamour vai acabar no primeiro cadáver em decomposição que você for cobrir. Trote do bem, foi um tremendo “bem-vindo a realidade” a jovens como eu, à época totalmente deslumbrado com o fato de ser jornalista.

Polêmicas inócuas
Já que o assunto é jornalismo, vamos fazer uma autocrítica. A moda agora é polêmica entre um representante intelectual e outro nem tanto. Depois de Luciano Huck vs Ferréz na Folha, é a vez de Zezé Di Camargo vs Diogo Salles no Jornal da Tarde. Explico: Diogo Salles, cartunista, publicou artigo no qual, em resumo, dizia-se um roqueiro convicto que achava o sertanejo uma merda (leia aqui). Zezé Di Camargo se doeu e pediu direito de resposta: publicou artigo no mesmo veículo, no qual exaltava a importância cultural do fenômeno sertanejo (não leia aqui). Eu, como um clichê autêntico de intelectual descolado, detesto sertanejo. E sou totalmente parcial nessa pendenga: cala a boca, Zezé, não precisamos ouvir mais merdas de sua autoria. O caso, entretanto, é a sede dos veículos por polêmicas. Parece que a era do barraco está chegando ao jornalismo impresso. E isso é vergonhoso.

Pra desopilar
A operadora de celular americana Sprint desenvolveu uma campanha viral muito interessante. Com o conceito “Fast-forward through the boring parts of life” (algo do tipo “Passe reto das chatices da vida”), colocou no ar o site Waitless. Lá, vídeos bem-humorados explicam como não perder tempo com as coisas chatas do dia-a-dia. Por exemplo, como fazer um sorvete em cinco minutos, ou como descascar batatas em 10 segundos. O vídeo mais impressionante ensina como fazer um bebê parar de chorar em 3 segundos. Dentre outras coisas, o site também disponibiliza um contador de tempo perdido: você coloca os dados de determinada ação (por exemplo, o tempo que você gasta pra ir ao trabalho) e ele diz quanto tempo de sua vida você está perdendo com aquilo. Genial!

Sobre a Feira do Livro de Mossoró
Recebi e-mails e scraps diversos de pessoas que conheci em Mossoró nesse último fim de semana. Alguns me cobraram um texto mais longo sobre o evento, com minhas impressões particulares da feira. Ando meio sem tempo de parar e escrever, por isso a ausência de uma crônica mais elaborada. Mas se isto pode amenizar alguma necessidade: o evento foi fantástico e espero muito estar lá ano que vem.

Pra não dizer que não falei do Galera
Seria uma injustiça, entretanto, não comentar o bate-papo com Daniel Galera. Mais ainda, não comentar a presença de Daniel Galera (parece nome de minissérie, né?). Pois bem, a gente tem quase a mesma idade (eu, 15; ele, 16) e talvez por isso a interação tenha sido excelente. Com a mediação de Carlos Fialho, falamos sobre romance de geração, processo criativo e influências da cultura pop. Simpático e generoso, Galera falou sem afetações da indicação de Bravo! ao seu romance “Mãos de Cavalo”, apontado como o possível grande representante da sua geração. Segundo ele, é um grande elogio, mas nunca se esquece de que quem escolhe mesmo esse tipo de coisa são os leitores. Pronto pro Galera. Lição aprendida.

Eu, Fialho e Galera: o bate-papo começou
com um assunto interessante: macarrão

Qual é o seu nome?
Ainda na Feira do Livro de Mossoró, num papo muito legal com Rilder Medeiros, coordenador-geral do evento, ele me falou do texto Qual é o seu nome?, publicado há alguns meses em sua coluna na Diginet. O post tem quase 2.000 comentários e praticamente todos os dias chegam novos. Isso é realmente um fenômeno, considerando-se que a data de publicação foi janeiro de 2006. Como sei que você não vai resistir de curiosidade, depois de ler volte aqui pra dizer se há algum outro motivo, além da qualidade literária, pra esse texto mexer tanto com as pessoas. Eu tenho minha teoria. Mas quero ouvir a sua.

Pra terminar
Segue uma foto de Preta Qui (brinde dado aos autores da FLM e que batizei assim em homenagem a Negra Li). Reparem no charme do sorriso bicolor e no livro servindo de chapéu.


