30/07/2007

imagens falantes

Lá estou eu admirando obras do grande René Magritte na internet, quando meu dupla, Gustavo Lamartine, olha de soslaio, gosta do que vê e escreve num papel as seguintes palavras: Chema Madoz. Como sei que Lamar não fala sânscrito, fui direto ao Google descobrir o que era aquilo. Aquilo, vejam vocês, era um fotógrafo espanhol que faz as maiores pirações com uma câmera. Fotomontagem, foto-arte, foto-conceito. Definam como quiser. O importante mesmo é olhar com cuidado cada um dos trabalhos desse gênios e sacar o que eles dizem. E como dizem! Pra quem ainda não clicou direto no link do cara, uma amostra grátis de Chema Madoz.




27/07/2007

a palavra

Aquela palavra. Pronunciada desde sempre em sua casa, tudo com uma falta de pudor, um desprendimento da vergonha, uma naturalidade. Várias mulheres, poucos homens, o resultado era que a palavra sempre pousava em algum lábio nas conversas casuais. Às vezes porque Ana Paula sentia dores muito fortes, outras vezes porque não tinha chegado a de Carmem. A prima sempre fazia esse tipo de drama com a palavra. Parece que sentia prazer em desesperar a tia Lúcia, que prendia o choro com as piadinhas da filha.

A palavra.

Ela não gostava de ouvir, não queria saber o que era, tinha nojo de pensar que aquilo aconteceria um dia. A mãe, entretanto, era compreensiva com a repulsa da filha. Dizia que era inevitável, que toda mulher passava por aquilo, que a hora dela chegaria. Eu não quero, mamãe, não quero, Bela dizia, agarrada à sua boneca de pano, batendo o pé no chão como se isso pudesse frear a vida.

Antes dela, porém, foi a vez de Julinha. Pouco mais de dez anos, a menina. Gastava a infância jogando futebol com os garotos, toda cheia de pereba nos joelhos, o cabelo desgrenhado como uma luta. As tias reclamavam que isso era coisa de menino, mas a mãe de Julinha era moderna, queria mais que a filha fosse feliz. Bela amava a prima com seu jeito moleque, seu não atentar à vida, tanta liberdade. Pois Julinha provou que não tinha nada de menino justamente num almoço de domingo. Sentada na varanda fazendo a Barbie bater pênalti pro Ken defender, e de repente aquilo. Vermelho, viscoso, vivo. A palavra.

A primeira que viu foi Carmem, berrando como locomotiva pela casa que Julinha estava machucada. Correu todo mundo. Aliás, quase todo mundo. Os homens ficaram de longe, como quem bisbilhota um acidente de trânsito, todos imersos num não entender tipicamente masculino. Foi a mãe de Bela quem primeiro se aproximou da prima, toda lacrimosa agarrada à Barbie, ao Ken, à bola. O que aconteceu comigo, tia?, ela perguntou chorosa. E a mãe de Bela, trocando olhares com a filha, abraçou a sobrinha como se um útero pronto a proteger por nove meses. A palavra, Julinha, a palavra.

Depois daquilo, Bela passou a odiar mais ainda o que era inevitável. Primeiro, porque percebeu Julinha cada vez mais distante da bola, dos meninos, do sentar no chão só de calcinha. Segundo, porque começou a enxergar seu futuro na prima. Sempre com o cabelo domado por cremes, os lábios mergulhados nos mais brilhantes batons, as unhas grandes que não brincavam mais na terra de antes. Julinha agora se chamava Júlia.

E Bela olhava em volta de seu mundo perfeito de bonecas cor de rosa e vestidos de babado para dizer não, não e não à palavra. Não àquilo que transformou Julinha numa versão mais nova da Carmem. As duas de quiquiqui pra lá e pra cá, fingindo timidez na frente dos meninos, sorrindo entre dentes. Falsas, dissimuladas, pesadas.

A mãe tentava em vão dissuadi-la da aversão. Explicava calmamente, veja bem, Bela, não é ruim, você fica mais bonita, vai ter mais liberdades. E era tão doce o tentar convencer da mãe que quase conseguia. Mas não. Bela se trancava no quarto, dizia que odiava todo mundo e rezava para que jamais passasse a se chamar Isabel.

Um dia acordou e viu a mancha no lençol. A palavra se espalhando pelo tecido branco, viva e pulsante na cor da guerra. Gritou, chorou, quis morrer. A mãe veio correndo, entendeu tudo, deu aquele abraço de útero. E foi tão bom estar nos braços da mãe, sentir-se protegida, ver que a mãe era como ela, feliz, verdadeira, leve, não parecia com a Carmem nem com a Júlia.

No aniversário de 60 anos, lembrava suavemente daquele dia de descobertas até ser interrompida pela neta. Com a bola na mão, a menina queria que Vó Bela ensinasse a Barbie a bater um pênalti.

24/07/2007

riso

É com riso que você me tira o sono. Sem cerimônia alguma com meu mal humor matinal, minhas oito horas diárias de descanso interrompidas. Você entra, grita meu nome, se lança. E que estranho, eu penso, que estranho haver riso nos meus lábios mesmo sabendo que essa uma hora a menos de dormir vai estragar todo o resto do meu dia, vai me dar dor de cabeça às cinco da tarde, vai desesperar pela hora de sair do trabalho.

É com riso que você recebe um pedaço da minha comida, da carne ou da verdura, e é com riso que compartilho meu almoço. Sem entender o que acontece no ar que fica mais limpo, na tevê que vira música, em você crescendo tanto dentro do que pensava ser eu. Pois, é nítido, não sou quem pensava. Recebo a carga do teu peso, o choro sem motivo, a insistência pelo que deseja: recebo tudo isso com uma benevolência que eu não tinha.

É com riso que me interrogo, intercalado pelo riso teu, sobre o que é isto aqui dentro tão colorido e vivo e necessário a cada dia que passa. O que é isso, me pergunto, servindo-te do meu leite, compartilhando meus espaços, deixando você invadir minha vida veias sangue território. O que é isso?

É com riso que ultrapasso os limites da noite, que escancaro paredes e portas, que me jogo no chão e tchau dor na coluna, quero mais é estar no chão sentindo o gelado que te faz bem. Quero mais é que você tenha roupas parecidas com as minhas, e queira sempre um pouco de desodorante quando estou passando, e finja fazer a barba com o excesso de espuma que cai na pia, e me aponte no peito toda vez que diz meu nome, e sorria quando diz meu nome, porque é com riso que ouço de tua boca o meu chamado.

É com riso que vejo você crescendo enquanto sou cada vez mais uma criança.


22/07/2007

putz!

Mais ma série de Putz! pra vocês.
Pode comentar ali embaixo.




20/07/2007

essas tuas partes minhas

“One day I know
We'll find a place of hope
Just hold on to me”
PJ Harvey, “A place called home”


Amigoamiga, foi com você que aprendi a subir em árvore, andar de bicicleta, brigar na rua, jogar biloca, deslizar no carrinho de rolimã. A gente ficava no telhado da casa espionando a vida dos vizinhos e conversava sobre Transformers, Comandos em Ação, Homem-aranha. Você dizia com tanta certeza que queria ser astronauta e eu com vergonha de não ter certeza dizia “quero ser professor”. Foi com você que desenvolvi o conceito de individualidade, e descobri que o mundo era grande, e desci correndo uma ladeira enorme, fugindo dos buracos, de mãos dadas, cantando Balão Mágico. Porque eu tinha medo de descer sozinho. E você só ia comigo se eu cantasse “Se enamora”. Quando meu nariz sangrou pela primeira vez, num domingo de manhã na igreja, quem chamou minha mãe foi você.

