29/06/2007

no torrent



MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO
Harold (Will Ferrell) leva uma vidinha sem graça. Até que um dia ouve uma voz feminina narrando suas ações. Aos poucos, revela-se que na verdade é o personagem principal de um livro escrito por Kay Eiffel (Emma Thompson), famosa autora de dramas conhecida por finalizar seus livros inevitavelmente com a morte do protagonista. Agora, Harold precisa encontrar a autora e tentar convencê-la a mudar o final deste livro. Um filme inteligentíssimo, que bebe na mesma fonte de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” da dupla Charlie Kauffman e Michel Gondry. Sem o arrojo visual deste, entretanto, mas com uma certeira sagacidade na forma de construir o roteiro. Cena inesquecível: Harold, o personagem, cara a cara com Kay, a autora. De arrepiar.


Ficha Técnica
Título Original: Stranger than Fiction
Duração: 113min
Ano de Lançamento (EUA): 2006
Site Oficial: www.sonypictures.com/movies/strangerthanfiction
Direção: Marc Forster
Roteiro: Zach Helm
Elenco: Will Ferrell, Denise Hughes, Emma Thompson, Queen Latifah, Dustin Hoffman


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C.R.A.Z.Y. - LOUCOS DE AMOR
A direção de Jean-Marc Vallée faz desse filme um delicado retrato de uma vida. Preste atenção na sinopse: Zachary (Marc-André Grondin) é o quarto filho de uma família de cinco homens. Tem um pai conservador e uma mãe religiosa e superprotetora. Vive na efervescência cultural das décadas de 60, 70 e 80. Nesse caldeirão de rock, drogas e sexo fácil, descobre que é gay. Bom, o que poderia ser um dramalhão gratuito ou uma comédia irrelevante, acaba sendo um divertido filme sobre a descoberta da liberdade. Mais que isso: um filme sobre uma família e suas incríveis diferenças. Tem de tudo: viciados, espancados, beduínos, sexo. Mas tudo é contado de modo gracioso. Tão gracioso que em alguns momentos faz lembrar “O fabuloso destino de Amélie Poulin”. Cena inesquecível: Zac levitando na Missa do Galo enquanto o coral sacro entoa “Sympathy for the devil” do Rolling Stones. Putz!


Ficha Técnica
Título Original: C.R.A.Z.Y.
Duração: 127min
Ano de Lançamento (Canadá): 2005
Site Oficial: www.ocean-films.com/crazy
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: François Boulay e Jean-Marc Vallée
Elenco: Marc-André Grondin, Pierre-Luc Brillant, Natasha Thompson, Johanne Lebrun, Francis Ducharme

28/06/2007

o oitavo pecado capital

Nada se cria, mas tudo se elogia.

Foi assim com o aclamado Hans Donner, que todo mundo diz ser designer mas sempre encarei como criador de aberturas de novela. É dele a “criação” – propositadamente entre aspas – da abertura de “Sete Pecados”, nova global das 19h. Confesso que tenho fetiche por abertura de novela. Mesmo que nem acompanhe a trama, cada vez que estréia uma nova sempre quero ver a abertura.

Quando vi esta, fiquei embasbacado. Até me repreendi por não acreditar mais no alemão. Não só pela produção impecável, mas também pela criatividade. Aula de vídeo mesmo! Qual não foi minha surpresa ao encontrar no Youtube uma propaganda da multinacional sueca de móveis Ikea. Quando comparamos as duas peças, fica a pergunta no ar: copiar é preciso???

Enfim, Hans Donner, de designer, voltou a ser criador de aberturas de novelas. Ao menos pra mim. Então, tire suas conclusões.
Propaganda Ikea:


Novela da Globo:


A Globo emitiu comunicado em que afirma tratar-se de um efeito criado para a trilogia Matrix (o famoso bullet time) que já foi reproduzido em larga escala em propagandas, programas de TV e até em outros filmes. Sendo assim, não vê lógica na acusação de plágio.

O que percebo, porém, é que não é só uma questão de efeitos especiais utilizados. A direção de arte, por exemplo, é idêntica nos dois filmes. O que tenho a dizer é: até pra copiar temos que ter bom senso. Puxa vida, usa a idéia, mas muda um pouquinho, né? Precisava repetir os efeitos de transição, o figurino, a ambientação?

Tadinho do Hans. Pelo menos, ainda tem a Valéria Valensa pra fazer um cafuné na careca.

Ainda tem, né???

27/06/2007

vem aí: "brasil zil zil"

Pelo MSN, hoje, ao meio dia:
Patrício:
kayôôôôôôôôôôôôô... taz onde????

Kayonara: negrooote! em brasília!

Patrício: aaaaaaaaaaai que saudade!!! e ae, como foi de viagem???

Kayonara: foi TUDO com a quebradinha na cabeça.

Patrício: kkkkkkkkkk. ótimo! hj vou publicar sobre sua viagem no PLOG. falar que vc vai viajar pelo brasil filmando e que vai enviar registros e impresões dessa viagem preu publicar no PLOG. como eh mesmo o nome desse projeto que você tá fazendo?