Frase do dia
“Te acordei de novo, boy?”
Carlos Fialho, escritor, me ligando hoje às 8h30 da madrugada

28/10/2007

na flm

Lampeão e Mossoró
Uma coisa que mexe com os brios dos mossoroenses é a história da expulsão de Lampeão e seu bando, que marcou a cidade com o adjetivo da resistência. Era de esperar, portanto, que o encontro entre Moacir Assunção e Tarcísio Gurgel atraísse intelectuais apaixonados, como de fato ocorreu. Explico: Moacir Assunção é o autor de “O homem que matou o facínora”, um dos mais completos estudos sobre o cangaço; já Tarcísio Gurgel é o autor do espetáculo “Chuva de Bala no País de Mossoró”, musical anual que a cidade faz para comemorar a vitória sobre Lampeão. A conversa, de altíssimo nível, contou com a participação ativa da platéia, que concordou e discordou inúmeras vezes com os escritores. Sem dúvidas, um dos debates de mais alto nível da Feira do Livro de Mossoró. Ao final, Antônio Francisco, poeta mossoroense, brindou os presentes recitando um de seus poemas, que conta como Lampeão planejou se vingar de Mossoró voltando mais uma vez à cidade direto do Inferno. Genial!

O rei
Outro assunto onipresente nos encontros literários que fui este ano, esteve também na Feira do Livro de Mossoró. Paulo César Araújo, autor da biografia não autorizada - e recolhida por sentença judicial - de Roberto Carlos. O autor veio destilar mais uma vez seu rosário de lamentações contra o Rei, dessa vez num bate-papo com Thiago de Góes (autor de Contos Bregas). E que rosário, hein! Paulo César tem todos os motivos para excursionar pelo Brasil contando a sua versão dosa fatos. Afinal, num processo marcado por incompetência, ele foi o maior prejudicado com o recolhimento do livro. Ironias do destino, o autor estava hospedado em Natal no mesmo hotel onde o Rei, este fim de semana, fez uma apresentação.

Fui
Bom, hoje vai ser curtinho porque o cansaço está grande. Já esdtou de volta à Natal e venho com uma alegria enorme por saber que Mossoró conseguiu fazer um evento de alto nível, melhor ainda que ano passado. Fica meu agradecimento a Rilder Medeiros, que coordenou o projeto com criatividade e humildade. E a todos que suportaram meu mau humor matinal, mais presente do que nunca em Mossoró.

Frase do dia
“A classe média é o ranço desse país de unanimidades”
Patrício Jr, às três da manhã (lógico)

26/10/2007

na flm

Começos
Para mim, a Feira do Livro de Mossoró começou hoje. E já com uma sentida ausência: Marcelino Freire não pôde comparecer ao evento para a mesa “A nova literatura dos novos”, que dividiria com Carlos Fialho e Mário Gerson. Dificuldades em conciliar a agenda foi o motivo. Pelo visto, a mesa estava amaldiçoada mesmo. Marcelino tinha entrado na programação para cobrir a ausência de Antônio Prata. Mesmo assim, os que assistiram a mesa só com potiguares não se decepcionaram.

Oficina
Excelente a experiência de dar uma oficina sobre blogs. A palestra-aula “Do blog ao PLOG” foi hoje, às duas da tarde, no auditório da FLM. Tinha pouca gente, de certo, mas todos interessadíssimos no que eu tinha a dizer sobre o assunto. E me empolguei tanto que extrapolei o tempo. Normal. Eu falo muito mesmo. Agora, é estudar a apresentação dessa palestra em Natal.

Galera
Ontem, por acaso, me encontrei com Daniel Galera em Natal. Acabamos tomando todas e vindo pra Mossoró numa ressaca de doer. No caminho, Galera não conseguia esquecer a frase mais dita da noite passada, entremeada por várias rodadas de cachaça: calma, cara, a gente vai já embora.

Galera II
Por falar nele, nossa mesa também foi hoje. Dia cheio. Mediada por Carlos Fialho, “Romance de geração” foi um bate-papo do mais alto nível sobre este tipo de livro. Sempre vale relembrar: “Mãos de cavalo” de Daniel Galera foi apontado pela bravo como o possível romance da geração 00. Na conversa de hoje, ele deixou claro que se envaidece pela indicação, mas que um romance de geração só pode ser escolhido tão-somente pela geração.

Halloween
A noite vai terminar num halloween que acontece aqui no hotel logo mais. Coisa mais doida! Lógico que vou. Mas que é surreal, isso é.