Quem mais trocaria de lugar comigo porque eu não enxergava bem? Tenho certeza que nem se lembra disso, mas ficou tão marcado, você com seus cabelos-cachoeira e voz esganiçada, gritando pra quem quisesse ouvir que me amava. Foi com você, amigoamiga, que discuti religião pela primeira vez, depois que a professora me expulsou da sala porque sugeri que Nossa Senhora era uma vadia. A gente fez a brincadeira do copo e tivemos certeza que conseguimos contato com um espírito chamado Dverho; a gente jogou tô-no-poço e acabou estourando um cano de água bem na hora do meu primeiro beijo; a gente deu lagartas-de-fogo pra copeira dizendo “Alaíde, faça seu jantar com isso”. A gente odiava tanto aquela copeira!

Amigoamiga, como você me conhece! Pois era você que estava ao meu lado quando levei o primeiro soco, a raiva consumindo seus olhos diante da violência e você partindo pra cima, rasgando o ar, superhomemmulhermaravilha. Aquelas minhas primeiras lágrimas de perda foram pra você, mudando de cidade sem me dizer se nos veríamos de novo, eu parado na rua com o olhar fixo no caminhão da mudança (teu olhar de medo paralisado na janela da boleia). Quando eu não tinha com quem falar e o medo de viver me tomou as veias, foi você que me contou o filme da Sessão da Tarde fingindo que não sabia que eu estava mal. Era “O Cadillac Azul” e contava a história de três irmãos que não se viam há anos. Depois disso, a gente viu “Em nome do pai” no cinema e só você percebeu que eu chorei. Guardou segredo. Por isso te amo.

Você segurou minha mão quando o desejo saiu do controle e precisei de alguém que fosse freio. Lembro de você dizendo “calma, tudo tem a sua hora”. Seus pais me chamaram de filho, suas irmãs me ofereceram bolo, você resumiu o que sou dizendo “você é mesmo incorrigível”. A gente fez um jornal no colégio e fingiu tuberculose no elevador e saímos juntos pela noite perguntando às garotas das esquinas quanto cobrariam por um programa a três. Com você, fumei pela primeira vez o ar da vida, compartilhei dúvidas e desesperos, chorei porque minha mãe feriu-me o rosto, comemorei a morte da saudade quando te reencontrei na rodoviária.

Amigoamiga, a gente sugou oxigênios de outras cidades, a gente descobriu a vida e tantas maneiras, a gente foi se transformando no que somos sem nem saber o que somos. A primeira pessoa que soube que eu acordei pra vida foi você. Por carta. Depois, ao vivo, a gente falou a noite inteira, até ver o sol nascendo, fomos dormir exaustos e sem ar e felizes. Era você que jogava basquete, andava de skate, falava palavrão e me dava tapas na nuca. E foi pra você que eu disse no meu primeiro porre “quero ser igual a você quando crescer”.

Você falou comigo no ônibus pensando que eu era maluco, me ofereceu uma Halls pra disfarçar meu hálito de mato, me contou “Ulisses” durante quatro horas de viagem. E sem saber, transformou tudo isso no ano zero da minha linha do tempo. Antes de você, depois de você.

Ah, quanta falta sempre te sinto! Pois era com você que eu falava inglês toda vez que ficava bêbado, era com você que eu transformava a amargura em letras de música, era só a gente que conseguia mergulhar num fim de semana de cervejas para se preparar pra semana de ressacas. Era você que dizia “isso não vai nos levar a lugar nenhum”. Era você que dizia “foda-se, galado”. Era você que dizia “e o livro, quando é que sai o livro?”. Foi pra você que eu disse frases que nunca me esqueço – “se tocar ‘À Flor da Pele’ te beijo na boca”, “você já sabe o que fazer, só falta colhão”, “me afeiçoei tanto a você”, “caralho, bicho, caralho”, “vamos dançar, vamos dançar”. Foi você que chegou criança e se mostrou tão grande, pensando que eu ia te ajudar quando sempre foi ao contrário, você dizendo que minha mãe é igual a sua e eu dizendo que elas falam a mesma coisa de nós dois.

Como é belo teu cabelo, amigoamiga, esse frondoso ruivoloironegro, depende tanto do dia da semana essa tua cor. E é delicioso marinar no vinho até ver o sol nascer, ou dividir uma sopa no meio da semana, ou conversar pelo skype na hora do almoço, ou tomar uma cervejinha de leve na sexta que só termina sábado pela manhã. Foi pra você que perguntei o que tinha de errado pra você não querer sair ontem, foi pra você que contei que já havia reservado sua vaga no espanhol, foi por você que voltei pra ficar mais meia hora na festa mesmo tendo reunião tão cedo no dia seguinte.

Amigoamiga, espelho da minha vida, como sou tão nada sem você.

18/07/2007

no torrent

“MOMENTO”, BEBEL GILBERTO

Música brasileira tipo exportação. Xiii, você já viu essa história. Mas esqueça Daniela Mercury e Banda Carrapicho. Aqui falamos de alguém que tem classe. Falamos de Bebel Gilberto.

Influenciada pela bossa nova, mas também por sonoridades modernas como a eletrônica, Bebel fez do seu quarto disco solo algo precioso. Radicada nos Estados Unidos, a filha de João Gilberto mostra que aprendeu a lição do pai: afinadíssima, sem exageros, delicada, Bebel constrói um disco envolvente. Na próxima noite regada a vinho, você precisa ter este CD.

O começo morno, com a faixa título, é compensado já na terceira música. “Close to you” dá vontade de chegar mais perto, se aninhar, delícia de música. “Os novos yorkinos”, faixa quatro, fala da vida fora do país. Misturando inglês com português, Bebel consegue a façanha de soar natural nas duas línguas. Com muito charme.

O destaque é a faixa seis. “Caçada” mistura violão com zabumba, jogando a delicadeza acústica de encontro ao peso regional. O resultado é um grande momento de sensualidade construído com o auxílio da letra: “Eu me espicho no espaço feito um gato / Pra pegar você, bicho do mato / Saciar a sua avidez mestiça / Que ao me ver se encolhe e me atiça”.

Mantendo um bom nível de letras, um cuidado primoroso com os arranjos e uma produção minuciosa, segue o CD até esbarrarmos com “Tranqüilo”, parceria da cantora com a Orquestra Imperial. Os metais grandiloqüentes e o calor latino combinam perfeitamente.

Depois vem “Cadê você”, um provável hit radiofônico mas não menos envolvente. E quando a última faixa começar, o seu encontro já vai estar na cama. “Words” tem a sonoridade que chamo de “música pra fazer amor devagarzinho”. Dá vontade de colocar o headphone só pra ouvir Bebel cochichando em nossos ouvidos: “Come / Come close to me / And give me something worth / Something true I must believe”.

Tesão.