Kayonara: microdoc brasil.

Patrício: eh um doc sobre cultura brasileira, eh?

Kayonara: não. sobre cotidiano das coimunidades.

Patrício: ah tah.

Kayonara: são vários microdocumentários. sempre focados nas diferenças regionais dentro do nosso país.

Patrício: ah, tendi. eh pro Canal Futura neh?

Kayonara: sim. mas ainda é um piloto. em natal vai ser exibido na tropical.

Patrício: massa. que nome darei a esta sessão, jesus??? brasil total? brasil legal? brasil zil zil? tou com um bloqueio pra achar um nome.

Kayonara: gostei de “brasil zil zil”.

Patrício: sério?

Kayonara: sério. olha, tenho q sair agora. depois mando fotos e textos. as filmagens começam hoje, eu acho.

Patrício: ok. vai ser “brasil zil zil” mesmo, viu?

Kayonara: blz. bjos.

Patrício: bjos, te amo. e boa viagem.

Kayonara: sim, senhor. Bjos


Assim, a partir desta semana, a sessão “Brasil Zil Zil” vai cobrir esta maravilhosa viagem que Kayonara Souza - jornalista, publicitária e produtora - está fazendo pelo nosso país enquanto produz a série “Microdoc”. Aguardem.

25/06/2007

desta água não beberei

A água de Natal está poluída por nitrato. Trata-se de um inimigo perigoso. Não se dilui, portanto o esquema de misturar água contaminada com água pura a fim de diminuir os níveis poluentes não funciona; nem pode ser eliminado com fervura, o que deixa você de mãos atadas. Estes são dois dos truques disponíveis no mercado para diminuir, por exemplo, os danos pela contaminação por coliformes fecais. Com o nitrato, não funciona.

Se fosse só a água de Natal, puxa vida, teríamos que comemorar. A verdade é que se trata de um problema – pra não dizer fenômeno – global. Estima-se que mais de um milhão de crianças morram todos os anos devido à ingestão de água poluída, segundo dados da Unicef. E estamos falando apenas das crianças, hein!

Título: “1,5 milhão de crianças morrem
todos os anos por beber água poluída”.

Voltando à Natal.


É comovente a propaganda da Caern (Companhia de Águas e Esgotos do RN) falando sobre o cuidado que tem – e que devemos ter – com a água de nosso Estado. Ainda mais quando diz que a água passa por diversos processos de tratamento para chegar totalmente pura às nossas residências. Nenhuma referência à ação que o Ministério Público moveu contra a companhia. A Caern foi condenada a investir quase 15 milhões de reais para resolver o problema da contaminação por nitrato. Mas anuncia que não há problema algum.


A bem da verdade, a água é tratada sim, mas nenhum dos processos utilizados livra nosso precioso líquido da contaminação por nitrato. Composto químico derivado da degradação de excrementos humanos liberados pelas fossas, o nitrato causa diversos males à saúde. Dentre eles, a síndrome do bebê azul (ou metemoglobinemia, deficiência em carregar oxigênio no sangue) e o perigoso câncer de estômago.


Rio Potengi tipo exportação: a vida é bela


Esta contaminação ocorreu porque os lençóis freáticos de Natal estão em contato direto com as fossas. Quase um hiperlink! Há alguns anos, isso não representava problema. Digamos que tínhamos mais água que merda em Natal. Mas com a explosão populacional da década de 90 (e o conseqüente aumento de excrementos na cidade, como podemos constatar todos os dias), tornou-se insustentável conter a massa fecal que avançou impiedosa sobre as reservas aqüíferas.

Foi por causa disso que o Natal Voluntários fez do seu 13º Tempo “O Tempo das Águas”. A ação visou a produção de um abaixo-assinado para ser enviado à Governadora solicitando uma solução urgente pro problema. Coincidentemente, foi na semana do “Tempo das Águas” que a Caern entrou no ar com uma mídia esmagadora. Resultado: os poucos que ouviram a verdade, não acreditaram nela.

Rio Potengi de verdade: a vida é dura


A portaria 518/2004 MS estabelece que o nível máximo de nitrato concentrado na água para considerá-la potável é de 10mg/L. Pra vocês terem idéia, dos 134 poços em atividade, 69 apresentam nível superior a este. Há alguns que chegam a ter 30mg/L de nitrato. Ou seja, três vezes mais que o recomendável para consumo humano.


Nem todos os bairros são atingidos diretamente, o que não significa que você está a salvo. Alguns têm a contaminação diminuída porque contam com a sorte de estar na linha de poços limpos – mas ainda assim, estão comprometidos. Outros bairros, entretanto, recebem a água diretamente contaminada, sem nenhuma diluição. São os campeões em níveis de nitrato. And the Oscar goes to: Alecrim, Bairro Nordeste, Bom Pastor, Cidade Nova, Dix-Sept Rosado, Felipe Camarão, Gramoré, Jiqui, Lagoa Nova, Lagoa Seca, Morro Branco, Nazaré, Nova Cidade, Nova Descoberta, Pajuçara, Pirangi, Potilândia e Quintas.