Frase do dia
“Sai do chão, Patrício!”
Xico Sá, hoje pela manhã, ao me encontrar numa ressaca indisfarçável

25/10/2007

sangue, bundas, crack e outras coisas

Nos EUA: sangue
Na reunião do Comitê de Exterior dos EUA, a secretária de Estado Condoleeza Rice teve uma desagradável surpresa. A manifestante Desiree Ali-Fairooz furou a segurança e, com mãos ensangüentadas, gritou nos ouvidos da negona toda-poderosa: ‘Vocês têm o sangue de milhões de iraquianos nas mãos!!!’. Desiree Ali-Fairooz, lógico, foi presa.

No Brasil: bundas
E no Brasil, os protestos são mais bem-humorados. Aposentados da Petrobrás, insatisfeitos com o tratamento que a empresa dispensa a eles, organizaram um bundalelê coletivo em frente à sede da multinacional. Qula seria a intenção? Bem, tenho um palpite: mostrar à Petrobrás onde exatamente ela vinha botando neles.

Vovó Crack
E a velhota presa em Juiz de Fora (MG) por tráfico de drogas? Foi denunciada por um cliente que acabara de compras umas pedrinhas de crack. A vovó junkie foi presa em flagrante enquanto organizava umas trouxinhas de maconha na boca.

FLM
Pena não estar ainda em Mossoró para ver o bate-papo de Marcelino Freire com Carlos Fialho e Mário Gerson dentro do “Encontro de Novos Escritores do Brasil”. Começa agora às 18h e o tema será “A Nova Literatura dos Novos”. Pena, pena.

Pendenga do Forte
Depois de receber várias reclamações sobre a liberação da Fortaleza dos Reis Magos para a festa “Luau no Forte”, a Fundação José Augusto quebrou contrato com os organizadores do evento. Ou seja, ferrou todo mundo que trabalhava na festa que ocorreria neste sábado. Segundo a FJA, os dados sobre a balada não foram passados por completo para conseguir a liberação e eles só tomaram conhecimento das proporções do evento quando a mídia entrou no ar. Difícil de engolir essa. De outro lado, os organizadores querem saber quem arcará com prejuízos na margem de R$ 40 mil. Não era a favor da festa, mas sou mais contra ainda esse tipo de sacanagem que comprova a instabilidade e desorganização do poder público. Resumindo: não era pra ter liberado, mas já que liberou, segura a onda.

Frase do dia
“Engov we trust”
Título de anúncio fantasma para o Engov, publicado no site de peças impublicáveis Desencanes



24/10/2007

eua, cuba & outras coisas

Pesquisa mundial detona EUA

40% da população mundial considera que o poder dos EUA deveria diminuir para o mundo ser um lugar melhor. É o que revela uma pesquisa mundial da Gallup International em parceria com o Conselho Europeu de Relações Internacionais, publicada hoje no jornal espanhol El País. Foram entrevistadas 57.000 pessoas em 42 países, mostrando que o antiamericanismo é uma tendência global consolidada. China, Rússia e Irã também ficam com o papel de vilões: foram os países com imagem mais negativa na avaliação da pesquisa. Já os países que não têm sua imagem ligada ao potencial bélico são benquistos no mundo todo, como África do Sul e Índia. Nesse grupo de queridinhos globais está o nosso amado Brasil. Bem avaliado, o país se destaca no que a pesquisa chama de “desejo por um mundo com influências mais diversas”.

E por falar em Bush
Nesta quarta, ele anunciou a criação de um fundo internacional com o intuito de levar a democracia a Cuba. As intenções são as melhores possíveis: países desenvolvidos doariam uma grana preta para ajudar a ilha a se redemocratizar. Ou seja, para impedir que Fidel, velhusco e moribundo, consiga passar definitivamente o poder ao seu irmão, Raúl Castro. O fundo garantiria acesso a internet, mercado aberto, livre trânsito e outras benesses. Transmitido para Cuba por rádio e TV, só faltava isso para insuflar o povo cubano a não aceitar um novo ditador.

Bush em anúncio de Fundo Internacional para Cuba:
ao seu redor, esposas de refugiados cubanos

Nas palavras do presidente estadunidense, Cuba é um campo de concentração tropical e o embargo continua até que a ilha se democratize. Com essa cartada de mestre, Bush pretende ter nas mãos um rival antigo, além de melhorar sua imagem internacional e abrir novos mercados para a claudicante economia americana. Não digo que seria ruim pra Cuba. Mas que vai ser melhor ainda pros EUA, ah isso vai.