Disco: Momento
Artista: Bebel Gilberto
Gravadora: Universal Music
Nota: 9,0

16/07/2007

adoro tv a cabo

Aviso importante: esta crônica não é sobre política, é sobre TV a cabo. Então, se você detesta política, continue lendo.

Cada dia que passa, venho concordando mais com os que dizem “odeio política”. Creio que essas pessoas são mais felizes que eu. Conseguem, por exemplo, não saber que esta semana a Câmara Municipal de Natal foi invadida por uma força-tarefa das polícias Civil e Militar, a fim de encontrar provas de um esquema de corrupção. Você provavelmente estava assistindo “Lost”. Você é que é feliz.

Esta ação da polícia, coordenada pelo Ministério Público, foi motivada por uma denúncia de que os vereadores venderam seus votos na audiência do Plano Diretor de Natal. Ah, você também não ouviu falar disso? Pois bem, eu estava às voltas com a primeira temporada de “Heroes” quando soube, assim de relance, que esse Plano Diretor de Natal, dentre outras coisas, estabelece limites para as edificações da cidade com base na proteção ambiental. Isso, obviamente, vai de encontro ao que a maioria das construtoras almeja.

Não quero acabar com sua felicidade, não me entenda mal. Mas para compreender minha inveja de seu estado de espírito inabalável, é preciso que você saiba que 16 vereadores da cidade são suspeitos de participar deste esquema. Temos apenas 21. Ou seja, a lama parece ter assolado cerca de 80% do Legislativo de Natal. Por mais que eu tentasse me manter ligado no AXN, o cheiro estava me incomodando.

Eu poderia dizer que temos que fazer alguma coisa para mudar isso. Ou que a culpa desses desmandos também é sua. Ou talvez afirmar que todas essas acusações, mais uma vez, não vão dar em nada, porque o povo não se mobiliza, porque a sociedade aceita tudo em silêncio, porque você não faz nada nunca. Mas não vou fazer isso. Afinal, você odeia política. E o novo episódio de “Two and a half man” vai começar já-já.

13/07/2007

o intrujão

Diante da cidade ao crepúsculo, Saul Onivéu respirou o ar impuro da hora do rush. Os carros no viaduto como pano de fundo da hora derradeira. À frente, uma longa avenida contaminada de buzinas, estresse, desamor. Saul Onivéu estava decidido a pular.

Naquele instante de demasiada emoção, pensou assim: sempre precisei compensar o que sou. Leu todos os vencedores do Nobel, de Albert Camus a Yasunari Kawabata, assim em ordem alfabética, bem aborrecido, exatamente como era. Precisava se compensar acumulando um tipo de cultura que faria dele algo mais que os outros. Nem que fosse por cinco minutos, restrito tempo em que agüentavam sua baboseira de livros que já li e penso isso daquilo e aquilo disso. Pois era um chato. Desses que estão sempre dispostos a emitir uma opinião sobre o novo escândalo de Brasília, a capa da Veja, o mais recente blockbuster – inevitavelmente, comparando-o a um filme iraniano obscuro que só ele viu. Um chato cheio de opiniões.

Com a certeza de abarrotar mais ainda o trânsito, e a glória pré-anunciada de estar estampado no jornal de domingo, e mais ainda a quase certeza de que se perguntariam em seu funeral mas por quê? mas por quê?, ele lembrou: precisava ganhar dinheiro. E não havia maneira mais rápida de fazê-lo que puxando o saco. Até pensou em realmente trabalhar, mas não contava com o fato de ser incompetente. Simplesmente incompetente. Não tinha talento específico para nada, mas fingia maravilhosamente qualquer ofício. Foi só se aproximar das pessoas certas, se mostrar agradável, dizer uma ou duas piadas. Pronto, conseguiu trabalho. Em quê? Bem, poderia ser advogado, jornalista, até mesmo escritor, porque no fim das contas não era nenhuma dessas coisas. Além de incompetente, era preguiçoso. Um tipo pernicioso que queria tudo da forma mais fácil. Com dois cursos incompletos e alguns livros na bagagem (mais que a média nacional, mas nem por isso um fenômeno), sentia-se pronto para ser qualquer coisa que necessitasse desfaçatez.

Esforçou-se para não ser descoberto como embuste. Propagando uma imagem de intelectual viciado em cultura, fingiu primorosamente que fazia algo. Às vezes, até dava mais trabalho que efetivamente fazer. Mas era limitado pela incompetência de nascimento associada à preguiça obesa. Por mais livros que lesse, e filmes iranianos que assistisse, e experiências que adquirisse, jamais deixou de ser uma farsa. Alguém fingindo saber o que fazia. Não sabia. O que não o impediu de progredir, claro. O mundo, todos sabem, nem sempre segue a Teoria da Evolução. Os chefes adoravam seu jeito inteligente, suas sacadas copiadas de comédias-cabeça, seu jeito simpático e educado de aquiescer. Educado até demais. O famoso educadinho. Pois precisava compensar o que era.


Esperaria apenas um carro de luxo se colocar estrategicamente abaixo do viaduto. Com o engarrafamento, não seria difícil mirar bem no teto solar. Já conseguia antever a manchete sobre o suicida que parou o tráfego ao cair sobre um milionário. Ninguém jamais esqueceria dele.

Subindo no balaústre, equilibrando-se vigorosamente para não adiantar a queda, recordou: precisava das pessoas. Então, conquistou amigos e os usou. Sempre até o talo, extraindo o que tinham de melhor (influência, emprego, até mesmo um livro que queria ler, não importava, depois de começar passou a fazer sem nem se tocar). Claro, administrar uma agenda com mais de mil nomes não é fácil. Inevitável usar e depois descartar. Começou a gerar comentários do tipo “Ah, é esse cara a próxima vítima dele?”. Tanta cultura acumulada e não atentou a um detalhe: não podemos subestimar as pessoas. Visto que alguns passaram a desconfiar de sua perfeição milimétrica, suas palavras sempre na hora exata, sua enorme disponibilidade antes de conseguir o que queria. Tão-somente antes. Para evitar a derrocada total, criou uma estratagema: descobria quem desconfiava dele e passava a plantar boatos sobre aquela pessoa. Aos poucos, conseguia que a credibilidade de seus algozes fosse minada. Chegou a acreditar que descobrira enfim um talento real em sua vida de simulações. A maledicência. Ao final, saía sempre por cima. Sempre dissimulando. Pois precisava compensar o que era.

E o que era, afinal, Saul Onivéu?

Olhou ao longe um carro importado se aproximando. E pensava justamente isso: quem era Saul Onivéu? Um simulacro de algo tão bom que até poderia existir. Mas não existia. Suas mentiras eram tão convincentes, tão elaboradas, tão reais que até ele próprio chegou a acreditar. Passou a se sentir realmente um intelectual, um vencedor, um talentoso profissional. Preparou-se então para o pulo, o último pulo, a cena final desse filme que bem poderia ser iraniano. Se ele realmente gostasse de cinema iraniano.

Quando seus pés se desgarraram da balaustrada e sentiu o vento gelado em seu rosto e o estômago se revirou de pavor e antecipou o gosto de metal na boca quando seu sangue se misturasse ao teto do carro importado, ainda teve tempo de pensar: eu poderia ter sido muita coisa além de uma mentira.