"Zezinho, quer brincar de equistossomose?"


O que me deixa irritado com a Caern não é nem a contaminação. Afinal, ela já foi condenada por isso, tudo bem, a gente perdoa. Mas anunciar que o problema não existe, aí sim, é demais.

Tentando evitar a merda no ventilador, nossa companhia de esgotos nos trata como se tivéssemos um poço cheio de coliformes fecais no lugar do cérebro. O resultado dessa negligência serão doenças e mortes, pois a propaganda induz o consumo de uma água que, já está provado, não é potável.

A Caern deveria ser mais responsável com a população que financia sua existência. Afinal, homicídio doloso é uma mancha grave no currículo.

Ps.: Os dados relativos à poluição dos lençóis freáticos de Natal foram extraídos da Ação Civil Pública 001.07.2000202-7 ajuizada pelo Ministério Público contra a CAERN, através da 45ª Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente da Comarca de Natal, que tramita na 1ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de Natal.

programe-se

"SEGUNDA SOLO" COM LUCIANE ANTUNES

O projeto “Segunda Solo”, do Nalva Melo Café Salão, apresenta Luciane Antunes. Nesta segunda-feira (25), a partir das 20h30, a cantora mostra o show “Infinito Particular“, retratando um pouco de sua personalidade musical com muito romantismo. Destaque para as canções de autoria própria. Apresentação voz, violão e gaita. O Nalva Melo Café Salão fica na Rua Duque de Caxias, 110, Ribeira, pertinho da Tribuna do Norte. O telefone para mais informações é 3212-1655. O show terá couvert artístico.

SERVIÇO:
Segunda Solo com Luciane Antunes
Data: Hoje, 25 de junho
Horário: 20h30
Local: Nalva Melo Café Salão (Rua Duque de Caxias, 10, Ribeira)

23/06/2007

putz: do 5 ao 9

Mais uma série de PUTZ!
Por Patrício Jr. e Jão Saraiva.



22/06/2007

o normal

Eu estava pensando. Frase perigosa de ser dita, quanto mais escrita, deveria ficar tão-somente onde surgiu: no pensamento. Mas eu estava pensando. Nessas coisas que faço e acredito que todo mundo faz. Você não pensa nessas coisas? Eu estava pensando agora mesmo.

Todo mundo quando chega ao trabalho sente preguiça de começar o dia, o cérebro meio lento, uma vontade de seis da tarde, o gosto do café da manhã pousado na língua dando aquele querer ainda estar em casa. E aí, meia hora depois, está trabalhando feito um louco, indo e vindo sem parar, tão depressa, tão ágil, tão ocupado que nem vê o dia sendo carcomido lentamente pela voracidade do relógio. Todo mundo é assim, não é?

Quando mijo em pé, sempre apoio uma das mãos na parede. Fala a verdade, você também. E digo “quando mijo em pé” porque, mesmo sendo homem, às vezes mijo sentado. Claro, se estiver em casa. Não sei o porquê, mas acho que é a dúvida entre número um e número dois. Vai que estou no número um, de pé, e de repente sai o número dois! Melhor já estar sentado. Você não é assim não? Duvido!

Estava pensando também sobre o modo de ouvir música. Eu sento diante do som, com o encarte do CD em punho, cantando, lendo os agradecimentos, vendo as fotos. Em tempos de mp3, sento diante do PC. Windows Media Player e Google abertos, lá vou eu: ouço do mesmo jeito que antes, mas meu encarte é toda a internet. Você também, né?

Estava pensando que o fato de ter uma atitude-padrão, dessas repetidas pela maioria das pessoas, me torna apto a ser um humano normal. Com esse adjetivo apaziguando meus temores, posso me candidatar a vereador, ou conseguir um emprego público, quem sabe até um cargo comissionado. Só os normais têm cargos comissionados. E, vamos ser sinceros, não é agradável saber que somos anormais. Eu gosto de ser normal. Você não?

Queria saber se você, quando vai dormir, fica falando baixinho, como se dialogasse consigo mesmo, fazendo pedidos, repassando o dia, traçando planos. Você, por acaso, fica atento ao exato momento em que a vigília se vai e vem o sono? O momento zero entre estar acordado e dormir, o certeiro segundo em que sua mente adormece. Eu fico. E quanto mais me concentro em saber como é adormecer, mais difícil se torna dormir. Quando resolvo esquecer essa idéia, durmo. E não lembro nada sobre o instante zero no dia seguinte.

Vamos à prova dos nove.