Algoz vestido em pele de herói
É interessante notar como os Estados Unidos estão preocupados com a opinião pública mundial. Longe de ser auto-suficiente como imaginava, o país de Bush está cada vez mais dependente de outros mercados. Essa é uma das razões para tentar bancar o bonzinho. Depois de erros crassos como a Guerra do Iraque, que contabilizam prejuízos enormes às contas públicas, é hora de arrumar a casa e voltar a ser sinônimo de liberdade. Mas gostaria de lembrar a Bush que a situação em Cuba tem grande ajuda dos EUA. O embargo econômico, iniciado na década de 60 graças à aproximação da ilha com a URSS em plena Guerra Fria, sucateou o país e possibilitou a ascensão de um ditador como Fidel. Ora, gozasse o país de uma boa situação econômica, a subserviência seria bem menor. Agora, Bush vem bancar o salvador da pátria ignorando que sua nação é uma das grandes responsáveis pela falta de democracia na ilha.

Aliás
Vale a pena ver de novo. Bill Clinton enrijeceu um pouco o embargo a Cuba no início dos anos 2000, preparando terreno para que George W. Bush, em 2004, fizesse um recrudescimento feroz das sanções. Bush diminuiu o limite de remessas familiares e restringiu as permissões para o turismo (até então, uma das poucas áreas econômicas da ilha que prosperavam).

Mais sanções do embargo
- Os Estados Unidos proíbem a importação de quaisquer produtos de qualquer país que contenha alguma matéria-prima cubana.
- É proibido também que empresas de qualquer país vendam a Cuba bens ou serviços nos quais tecnologia americana seja utilizada.
- Nenhum banco pode abrir contas em dólares americanos em Cuba. Também não podem realizar nenhuma transação financeira nessa moeda com entidades ou pessoas cubanas, sob pena de confisco.
- Nenhuma empresa de qualquer país pode realizar negócios ou investimentos em Cuba, sob pena de sofrerem também sanções e embargos.

Democratiza-te ou te devoro
A democracia não seria ruim para Cuba. A grande culpada pelas tentativas de fuga da ilha é justamente a falta de liberdade. Toda ditadura usa do controle das massas para manter-se viva e em Cuba não é diferente. Uma passeada por blogs cubanos comprova o que digo: muitos reclamam da falsificação da história cubana, com a morte de uma visão crítica ao se divinizar Fidel, e também sobre o acesso restrito ao conhecimento. Num país famoso por seu índice zero de analfabetismo, blogueiros condenam as restrições impostas a livros, por exemplo, inclusive de autores cubanos (que ousam em seus pontos de vista e são deportados sob a pecha de traidores). Bush sabe que a democracia anda de mãos dadas com o capitalismo. Mas os cubanos não sabem que democracia não é sinônimo de liberdade.

De volta ao Brasil
Estou de malas prontas para a Feira do Livro de Mossoró. De lá, atualizarei o PLOG com notícias curtas sobre este grande evento. Mas a feira já acontece desde ontem. Enquanto não chego lá, acompanhem as quentes do evento no Sei lá! Mil coisas, coluna de Carlos Fialho na Diginet.

Pra finalizar
Blogueiros, tremeis. Essa saiu no jornal inglês The Guardian. Os proprietários do blog aowstalk.co.uk, sobre o clube de futebol Sheffield Wednesday, foram condenados a pagar multa de € 6.000,00. A razão foram comentários ofensivos ao time postados por terceiros na página. A ação foi movida pelo próprio clube e, na impossibilidade de identificar os autores dos comentários, o juiz entendeu que os webmasters eram os culpados. Por que? Bem, se não deletaram os comentários é porque concordavam com eles. A decisão abre uma jurisprudência perigosa no direito. Como a maioria dos países ainda não tem legislação específica para a internet, é muito provável que este caso se torne ponto de partida para decisões semelhantes ao redor do globo. Na Espanha, por exemplo, dois casos parecidos já estão sendo julgados usando esta sentença como argumento da acusação.

Ps: Apesar da fonte fidedigna, tentei acessar a página em questão, mas não consegui. Se alguém o fizer, me avise.

Frase do dia
“O eleitor brasileiro pode até passar uma impressão de apatia, mas anda atento aos movimentos dos políticos.”
Do blog de Diógenes Dantas, ao comentar a pesquisa da Consult sobre a credibilidade dos políticos entre os jovens