E nem saiu no jornal de domingo.

11/07/2007

a flip como ela foi

Publicado originalmente na Tribuna do Norte (10/07/07)


Não foi apenas o véu de noiva descendo do topo da igreja. Não foi apenas a série de leituras dramáticas. Não foi apenas o nome figurando em diversos painéis. Nelson Rodrigues foi homenageado na Flip 2007 até mesmo pela atitude dos autores. Ora, sendo Nelson Rodrigues o grande dramaturgo que é, nada mais normal que interpretar. E tivemos, senhores, grandes representações na Flip.
A começar por Will Self, autor inglês que causou frenesi com seu humor cáustico. A ele, coube este personagem. Irônico, mal-humorado, irascível, Self conquistou o público com seu jeito ferino de desancar os outros. Nem o mediador de sua mesa, o jornalista Arthur Dapieve, foi poupado. A certa altura, Self esbravejou com elegância britânica: “Estou sentindo que há um clima entre nós, Arthur; como prefiro receber, você vai ter que ceder”. O resultado? Fila de autógrafos quilométrica.
Nelson Rodrigues: homenageado até na postura dos autores
Outro que interpretou bem foi o roteirista mexicano Guillermo Arriaga. Diferente de seu filme “Babel”, teve uma atuação digna de Oscar. Pai de família, com falácia poética, arrebatou corações. A última pergunta de sua mesa, mediada por Marçal Aquino, foi qual seria sua maior obra. Arriaga respondeu docemente: “meus filhos”. Uma onda frenética de aplausos tomou conta da Tenda dos Autores. Poucos sabiam que a pergunta não vinha da platéia. O próprio Arriaga pediu ao mediador que lhe perguntasse algo que pudesse falar de seus filhos. Como toda ação provoca uma reação: fila de autógrafos quilométrica.
Muitos outros interpretaram bonitos papéis. Alguns de forma mais descarada, como Arriaga, que chegou a irritar colegas de ofício com seu bom-mocismo calculado. Outros, de um jeito mais convincente, como a Nobel de Literatura Nadine Gordimer, que arrancou lágrimas da platéia com seus relatos de dor. Todos, entretanto, estavam ali homenageando Nelson Rodrigues: para cada autor, um personagem.
Isso acontece porque é assim que a maioria do público raciocina: se gosta do autor, compra o livro. Não precisa dizer algo necessariamente interessante ou inovador. Basta “ser” alguém interessante.

Na mesa “Sem dramas”, com Bosco Brasil e Mário Bortolotto, os autores se viram suprimidos pelo mediador, o ator Paulo José. Parecendo não ter sido alertado de que o mediador faz perguntas e cala a boca, Paulo José falou e falou e falou, lançando os debatedores num constrangido silêncio. Bortolotto afastou o microfone, cruzou os braços e assistiu a tudo com um sorriso cínico. No fim, o mediador pediu que Bortolotto criasse uma pergunta para si mesmo. Em tom simpático, o escritor respondeu: “Ah... vá se f... Paulo”. Todo mundo levou na brincadeira, riu, aplaudiu. Mas receio que Bortolotto foi um dos únicos que não estava interpretando.

A Flip terminou no domingo e mostrou ser forte. Foram mais de 33 mil pagantes, contra os 24 mil de 2006. Paraty, que até bem pouco tempo nem figurava no mapa da cultura, provou ter tido uma idéia nobre e rentável. E os escritores... bem, os escritores poderão voltar às suas vidas reais. Pelo menos até a próximo evento.

10/07/2007

na flip: final

O RETORNO
Bom, voltei à minha cidade após uma semana de loucuras em Paraty. Ficou sim um gostinho de quero-mais. Achei até estranho andar por Natal hoje. O calçamento é tão regular em comparação à Paraty! Aliás, aquele calçamento de pedras redondas fez uma grande vítima: meu chinelo de couro não resistiu e arrebentou.

PEDRAS
Por falar em pedras, eis uma bela lição que recebi da guia da Casa de Cultura de Paraty: as pedras que calçam o centro histórico da cidade foram trazidas como lastro dos navios portugueses, na época do ciclo do ouro. Eles vinham, deixavam as pedras, carregavam o navio de ouro e iam embora. Como podemos ver, os portugueses de burros não têm nada: deixaram as pedras, levaram o ouro.

PESSOAS
Uma das mais interessantes que conheci durante a FLIP se chama Patrizia di Malta. Assim, com Z. É uma agente literária italiana que até poucos anos ganhava a vida como vocalista de uma banda de música eletrônica. Juro que enquanto tomávamos um café e ela contava as aventuras dela em Milão, deu vontade de ligar o gravador pra fazer um podcast. Acabei preferindo guardar aqueles momentos só na memória. Espero te rever em breve, Patrizia.

PULINHO
Essa é de bastidores. Eu e Fialho passamos dias imitando o famoso “pulinho Marcelino Freire”. Quem já viu o escritor em palestras, sabe como é: ele se espanta, dá um pulinho, põe a mão no peito, coisa bem histriônica. Tanto imitamos, que tivemos de contá-lo para evitar mal entendidos. Resultado: Marcelino resolveu nos dar uma aula de pulinho, atentando para o fato de que na hora do gesto o ombro esquerdo deve ser erguido. Segundo ele, “o ombro é que segura tudo”.

GLIPE
Muitos voltaram de Paraty espirrando feito loucos. É resultado do clima da cidade nesta época, que é quente de dia e esfria vertiginosamente à noite. Assim, não tem aparelho respirador que segure a onda. Apelidaram o fenômeno de “glipe”: a gripe da Flip.

TRIBUNA
Muito bom cobrir o evento pra Tribuna do Norte. O editor, Rafael Duarte, me deu liberdade nos textos e se mostrou muito disposto a fazer algo diferente. O resultado terminou hoje, com um balanço meu do evento intitulado "A FLIP como ela foi". Você pode acessar a matéria no site da Tribuna, ler direto no jornal, ou esperar pela publicação no PLOG. Vai ser amanhã.

FRASES DOS DIAS
Aqui vai uma seleção de frases que me marcaram na FLIP 2007:

“Ah, vai se foder, Paulo”
Mário Bortolotto para Paulo José, na mesa “Sem Dramas”, na hora em que o mediador pediu que o escritor criasse uma pergunta para si mesmo

“Cara, tenho uma coisa pra te dizer: eu não sou o Minchoni”
Carlos Fialho, após se passar por Daniel Minchoni por três dias até ser chamado para recitar um poema em praça pública pelo poeta Pedro Tostes

“De que adianta a Flip, se eu não estou comendo ninguém neste exato momento???”
Daniel Galera, escritor, às três da manhã

“Quando o brinco de Glória Maria caiu, ela ficou espantadíssima. Não sabia o que tinha caído: se era o brinco, a bochecha, a peruca…”
Marcelino Freire, escritor, também às três da manhã

“Cara, sinceramente, isso aqui tá uma merda”
Patrício Jr, escritor, às infalíveis três da manhã

08/07/2007

os dois enterros de guillermo arriaga

Vaidade ou desespero? Foi esta a pergunta que ficou no ar após ver Guillermo Arriaga em dois momentos da FLIP: no debate com Dennis Lehane organizado pelo evento oficial; e depois, na casa da Cultura, com Marçal Aquino, numa mesa da OffFlip. A dúvida do início surge quando vemos a trajetória do autor.