Eu tenho mais de três e-mails, todos com a mesma senha. Tenho amigos que não vejo há séculos, sinto vontade de ligar, mas bate aquela preguiça. Sinto muita raiva de criança mimada, tanta que dá vontade de bater quando elas começam com birra. Eu não perdoei minha mãe por não ter me dado no Natal aquele kit de camping do Playmobyl. Eu tomo mais de 10 cafezinhos por dia. Digo que não ligo pra opinião dos outros e na mesma hora penso o que os outros acham disso. Eu não sinto nojo de menstruação. Adoro domingo à noite. Falo que li mais livros do que realmente li. Já menti pros meus melhores amigos. Adoro soltar pum sob o lençol. Tenho inveja de algumas pessoas. Gosto de ser invejado por outras. Já medi meu pênis com uma régua. Não tenho uma cor preferida. Já tive uma DST. Já me perguntei o que faria se ganhasse na loteria. Tenho medo de espíritos. Já planejei todo o meu futuro. 15 vezes.

Você também, não é? Então, relaxe. Você é absolutamente normal. Aliás, nós dois.
Ps.: Texto originalmente publicado site do Jovens Escribas.

21/06/2007

programe-se

Sarau na Aliança

Hoje, às 19:00h, tem o quarto "Sarau da Aliança Francesa de Natal", edição 2007. Com a presença dos representantes do PEC (Poesia esporte Clube) e da SPVA (Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do RN).

O evento será dedicado às escritoras Ana Cristina Tinoco e Jânia Souza (SPVA) e ao escritor Uraquitan Lopes. O ator Rodrigo Bico apresentará uma performance poético-teatral com as obras dos homenageados.

No mesmo evento será aberta a exposição do artista plástico Ítalo Trindade e durante o sarau o artista plástico José Alves dos Santos, da cidade de Santa Cruz (RN), demonstrará a sua técnica de pintura para o público presente e o artista plástico Adriano Albuquerque dos Santos mostrará o seu trabalho de xilogravuras.

O sarau, a performance poético-tetral e a exposição ocorrerão na Cafeteria da própria Aliança Francesa e estará aberta ao público.

Evento: Sarau da Aliança Francesa de Natal-RN
Endereço: Rua Potengi, 459 - Petrópolis
Data: Hoje, 21/06/2007
Local: Aliança Francesa de Natal-RN
Horário: 19h
Informações: (84) 8832-9261, (84) 91121189,
jctn68@gmail.com, leosodre1@yahoo.com.br
Apoios: Offset Gráfica, Aliança Francesa de Natal e Cafeteria da Aliança Francesa de Natal

20/06/2007

putz: do 1 ao 5

Entre 2003 e 2006, eu e Jão Saraiva (baixista da banda Jane Fonda, jovem escriba ainda inédito em livro, locutor da FM Tropical e redator publicitário nas horas vagas) trabalhamos juntos.

O resultado disso (além de mais de 20 pausas pra um cafezinho durante o dia) foi PUTZ!, uma tirinha que é cópia descarada do Malvados de André Dahmer, mas que consegue ser ainda mais mal desenhada.

Como não sabíamos o que fazer com as tirinhas que fomos criando, tudo ficou arquivado nos alfarrábios da vida. Agora, com o consentimento de ambos, essa sujeirada vem à tona.

Como é dia de estréia, vai um especial com cinco tirinhas. Outras tantas serão postadas no decorrer do período. Aguardem.

Apresento a vocês: PUTZ!






19/06/2007

corrida do membro

Criar anúncio pra livro é das tarefas mais difíceis. Primeiro porque às vezes o briefing é enorme (já pensou ter que ler as 888 páginas de “Ulisses” pra poder criar uma campanha?). Segundo porque é um produto que, classicamente, viva ao nosso Brasil!, não vende. A não ser que você esteja criando a campanha do mais recente Paulo Coelho.

Senti isso na pele quando fui divulgar meu primeiro livro, “
Lítio”. Tomado por egocentrismo puro, eu mesmo criei, redigi, leiautei e tracei toda a estratégia de lançamento. Não foi um fracasso. Mas, como muitos notaram, estava contaminada por minha visão sobre o livro. E o autor, vocês sabem, nem sempre vê seu filho como ele realmente é.

Depois disso, fiquei atento às campanhas de livros, livrarias, editoras e afins. Dentre tantas que já vi e colecionei, esta me chamou atenção. Tem títulos muito bem bolados e uma arte bem original. O autor, sabiamente, entregou a criação para a agência paulista
NovaS/B. Vejam o resultado.



FICHA TÉCNICA
agência: NovaS/B
redação: Mauricio Meirelles

direção de arte: Renato Domingos
direção de criação: Valmir Leite
anunciante: Editora Objetiva
ilustração: Renato Domingos
aprovação: Ubiratan Muarrek

Não li o livro, mas estes anúncios cumprem seu papel ao atiçar a curiosidade e contar um pouco da história. O suficiente pra dar vontade de ler. Ando paquerando com ele no submarino.com há alguns dias. Se deu vontade em você também, clique aqui.