Após lançar romances sem grandes repercussões, Arriaga alcançou o estrelado ao assinar o roteiro de “Amores brutos”, do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu. Depois disso, vieram outros grandes sucessos de Hollywood, sempre em parceria com o diretor: “21 Gramas” e “Babel”. Mas após o êxito de uma indicação ao Oscar, a dupla rompeu. Segundo Arriaga, porque não aceitou que os filmes fossem tratados como obras de Iñárritu quando eram criações dele.

Arriaga levanta polêmica na FLIP: o filme é do roteirista ou do diretor?

Pois bem, nesse ponto é preciso dizer que Arriaga adquire posturas diferentes. Na Flip oficial, quando perguntado sobre o episódio, conta uma lenda africana sobre a Alma Leve e a Alma Pesada (bonita lenda, por sinal) e finaliza a parábola com “Bem, esta história é melhor que a minha com o Iñárritu”. Em outros termos, embora de forma elegante, foge à resposta. Já na OffFlip, com público bem menor e autores visivelmente menos preocupados em montar personagens de si mesmo, Arriaga é mais certeiro: diz claramente que o universo ficcional de um filme pertence ao roteirista (que se recusa a chamar assim, preferindo o termo “autor de cinema”). Sendo assim, considera ilógico que os diretores recebam os méritos por criações que não são deles.

Alguns autores consideraram a discussão inócua. Pelos bares, vi gente esbravejando que era uma polêmica contraproducente, que parte do princípio de que todo filme tem uma produção industrial como a hollywoodiana. Arriaga, no entanto, parece bastante seguro de sua luta. Encabeçando o que podemos chamar de reação dos roteiristas, já propôs no México que o termo “guionista” seja abolido da língua espanhola. Em tradução literal, o termo significa guiador. É assim que os roteiristas são chamados nos países latinos.


Iñárritu: centro de uma polêmica que joga autores contra diretores


Eu pensava sobre essas coisas quando tinha 10 anos. Via os filmes e me perguntava, por exemplo, porque era de Steven Spielberg se não foi ele quem escreveu. Afinal, peças, livros, esquetes, elas “são” do autor e nunca do diretor. No cinema, a ordem foi revertida. Chegaram a insinuar que era uma herança do Cinema Novo. O lema “uma idéia na cabeça, uma câmera na mão” suprimiu os roteiristas das produções nacionais. Hoje, com a Lei Rouanet, os escritores voltaram a ser peça-chave do processo. Isto porque o roteiro é item essencial para encaixar qualquer filme na lei.

Tudo isso mexeu muito comigo porque, veja bem, uma das minhas maiores ansiedades na FLIP era ver Arriaga. Sou fã do autor, apesar de ter me decepcionado um pouco com “Babel”. Depois de uma overdose dele aqui em Paraty, ainda não sei se me decepcionei mais um pouco. Acho bastante lógico que o mérito dos filmes deva ser dividido com o roteirista. Mas não sei até que ponto Arriaga entrou na briga para defender a classe ou apenas a si próprio.

sarcasmo e polêmica na flip

Publicado originalmente na Tribuna do Norte (07/07/07)
Era uma vez cinco jornalistas numa mesa de bar. Com alguns copos a mais, berram opiniões sobre a FLIP. Um diz que a dupla Lobão e Chacal estava muito tranqüila. Outro reclama da ausência de aprofundamento ideológico nas mesas do evento. Um terceiro rasga o ar com sarcasmo: “Cadê a festa literária? Até agora só vi a festa”. A verdade é que, após um longo dia de muita informação, é fácil resumir o evento com frases de efeito.

Nenhum deles, por exemplo, fala do debate entre o americano Jim Dodge e o inglês Will Self. Um dos termômetros da FLIP se chama Tenda da Matriz. É onde as palestras que acontecem na Tenda dos Autores são transmitidas por telão. Um autor que é aplaudido na Tenda da Matriz, portanto, demonstra seu poder. Porque, veja bem, as pessoas estão aplaudindo uma imagem no telão. Esse feito foi conseguido por Will Self, que encheu de um sarcasmo fino seu debate.
Quando perguntado por alguém da platéia sobre a arrogância britânica, Will Self foi cortante: “Olha, eu quero que o covarde que perguntou isso apareça aqui, pois eu vou ridicularizá-lo”. Outro grande momento foi a definição da TV pelo autor: “A televisão é o supositório cultural da humanidade”. Provocador, Will quase apagou seu companheiro de mesa, Jim Dodge. Professor de Escrita Criativa da Universidade de Humboldt, Jim é generoso com o ser humano: “Nunca conheci uma pessoa que não fosse imbuída de imaginação”. Certamente, ele não conhece muita gente. Já Will Self é menos otimista. Arthur Dapieve, o mediador, questiona sobre a política dos EUA e Inglaterra contra o terrorismo. Ferino como nunca, o britânico sentencia: “O número de mortos no 11 de Setembro é infinitamente menor que o número de mortos da Guerra do Iraque. E a culpa é toda nossa”. Quando diz “nossa”, entretanto, não se refere apenas aos países em questão. Fala de todo o mundo ocidental, incluindo aí o Brasil. Will tem uma definição muito original sobre a nossa nação: “Um país de transexuais derrubando a floresta tropical”. Mas também não poupa sua pátria: “Tony Blair construiu uma nação próspera, onde todos têm uma vida perfeita. Igualzinho o Brasil”.

Will Self encanta a FLIP com seu humor irascível


O melhor, entretanto, ainda estava por vir. “A vida como ela foi”, mesa que reuniu os biógrafos Fernando Morais, Paulo César de Araújo e Ruy Castro, apimentou a Flip com uma polêmica que promete render: o biografado tem direitos sobre a biografia? No centro da discussão, a proibição judicial da biografia de Roberto Carlos, que entrou com processo pedindo recolhimento da obra por considerá-la ofensiva. O que se debate é: se o biografado tem passagens desabonadoras em sua vida, pode pedir reparação judicial quando elas forem fielmente retratadas em livro? Uma das mesas mais badaladas até agora, sinalizou para um problema bem mais complexo que a liberdade de expressão. A editora de “Roberto Carlos em Detalhes”, a Planeta, é espanhola. Segundo se sugeriu, aceitou o acordo com o Rei porque não tem nenhum compromisso com o país. Pressupõe-se que uma editora nacional brigaria pelo direito garantido na Constituição de expressar-se livremente. A verdade é que, sem acordo, a Editora Planeta teria a chance de ser julgada por outro juiz que não fosse fã do cantor. Como contou Paulo César, após a audiência o meritíssimo pediu para tirar fotos com o ídolo, botando abaixo qualquer tentativa de imparcialidade.


A festa literária prossegue. Na mesa dos cinco jornalistas, paira a sensação de que o evento poderia ser melhor. Enquanto o poeta Chacal dança ao som de uma música latina, e Guillermo Arriaga passeia anônimo pelo bar, e um frenesi se forma em torno do Nobel de Literatura J.M. Coetzee, um dos jornalistas conclui: “Sim, a Flip poderia ser melhor. Aliás, nosso país poderia ser melhor. Mas nossos juízes são fãs de Roberto Carlos”.