18/06/2007

brócolis

Levava-se a sério demais. Muito a sério. Dizia piadas, todo mundo diz, até aí nada demais; às vezes também sorria com as alheias. Mas por dentro estava sério. Sisudo. Calculava exatamente o que dizer para não ofender, não se prejudicar, manter a boa imagem. As piadas saíam provocando sorrisos, mas tão sem vida. Os sorrisos. E as piadas. Além disso, tentava sempre ser sincero. Mas uma sinceridade racional, milimétrica, minuciosamente pensada para não incomodar – de novo, o cálculo. Sabe documentário de Michael Moore? Muito sincero, mas tudo é editado para que apenas um tipo de verdade apareça. Pois bem, se editava. Caso pressentisse que suas atitudes desagradariam, cortava cenas, reescrevia diálogos, usava eufemismos. Era seu próprio órgão sensor. Fazia tudo de um modo brando, sempre disposto a manter uma imagem ilibada. Um brócolis. Do tipo que todos sabem exatamente o que esperar. Um brócolis absolutamente sincero acerca de si mesmo. Mas jamais deixando de ser um brócolis. Então, o primeiro plot point. Foi demitido, perdeu a namorada, arrombaram sua casa, seus pais morreram. Claro, não aconteceu tudo no mesmo dia, muito menos na ordem citada. O fato é que aconteceu. Ao longo de um ano, inesquecível ano, era um brócolis desempregado, solteiro, falido, órfão. E sem amigos. Estes sumiram na mesma velocidade com que as perdas surgiram, ele se perguntando se algum dia realmente os teve. Aquilo tudo que ele acreditava ser ruiu. Seria ele o emprego? A namorada? Os pais? Os bens? Os amigos? O cachorro? Ser, então, era apenas um resumo de ter? Seria este brócolis apenas as coisas externas que denominava posses? Foram dias amargos de autocomiseração até que veio o segundo plot point. Ganhou na loteria. Em segundos, passou a ser o homem mais rico da cidade. Do estado. Quiçá, país. Voltou a ter casa, televisão, som, cachorro. Voltou a sorrir por fora, apenas por fora, dentro a grande carranca provando que se levava a sério demais. Montou uma empresa, voltou a trabalhar, fez novos amigos. A felicidade era realmente inevitável. Imerso no brando banho-maria dos dias, manteve-se brócolis. Nenhum novo plot point. Porque há pessoas que jamais aprendem.

15/06/2007

os filhos da xuxa

Desaprovo qualquer tipo de violência contra crianças. Mesmo que seja carregada de boa intenção. Nem palmadinha pra dar exemplo, nem surra pra não fazer de novo. Inclusive, teve até um Tropicaos sobre isso, no qual me enchi de revolta por ver gente defendendo o famoso corretivo. Dito isto, apoio incondicionalmente a campanha Não bata, eduque, lançada esta semana.

Esta convicção, porém, foi sacudida quando vi a união de Lula e Xuxa no evento de lançamento.

Lembrei imediatamente da comunidade do Orkut “Xuxa, desista”. Porque já passou da hora, não acham? Vou até procurar alguma comunidade por nome de “Lula, desista”, agora que eles formam uma dupla. O título é bem pertinente.

Xuxa disse que nunca apanhou na vida, usando-se como exemplo de ser humano bem sucedido. Belo exemplo mesmo. Mas só pra quem esqueceu do filminho pedófilo “Amor estranho amor”, protagonizado pela ex de Pelé e Airton Senna antes de estourar como rainha dos baixinhos. Tudo bem, ela é milionária, bonita, dedicada. Mas se bater nos meus filhos impedir que eles sejam demagogos, irritantes e hipócritas… bom, começo a repensar minhas certezas.


Já o Lula – ah, esse Lula, sei não – falou que nunca bateu nos filhos. Inevitável lembrar de Fábio Luis, o rebento presidencial envolvido em diversas denúncias de corrupção, sócio de empresas misteriosamente ligadas a gigantes como a Telemar, que ficou milionário da noite pro dia. Ele jura que nunca usou de seu parentesco para fechar negócios. Mas tráfico de influência, todos sabem, é um crime praticamente impossível de provar.

Teve aquele outro, da farra no Palácio da Alvorada. Luis Cláudio levou catorze amigos – catorze, minha gente, catorze amigos! – para férias inesquecíveis na residência oficial do Presidente. Adivinha quem pagou a conta? Pois é, umas palmadinhas no bumbum quando criança, ao som de “Se o dinheiro não é seu, você não gasta”, talvez tivessem evitado mais esse assalto aos nossos bolsos.

Tenho pena da Sasha. Pobrezinha. Tem tudo que quer, é famosa, não passa fome, anda sempre com roupinhas lindas, cabelinho loiro bem tratado, sorriso colgate (deveria ser crime fazer clareamento em dentes de leite), brinquedos, brinquedos, brinquedos. Mas no dia que cometer um errinho sequer, vão dizer: tá vendo?, a Xuxa não tinha pulso forte, deu no que deu. Sasha, peça pra sua mãe te dar uma surra ao vivo no TV Xuxa. Isso vai evitar problemas futuros.

Conselhos à parte, não quero que minha filha seja como a Xuxa. Prefiro vê-la pobre e feia, mas sem um filme pornô na bagagem, sem um passado de hipocrisias, sem fama de rainha que fez pacto com o Diabo e dorme sozinha todas as noites. E se meus filhos forem como os de Lula, vou guardar minha carteira num cofre com três portas. Em Genebra.

Sinto que comecei o texto acreditando piamente numa coisa e acabei com dúvidas crudelíssimas sobre minhas convicções. Mas tudo bem, nem me surpreendo. Abalar convicções tem sido uma constante no currículo do nosso presidente desde que assumiu o Palácio do Planalto. Lula deveria levar umas boas palmadas no bumbum, isso sim.

Ps.: Abusei de links e fotos hoje, né? É o deslumbramento com o blog novo, foi mal...

14/06/2007

esse marcelino é um danado

Devo confessar uma coisa. Sou escritor. E depois de participar da Bienal do Livro de Natal, dividindo palco com Marcelino Freire num bate-papo sobre literatura e blog, tive uma certeza. É irreversível.

Pra quem não juntou o nome à pessoa, Marcelino Freire é um dos expoentes da literatura contemporânea brasileira. Vencedor do Prêmio Jabuti 2006 com o excelente “Contos Negreiros”, esse pernambucano da cidade de Sertania foi também organizador da divertidíssima e criativa coletânea “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século”. Atualmente, é conhecido em São Paulo como um grande agitador cultural, com textos postados nos principais portais de literatura do país. Ok, tentei não expor minha admiração, mas escapou.

Dono deste currículo, ele chegou no meio da palestra do Jovens Escribas (que antecedia nosso bate-papo), sentou-se ao meu lado e quis saber como estavam as coisas. Assim, bem natural. Er… o que a gente diz numa hora dessas? “Olha, cara, tô quase me borrando, acaso você teria um lexotan com vodca aí?”

Eu estava uma pilha. Já havia comentado com meus amigos a apreensão de me apresentar ao lado de Marcelino. Quem já viu o Marcelino lendo um texto em voz alta tem idéia do que falo. Ele dá uma vida impressionante às palavras, faz as letras reverberarem dentro da gente. E eu temia, claro, ser ofuscado pelo brilho natural dele. Brilho não, força. Pois é com força que Marcelino imposta a voz pra recitar sua prosa.


Meu temor não aconteceu. Generoso, ele deixou que eu aparecesse sem que parecesse que eu queria aparecer. Dá pra entender? Enfim. Nessa tarde, compreendi porque mesmo sem formar um grupo como o Jovens Escribas, os escritores que conheci em Sampa são tão unidos. Xico Sá, Antônio Prata, André Laurentino, Santiago Nazarian, Daniel Galera: todos eles rezam a cartilha do companheirismo nos moldes de Marcelino.

Humilde de forma natural, daquela maneira que não precisa pedir desculpas caso escape um auto-elogio, meu companheiro de palco deu espaço a todos. Até mesmo, ou principalmente, ao público. Por obra dele, não houve o esquema “a gente fala e só depois vocês perguntam”. Não. Era bate-papo mesmo, com a platéia interferindo e todo mundo participando. Até eu!


Ao final, ainda recebi uma lição. Um rapaz da platéia chamado Benício fala que tem um blog e pergunta algo relacionado ao tema. Antes de responder, Marcelino pede que ele diga o endereço de seu blog para que todos possam acessar. Benício, lisonjeado, responde. Gentileza que só cabe em alguém grande como Marcelino Freire.

Não bastasse tudo isso, “Contos Negreiros” ainda é um dos melhores livros que li nos últimos tempos. Ok, deixei escapar de novo.

Ps.: Por falar nisso, vocês podem acessar o blog do Benício. Ando fuçando por lá descobrindo coisas bem legais.

13/06/2007

morreu na praia

Adorei a notícia dos atentados terroristas na Praia de Ponta Negra. Finalmente chegamos ao primeiro mundo! Puxa vida, importar terroristas do Rio de Janeiro não é pra qualquer um! Bom, ao menos é o que o Paulo Irresponsável Wagner anda dizendo no seu programa de TV. A polícia coíbe o crime no Rio, então os traficantes vêm pra Natal. Simples, não é? Adoro ver aquele porquinho na TV!

Não entendo o medo estampado na cara de todos ao citar o terrorismo no nosso cartão postal. Gente, é para o nosso bem. Vejam o exemplo da Espanha. Estava mais caída que vítima de bala perdida quando o
ETA suspendeu o cessar-fogo. Foi o suficiente pra Espanha velha de guerra voltar ao noticiário global. Alguém duvida que o turismo vai melhorar por aquelas bandas? Ok, turismo não foi um bom exemplo…
Mas, gente, não desanimem, quem liga pro turismo? Vocês realmente acreditam que Ponta Negra traz algum lucro para o Estado com o turismo? Só quem ganha com aquilo ali são as putas e os traficantes, minha gente. Se você não é nem um nem outro (nunca se sabe, aqui em Natal tem em todo canto), então relaxe. O máximo que essa onda de atentados vai conseguir pra sua vida é uma encheção de saco no noticiário local. Com o Paulo Irritante Wagner gritando, entre um merchandising e outro, que ninguém faz nada pra acabar com a violência na cidade. Concordo. Nem mesmo ele.