07/07/2007

o que significa flip?

Publicado originalmente na Tribuna do Norte (06/07/07)

Três jovens autores abrem a FLIP 2007. Cecília Giannetti, Fabrício Corsaletti e Veronica Stigger iniciam a bateria de debates com a mesa “Futuro do Presente”. O encontro gira em torno, claro, como não?, é óbvio, do futuro da literatura. Eu mesmo já fui convidado pra muitos eventos literários sempre falando sobre este tema. Alguém precisa avisar aos curadores que jovens autores não têm o dom da clarividência.

Apesar da obviedade do tema, a mesa é excelente. Veronica Stigger esbanja simplicidade e simpatia ao ler seu violentíssimo “Domitila”, conto do mais recente livro da autora, “Gran cabaret demenzial”. Já Cecília Giannetti, confessamente nervosa por se apresentar a uma grande platéia, conta sobre sua experiência no “Amores expressos”. Este polêmico projeto enviou diversos autores para países em torno do mundo para que eles se inspirassem e escrevessem romances. A polêmica gira em torno da utilização de leis de incentivo à cultura para este “turismo intelectual”, como dizem alguns críticos. Cecília foi contemplada com a Alemanha e conta sobre passeatas pela madrugada com neocomunistas, mulheres andróginas em aulas de salão e imigração turca em massa. Já o poeta Fabrício, muito à vontade no palco, se limita a falar sobre a produção de seus poemas. Confessa que é disciplinado na hora de escrever. “Não acredito no escritor que passa a noite bebendo e fumando para se inspirar, prefiro acordar às seis da manhã e ter uma vida normal”, ele diz. Fabrício, você pode até não acreditar, mas que eles existem, existem.


Falo isso porque fui testemunha de um Marçal Aquino alegre e falante, circulando pela noite de Parati com um copinho de cachaça na mão. Pra quê isso, Marçal? Ele responde com uma simpática ironia: “É o frio, cara, nem gosto de beber, mas preciso me esquentar”. A gente acredita, Marçal, a gente acredita. A noite segue com mais esbarrões em figuras de nossa literatura. Marcelino Freire, de férias na cidade, conta que vai voltar cedo pra pousada. Editores trafegam entre autores consagrados. O underground se faz presente por diversos jovens distribuindo fanzines como a Revista Dez, do ainda inédito Pedro Tostes. Até protesto político cabe na FLIP: com velas pretas e faixas com frases de desagravo, servidores do Ministério da Cultura gritam sua greve em frente à Tenda da Matriz. Impossível não prestar atenção.

Circular pela noite de Parati é mesmo surpreendente. Afinal, ver Lobão caminhando calmamente entre os bares, fera apaziguada, é uma imagem emblemática. Vinha me perguntando o que ele fazia figurando entre os convidados da FLIP, dividindo um debate com o poeta Chacal. Quando a mesa “Uivos” começa, finalmente entendo. Chacal e Lobão, caninos e ferinos, falam de forma apaixonada da relação entre poesia e música. “Eu tenho inveja do Lobão encaixando nas letras um tchubiruba”, revela Chacal, “Eu não consigo fazer isso na poesia”. Lobão também parece inspirado para criar máximas: “Não sou uma irmã carmelita, yo soy el Lobon”, vocifera após ouvir da platéia a pergunta inevitável. Qual? Você sabe: “O que mudou em você para voltar à indústria fonográfica após tanto criticá-la?” Dá pra sentir que o questionamento irrita o roqueiro quarentão. Pra amenizar a atmosfera, Chacal brinca com as palavras: “Duas coisas que nos perseguiam no início da década de 70: o ‘Yellow Submarine’ e o camburão da Ditadura”. Todos riem e aplaudem, da mesma forma que fazem quando Lobão cria um momento inédito: música na Tenda dos Autores. É a primeira vez que um convidado canta. E como canta esse Lobão! “Samba da Caixa Preta”, uma resposta ao “Samba do Avião” de Tom Jobim (porque, segundo Lobão, o avião do Rio já caiu faz tempo), rasga literalmente nossos ouvidos.



O que mais encanta na FLIP é perceber como o evento é pensado para ser culto e ao mesmo tempo agradar à grande massa. Pelos temas das palestras, dá pra notar um equilíbrio surpreendente entre a literatura e a festa. Como disse Cassiano Elek Machado, diretor de programação da FLIP, em seu discurso na cerimônia de abertura: “A FLIP é festa, é literária, é internacional e é para ti”.

06/07/2007

na flip

Reality show
Ontem no Bar do Lúcio rolou festinha da editora Cosac Naify. Tratava-se do lançamento do livro do Chacal. E ele, claro, roubou a cena. Performático, provocador, livre, o poeta recitou apaixonadamente, bebeu com amigos, distribuiu simpatia, dançou mambo. Coisa estranha de se ver pra quem acompanhou sua palestra com a sensação de que estava diante de um ícone. Sim, ele é um ícone. Mas é mais real do que se supunha.

Não me toque
O que se comenta entre os jornalistas na sala de Imprensa são os escritores afetadinhos, aqueles que são cheios de não-me-toque. Ao contrário do que se pensa, não são as estrelas do evento os acometidos pela síndrome de popstar. Jim Dodge, por exemplo, tirava fotos com fãs ao final da tarde de hoje, simpaticamente senil. Coetzee, Nobel de Literatura, foi visto diversas vezes caminhando tranquilamente e distribuindo acenos. A turma da afetação, ironicamente, são autores que ficaram de fora da lista de convidados (ou que simplesmente nem foram cogitados). Tem gente que não ri, que posa de deprimido, que foge do assédio (o pequeno, que ainda subexiste).

Lobby, muito lobby
Cena corriqueira nos bastidores da FLIP: integrantes do MSE (Movimento dos Sem Editora) assediando descaradamente figurões do mercado editorial. Tem muitos aqui na FLIP, por sinal. Você sai andando na rua e, pam!, esbarra num editor da Rocco, num caça-talentos da Cia. das Letras, num agente literário de algum best-seller, num bambambam da Cosac Naify. Nada mais natural que eles sejam assediados pelos ávidos do MSE. O problema é que alguns exageram. Tudo bem, faça contatos, crie um networking, divulgue seu trabalho (é pra isso que estou aqui também, que eu não sou besta). Mas, por favor, mantenha sua dignidade. Como me ensinou mamãe: quem muito se abaixa, mostra os fundilhos.

Sala de Imprensa
Não tem lugar melhor em Paraty para conhecer pessoas interessantes. É aqui na Sala de Imprensa que tudo acontece. Ontem, por exemplo, chegando estressado pra postar a matéria da Tribuna, fui abordado por um cara que perguntou: “Você é o Patrício Jr, autor de Lítio?”. Era Delfin, da Edições K. O cara já tinha lido meu livro e quando viu meu nome no crachá, pensou: “Não devem haver muitos Patrícios Júniors no mundo”. Estava certo. A gente bateu papo, ele me entrevistou pro podcast do paralelos.com e ainda trocamos figurinhas. Ó aí embaixo o registro do momento.



Delfin e eu na Sala de Imprensa: coincidências da vida

Paulo Araújo
Esse é o nome do cara que está sendo uma mão na roda aqui em Paraty. Conhecido também como Chico Paulo, ele é potiguar, integrante da PPPP (Poder para o Povo Potiguar), vive em Sampa e está ajudando em tudo: dos contatos aos descontatos. Valeu, Paulo, só tem tu!

Amores Perros
Acabo de sair da mesa “Crime e Castigo”, que uniu os escritores Dennis Lehane e Guillermo Arriaga em torno de um debate sobre a violência na literatura. Não conhecia o primeiro, mas já era fã do segundo. Pra quem não associou o nome à pessoa, Arriaga é o roteirista de “Amores brutos”, de “21 gramas” e do indicado ao Oscar “Babel”. Se eu já era fã, fiquei mais. Arriaga fala com viva poesia de seu ofício, que defende como sendo de escritor e não de roteirista. Para ele, não importa qual o meio: se você cria um mundo para contar uma história (quer seja no cinema, no teatro, no blog ou no livro) você é escritor. Um probelminha no som quase atrapalhou o brilho no encontro. Mas com um espirituoso Marçal Aquino como mediador, nada saiu dos trilhos. No final, um bônus: alguém da platéia implora para que ele diga o que a japonesa de Babel escreveu no bilhete que deu ao policial - e que no filme não é revelado. Ele não se fez de rogado e entregou na maior: “Mishiku raishu cashu, arogai”. Pra quem fala japonês…

Ressaquinha
Amigos, amigos, imaginem a cena: eu e Fialho bêbados caminhando num frio desgraçado às quatro da manhã, discutindo os rumos do Jovens Escribas pelas ruas de Paraty. Tivemos idéias geniais, tomamos resoluções importantes, desenvolvemos um plano de sustentabilidade pro grupo… mas não lembramos de nada no dia seguinte. Nunca mais bebo na vida.

E por falar nisso
Olha só Fialho diante do texto de apresentação do programa da FLIP. O texto de Cassiano Elek Machado, coordenador de programação do evento, se chama “É tudo mentira”. Processa ele, Fialho!

Indignação de Fialho diante do texto "É tudo mentira" de Cassiano Elek


Frase do dia
“A televisão é o supositório da indústria cultural: enfiam em nossos cus e depois disso só sai merda”
Will Self, escritor inglês

05/07/2007

a festa da literatura começou

Publicado originalmente na Tribuna do Norte (05/07/07)

O que esperar de um evento literário após doze horas de viagem? É isso que me pergunto caminhando pela primeira vez nas tortuosas e históricas ruas de Paraty, no Rio de Janeiro. A cidade organiza pela quinta vez a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), que acontece até domingo neste paradisíaco pedaço do litoral carioca.

O que sei é que teremos grandes debates, exposições, oficinas de texto e exibição de filmes relacionados à literatura. Tem escritores de destaque como os sul-africanos Nadine Gordimer e J.M. Coetzee, ganhadores do Nobel. Ao todo, são 18 escritores estrangeiros, do popular Amóz Oz ao badalado roteirista e romancista mexicano Guillermo Arriaga. Entre os nacionais, Ruy Castro, Silviano Santiago e Fernando Morais, e convidados inusitados como Lobão. Sim, aquele dos anos 80. É ver pra crer. Também sei que a festa desse ano é em homenagem ao insuperável cronista Nelson Rodrigues.



O que esperar então? Foram doze horas da mais pura odisséia, entre Aeroporto Augusto Severo em Natal, cinco horas de vôo, Galeão no Rio, 20 minutos de táxi, Rodoviária Rio Novo, 1h30 de espera, ônibus, quatro horas de estrada, Paraty, cinco minutos de táxi, pousada. Depois disso, uma caminhada até o centro histórico da cidade, onde o evento realmente acontece. Olha, da próxima vez que alguém disser “São apenas 15 minutos a pé”, acredite: é muito longe.

Essa via crucis, entretanto, parece ter valido à pena. A FLIP veste Paraty de uma cor viva e verborrágica. A cor das letras. Tem o evento oficial, com consagrados nomes da literatura debatendo os mais variados assuntos. Tem a Flipinha, que leva para perto das crianças o universo mágico das letras. Tem a Flip Etc, com shows musicais de MPB, bossa nova, jazz. E tem a OffFlip, evento paralelo ao principal que também traz grandes autores para debater, mas todos ligados ao underground das letras.

Impossível não lembrar do ENE (Encontro Natalense de Escritores) e da louvável tentativa de transformar Natal numa capital cultural. Caminho por Paraty e vejo todos lendo, discutindo, analisando. No ônibus pra cá, ansiosas, adolescentes brigavam por ingressos. Uma não queria perder Augusto Boal, outra fazia questão de ver Guillermo Arriaga. Peraí, meninas, vocês não deveriam estar se engalfinhando por abadás de micareta? Não, no país FLIP adolescentes querem chegar perto desse popstar cada vez mais raro chamado escritor.

Seria surreal, se não estivesse acontecendo agora mesmo, ali na praça, com crianças na Flipinha sendo iniciadas na obra de Nelson Rodrigues. Esta era inclusive a curiosidade de Regina Mendes, coordenadora pedagógica de uma escola em Itu, São Paulo. “Eu queria muito ver como eles trariam o universo de Nelson Rodrigues para as crianças”, comentou comigo. A resposta: usando a força da prosa do autor, que ultrapassa qualquer barreira.

Como jovem escritor, fica difícil dotar minha visão do evento de alguma imparcialidade. Estou em Paraty há menos de três horas e um frenesi sem tamanho se apossa de mim. Porque é uma visão muito forte ver de perto um tipo de Brasil que a gente julga que não existe. Um Brasil que lê, opina, pensa. E que não é pequeno como se imagina.

O que esperar afinal de contas? Que a FLIP, além de evento, se torne exemplo.

na flip

MICO
Sala de Imprensa, 13h59. Meu deadline é às 14h e a internet caiu. Sim, amigos, caiu. Assim, do nada, como se uma mulher que andasse com salto alto nas ruas de Paraty. Queda certa. Ligo pro editor a fim de conseguir mais prazo. É neste exato momento que a câmera da TV Cultura é ligada na minha cara e o repórter do programa Vitrine põe o microfone para captar meu diálogo de implorações e humilhações inevitáveis. Resultado: Sala de Imprensa feliz por ver um colega de profissão sendo ridicularizado pelo outro. Ok, não senti tanta vergonha assim. Até gostei desse “jornalismo verdade”. Tudo isso foi só pra mandar vocês ficarem de olho no programa Vitrine da TV Cultura. Tem mico em rede nacional pintando aí.

OS FERAS
Acabo de sair da mesa “Uivos”, que marcou o encontro de Lobão com Chacal. Puxa, realmente muito bom. Provocadores, os dois destilaram venenos e antídotos para todos os lados. E teve dois momentos memoráveis: Lobão recitando pessimamente um poema (muito ruim, foi bom poder rir do ridículo dele) e Chacal agigantando-se enquanto recitava os seus.