Atentados na nossa amada praia não são bem novidade. Ao pudor, por exemplo, já acontecia há muito tempo. Estes, porém, trarão benefícios à população. Por obra da querida Família Mashkov – alcunha pela qual se apresentam os terroristas – os pedreiros europeus vão deixar de vir para cá molestar nossas crianças. E nossas mulheres. E nossos homens, também, por que já chegou nesse ponto! Ponta Negra será devolvida à população local. A longneck não vai mais custar 4 reais. E, acima de tudo, ficaremos cada vez mais parecidos com as cidades que admiramos tanto.

Ora, não chamam orgulhosamente nossa Av. Afonso Penna de “Oscar Freire Potiguar”? A qualquer sinal de chuva, quiçá neblina, os natalenses já não correm pros seus armários em busca dos casacos de pele sabor naftalina? O povo daqui não adora praticar o bairrismo reficense às avessas (“não compre o que é daqui”)? Então, gente, estamos a um passo de nos transformarmos numa favela de São Paulo! Tiros, atentados, balas perdidas, inocentes abatidos num belo fim de tarde, tendo por maior testemunha o Morro do Careca. E nosso PCC ainda é mais chique: tem um pomposo nome russo.

Quem quiser entrar em contato com nossos salvadores, pode adicionar
f_mashkov@hotmail.com no MSN. Foi através deste endereço que os terroristas entraram em contato com mais de cem comerciantes de Ponta Negra pedindo dinheiro para não repetir os atentados. O Paulo Idiota Wagner já prepara cobertura completa dos eventos do próximo dia 15. É quando os terroristas vão voltar a atacar caso não haja o pagamento que pleiteiam.

O que nos diferencia da Europa é isso: enquanto o ETA mata por um ideal, a gente mata por um naco de pão.

Ps.: A polícia ainda não acredita na ligação entre o e-mail enviado aos comerciantes e os atentados ocorridos na orla de Ponta Negra. O que me remete a Dana Sully…

12/06/2007

fale com bush

O briefing era: criar um anúncio para a ong O Mundo em que Vivemos com o intuito de sensibilizar George W. Bush a assinar o Protocolo de Kioto.

Com esta informação, publicitários do Brasil inteiro colocaram sua criatividade à prova do aquecimento global em busca de um prêmio em tanto: ser delegado do Brasil no festival de Cannes (aspiração de todo bom jovem publicitário, incluindo eu).

Abaixo, meu anúncio preferido.


Título: "Presidente Bush: ao contrário do que o senhor pensa, os EUA não estão imunes ao aquecimento Global. Faça como o resto do mundo, assine o Protocolo de Kioto."

No shortlist do concurso, entraram mais 9 anúncios. Todos criativos e belíssimos. Não concordei com o primeiro lugar, mas tudo bem, quem sou eu diante de um júri de tantas estrelas?

Você pode conferir o shortlist completo e mais informações sobre o concurso clicando aqui. O site do concurso, por si só, é um show a parte.

Se você não foi embora ainda, pode tentar responder nos coments à seguinte pergunta: o que você diria para convencer o Bush a assinar o Protocolo de Kioto? A melhor resposta ganha meu respeito.

eu gosto dos emos

Nunca pintei os olhos com lápis sem ser para ir a um Halloween. Nunca usei esmalte preto ou chapinha na franja. Nunca chorei por motivos como “o peso de existir tão só num mundo cruel demais”. A esta altura da vida, quase trinta com muito orgulho, acho difícil vir a fazer uma dessas coisas. Começo assim para deixar claro que não sou emo. Mas, na contramão do que ficou estabelecido dizer para parecer cult, eu gosto deles. Gosto dos emos.

Os chamados movimentos culturais da juventude vêm agonizando. Desde o punk, não temos um fenômeno cultural realmente encabeçado pelos jovens, que mude costumes, que abra a consciência de uma geração inteira para uma nova forma de pensar. Talvez esteja acontecendo com os emos. Não falo do emocore, ou das roupas, ou das franjinhas. Cada detalhe deste, quando posto isoladamente, soa inevitavelmente ridículo.

Que tal voltarmos no tempo e falarmos sarcasticamente de moicanos coloridos moldados por sabão em barra, alfinetes de fralda mutilando lóbulos de orelhas adolescentes, calças rasgadas tentando provar ao mundo a bagunça de ser jovem? Com sarcasmo, amigo, até o movimento punk se torna inexpressivo.

A música do supracitado movimento foi vista como pobre e vazia em sua época. Garotos drogados gritando sua rouquidão num microfone era de uma pobreza de doer aos ouvidos de quem vinha de uma década banhada a rock progressivo. Mas o movimento punk, mesmo sofrendo da ausência de uma aspiração filosófica mais elevada, foi uma das manifestações culturais mais importantes da juventude. Mudou a maneira do jovem enxergar o mundo e vice-versa. Abriu os ouvidos da sociedade para problemáticas graves que nem sempre eram trabalhadas com apuro poético nas letras. Foi, talvez, a última grande mudança de costumes do século XX.


Não vou ser irresponsável e colocar nas mãos dos emos a missão de ser um novo movimento punk. Essa jamais seria minha intenção. Mas mesmo sem gostar de emocore e achar lápis no olho desnecessariamente retrô e considerar franja encobrindo rosto coisa de cão são-bernardo, não fecho os olhos para a criatividade destes incautos.

Os emos optam por se mostrar diferentes porque querem um mundo diferente. Muito embora nem todos sejam gays ou bissexuais, têm em mente o respeito pelas opções do outro e a valorização da não-rotulação das atitudes (aliás, não entendo o prazer que alguns têm em chamar os emos de gays, como se ainda fosse honroso em pleno século XXI usar a orientação sexual de alguém como insulto). Em outras palavras, como os próprios emos se definem, eles são sexualmente flexíveis. Apesar da mídia ressaltar o lado sofredor-gratuito-incompreendido desses jovens, eles sabem se divertir. Aliás, diversão é uma palavra de ordem, colocando no universo rock uma pitada da cena eletrônica. Ah, detalhe importante: respeitam as diferenças. Então não é comum ver um emo rechaçando um fã de axé, por exemplo.

Depois do punk, outros movimentos ficaram conhecidos mundialmente e tiveram sua influência na formação de algumas gerações. O grunge, o nü-metal, a cena eletrônica. Criativos, esses movimentos representaram grandes evoluções na história da música jovem. Em termos gerais, entretanto, não foram cabais para o futuro (diferente de outros mais importantes, como os hippies). Com outras palavras, não chegaram a massificar uma mentalidade a ponto de mudar a visão de mundo de toda uma geração. Neste quesito, os emos estão mais próximos.

O rock que gosto realmente é o que faz barulho, gritado, com bate-cabeça, cheio de revolta e indignação. Mas isso é música. Não estou falando de música. Os emos são importantes quando utilizam linguagens globalizadas - música, moda, tevê - para tentar propagar uma mensagem de respeito ao outro, de tolerância às diferenças, de liberdade individual. É bom ver jovens se mobilizando em torno de um ideal comum nesta sociedade tão carente de ideais.

Além de todas estas razões sérias, gosto dos emos porque são divertidos. Se eu tivesse 17 anos, certamente seria emo. Eles se organizam em grupos, ignoram os olhares mesquinhos, as reprovações da sociedade, e criam seus próprios parâmetros. Uma experiência assim é importantíssima para a formação de caráter de qualquer adolescente.

O bom dessa idade é pensar diferente, agir diferente e poder ser diferente. Isso os emos fazem. E melhor que muito hippies, punks ou grunges de carteirinha que ainda sobrevivem por aí louvando valores perdidos no tempo. Nossa, parece até minha mãe falando.

11/06/2007

vagina

Como pessoas paradas na fila do banco. Exatamente assim: pessoas paradas na fila do banco. Primeiro, a esperança de ser atendido, as contas na mão, tudo prontinho, logo chega a minha vez. Com o tempo se arrastando e a fila não, aquela angústia, aquela agonia, aquela sensação de querer mover as pernas mas saber que não adianta, a fila não anda, vai caindo lentamente sobre a cabeça o desespero do não mover-se. Em seguida, estágio dois: a raiva, um fala com o outro, reclamam, apontam os caixas, sempre tem alguém que diz é-um-absurdo-ter-só-dois-caixas-atendendo. Então vem o estágio três, o mais melancólico de todos, aquele em que tudo se acalma, passa o desespero, passa a raiva, fica só um olhar perdido em direção aos guichês de atendimento, pura tristeza solta no ar enquanto se conformam pela perda da hora do almoço, pelo chegar atrasado no trabalho, pelo sentir fome sede cansaço. Tristeza. Muito bem, como pessoas na fila do banco no estágio três. Era assim que ele estava diante da esposa. Desnuda, pernas abertas, celulites à mostra, quarta-feira da vigésima segunda semana do oitavo ano de casamento. A mesma vagina que não se umedece por completo e causa um pequeno incômodo quando ele entra rumo a algum triste prazer; os mesmos gemidos em mi maior, às vezes excessivamente forçados, noutras – raras vezes – reais; os mesmos pedidos de xingamento, me chama de puta, diz que sou vagabunda, fala onde você quer meter; o mesmo suor descendo pelos corpos, suor que deveria ser de prazer mas é de esforço, esforço para manter-se ereto, esforço para continuar num ritmo agradável, esforço para controlar a vontade de dizer cala-essa-boca, esforço para atingir algum nível de contentamento que se assemelhe, ainda que tenuemente, ao que recorda ser um orgasmo. Uma pessoa parada na fila do banco. Era ele entrando pela octingentésima vigésima nona vez naquela vagina de sempre. Vagina com gosto de fila de banco.