SMS
Como não pude ficar até o fim da mesa “Uivos”, pois se aproximava a hora do meu deadline, pedi que Fialho me avisasse caso acontecesse algo inusitado no restante do debate. Segue SMS recebido 15 minutos após chegar na Sala de Imprensa: “Cara, você perdeu a performance dos anões albinos berrando poemas obscuros em iídiche. Malabaristas mutantes de três braços começaram a fazer gestos obscenos e…”.

CONTRADIÇÕES
Essa é a vista do meu quarto. E esse é o livro que tô lendo.


FRASE DO DIA
“Não sou uma irmã carmelita, yo soy el Lobon.”
Lobão, ao ser perguntado sobre seu retorno à indústria fonográfica

04/07/2007

na flip

VOCÊ ESTÁ AQUI

Você não jantou direito. Estava ansioso. Foi pro aeroporto mais cedo que o indicado – que já é mais cedo. Embarcou sem saber o que vinha pela frente: horas intermináveis de vôo, espera interminável na rodoviária, estrada interminável pela frente. Por fim, você está aqui. Festa Literária Internacional de Paraty.

Você olha meio embasbacado pra tudo, mas sabendo que não tem muitos motivos para estar embasbacado. Bancando o deslumbrado mesmo. Você pega credencial, entra na sala de imprensa, escreve a primeira matéria, envia, recebe ok do editor. Você está aqui.

É preciso dizer a verdade: nada demais aconteceu até agora. A pousada é normal, a praia é normal, as pessoas são normais. Mas tem alguma coisa entre essas sílabas repetidas no ar, tem algo que você ainda não apreendeu, você sente o anúncio desse algo bem perto, mas ainda não sabe exatamente onde. Ou o quê.

Você está preparado para se emocionar, para dizer que foi a melhor viagem de sua vida, para contar e recontar dez mil vezes tudo que fez nessa cidade. Mas, por hora, não fez nada.

Você sente fome. E sede. E dor nas costas. E medo. Mas grita-se um foda-se bem grande. Foda-se, oras, você está aqui.

E quando acontecer algo, vai ter o que contar.

03/07/2007

flip 2007: cobertura completa

Temporada de viagens aberta oficialmente. Na madrugada dessa quarta, embarco para uma missão importantíssima. Vou para o Rio de Janeiro, mas não é pra tentar acabar com o tráfico. Vou cobrir a Flip 2007 para a Tribuna do Norte.

Aos desavisados, a Flip é a festa Literária Internacional de Parati. Trata-se do maior evento de literatura do país, que reúne autores de diversos cantos do globo nesse pedacinho de paraíso que se chama Parati. Ou Paraty. Até onde pude averiguar, as duas grafias estão corretas.

Pois bem, até próxima semana, vocês poderão acompanhar a minha cobertura do evento na Tribuna do Norte, mas também aqui no PLOG. Combinei com o pessoal da Tribuna para fazer algo mais focado na visão de um jovem escritor sobre o evento. Ou seja, vai ser algo mais autoral.

Apesar de ser formado em Comunicação (ou seja, sou jornalista, não apenas ostento esse título por aí), prefiro mostrar nos textos meu lado escritor. Acho que as matérias ficarão mais interessantes se eu dispensar a fórmula do lead (onde, quando, como, por que) e lançar mão da Teoria da Comunicação só quando for imprescindível.


Além da cobertura na Tribuna e no PLOG, tem também a do site do Jovens Escribas. Isso porque além de mim, mais dois JEs vão para o evento. Invasão geral.

Bom, é isso aí: boa viagem pra mim, boa leitura pra vocês. A gente se vê em Paraty.

02/07/2007

precipitação

Não saio, não saio, não saio. Foi aqui que o Chico coroou minha testa com um belo par de chifres, eu chegando da faxina lá de Dona Carmem e ele com Juciara lambendo os peitos do pecado. Minha coluna doía tanto que nem senti o coração. Mas foi ele que saiu, não eu, embaixo de vassouradas e gritos da rua, as crianças sempre berram quando assistem uma emoção. Foi aqui que me despedi do Zezinho, vou tentar a sorte no sul e eu disse vai filho, vai, eu fico. E fiquei. Sem ligações, sem cartas, sem notícias, ilhada no topo desse morro, mas viva.

Vi Das Dores partindo com os remelentos, o mais novo escorregando na lama no barro na equistossomose. Vi Ana Lúcia ajudando o marido a colocar o guarda-roupa no caminhão, se fosse madeira de verdade não tinha inchado tanto. Vi o Clóvis sóbrio pela primeira vez, o rodo na mão morrendo diante de tanta água, ele encostado na parede que sobrou cuspindo um choro de bêbado. Agora estão no ginásio, lá embaixo, ninguém subiu aqui pra ver como andam as coisas, só disseram vão embora e quase todos foram. Mas eu não saio.

Nessas paredes vive muito de mim para que eu simplesmente vá – minha pele manchada de infiltrações, rebocos caídos pondo à mostra meu barro, dois ou três caminhos de cupim marcando como varizes as vigas, minhas varizes expostas na sala pequena, no quarto pequeno, no tudo pequeno que eu sou. Não saio. Pode vir prefeito, governador, presidente. Em vez de vir, deveriam mandar alguém pra consertar. Porque nunca vi seu senhor nenhum colocar a mão na argamassa e dizer conserto, nunca vi voto meu se transformar em coisa melhor, nunca vi terno e gravata colocar os pés aqui pra dizer vou te dar uma casa nova. Agora querem que eu vá embora. Mas não vou.

Eu falei na cara do doutor. Meu senhor, me diga pra onde vou que não chove, pra onde levo minha santinha ali no altar, pra onde carrego meus três vestidos floridos e as saudades do Zezinho e esse rancor pelo safado do Chico e a esperança de usar o décimo terceiro pra uma varandinha no quintal, pra onde transfiro a solidão e o cartão do INSS com gosto de fila e a minha dignidade de pobre, senhor doutor, pra onde? Ele não respondeu e não tinha mesmo como responder, quem sabe de mim sou eu e mais ninguém, seu doutor estudou tanto e não consegue me entender. Dei tchau pros que foram, mas fiquei. E fico. E vou ficar.

Já vi chuva pior que essa e nunca caiu teto meu pela cabeça. Infiltração tem também em Dona Carmem, toda pintada cheia de ouro vista pro mar, mas com um triste balde aparando a lágrima da chuva dentro do apartamento. Não tem como escapar, é o que vejo aqui sentada olhando as nuvens. Que vão embora todos, que a água traga à tona os lixos mais escondidos, que as baratas saiam de seus esconderijos porque dizem sobreviver a tudo mas já vi que morrem afogadas. Pois eu não sou barata! Não sou não. Quero mais é que dê no jornal minha casa toda esbagaçada pra ver se fazem alguma coisa. Prefiro ficar aqui nessa umidade gelada, vítima do meu desejo por uma vida melhor, do que ir praquele ginásio dividir banheiro pão cobertor com quem nem conheço – ou pior, com quem conheço tanto a ponto de saber que não vale a pena.

Hoje à noite vai chover de novo e pelo vento não vai ser fácil. Vou agarrar minha santinha, colocar meu vestido florido, deitar na minha cama e rezar. Se a chuva vier me buscar, vai ter que arrombar a porta e me carregar pra fora como se eu fosse um lixo. Porque eu não saio. Não saio.
ps.: originalmente publicado no www.jovensescribas.com.br.