31/08/2007

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CONTRAMÃO
episódio 003
por Jão Saraiva

O impasse de Betão: se eu ligo pro Capitão, vai ficar puto. Dizer que não sei fazer nada só, desligar na minha cara, aquela chiadeira. Se dou voz de prisão ao doutor, me ferro lá na frente. O peixe é grande, dá pra ver. Se eu boto o motorista em cana, a empresa de ônibus pode sujar pro meu lado. Joguei pedra na cruz, foi isso? Vou te contar é.

- Senhores, tenhamos bom senso.

O impasse do Dr. Alberto: eu tiro o carro daqui e o que acontece? O caos. O caos. A celebração da imbecilidade. Motorista de ônibus tem que aprender o mínimo de educação. Está no código de trânsito: veículos maiores protegem os menores. Começa assim. Primeiro o sujeito bota o carro pra cima do outro, depois corrompe as filas de transplante, termina com.

- Concordo: bom-senso.

O impasse do Zé: só porque tem dinheiro pensa que pode tudo. Se eu tivesse um carro desse, você acha que eu ia brigar por pouca merda? Tomar no cu. Tem só que ver que horas são, porque o chefe chega já na empresa. Odeio pedir adiantamento, não sirvo, não sirvo pra essas coisas, incrível: se fosse pra.

- Ora pois.

O sol chegava nos 65 graus. O asfalto derretia como lama. Os curiosos triplicavam.

- Façamos o seguinte: dá a ré no ônibus, o doutor passa rapidinho, você volta e faz a conversão.
- Nem a pau. A contramão é dele.
- Mas gente, assim não é possível. Seu doutor, me ajude então, o senhor. Por caridade, dê uma rezinha pra gente resolver isso. O senhor sai, ele passa, pronto: resolvido.
- De modo algum. A contramão é dele.
- Muito bem, então eu é que vou decidir. Senhor José Alberto da Silva.
- Eu?
- Não, o senhor não. O senhor.
- Eu?
- Suba no seu microônibus e dê logo a marcha ré. Mas que punheta. Ou então, teje preso.

Com a boca ruminando milhares de demônios, José Alberto da Silva, o Zé, subiu até o banco de seu carro, fitou os olhares dos curiosos (tinha um senhor vendendo pipoca), esqueceu do adiantamento, não servia pra pedir dinheiro, viu no retrovisor uma mocinha rindo, provavelmente dele, não tinha nada e agora, nem dignidade, o pai dizia: pobre só tem honra, o resto é caro demais, contemplou o olhar satisfeito do guarda, problema resolvido, não é?, e então puxou debaixo do banco tudo o que precisava.

- Digo a você uma coisa: só me tira daqui sujeito homem.

E em meio aquela cena feia, que beleza era ver a luz do sol compondo um raio azul. Um fio de luz indo bater bem ali, no cano do revólver calibre 38 que o motorista erguia como o cetro de um Deus.

Amém.

Continua…

30/08/2007

no torrent


"NOSTALGIA", EXPERIÊNCIA ÁPYUS

Sem identidade definida, e fazendo disso um grande trunfo, a banda mistura, samplea, cita e transforma sua segunda incursão musical numa colcha de retalhos para ouvidos finos.

Os temas das músicas vão desde a dor de cotovelo (“o amor não é para fracos, o amor não é pra covardes, o amor destrói em cacos quem teima em seu leito arder”, entoam na excelente “Ele & ela” com participação especial de Simona Talma) até a violência contra a mulher (“me encare se for homem, me encare se for gente, me encare se tens mãe” é um trecho da raivosa “Nada”).

O passeio criativo também aborda a desilusão amorosa em “Dispara” (“se o amor chegasse agora eu batia a porta na sua cara”) que tem um refrão que acertadamente economizou na pieguice pra falar de dor de cotovelo (“é carnaval, mas não faz mal, já sei fingir”). O destaque vai pra belíssima e radiofônica “Nossa casa”. A história da música é um capítulo a parte: Marlos Ápyus, líder da banda, leu um texto em prosa da jovem escriba Andréa Marinho. E saiu cantarolando! Com poucas adaptações, a prosa virou música. Frases como “teus dedos tocando delicadamente meus cabelos como se procurassem notas ainda não descobertas” fazem dessa música uma grande declaração de amor. O refrão mata a pau: “teus olhos sóis que ofuscam o meus, meus braços nós que não livram os teus”.


Se você ficou com vontade de ter essa experiência só pra você, basta ir na página da DoSol Records. O CD está disponível pra download no site. É baixar, ouvir e compartilhar essa mistura minuciosa de rock, pop e MPB.

FICHA TÉCNICA
Disco: "Nostalgia"
Banda: Experiência Ápyus
Gravadora: DoSol Records
Nota: 9,0

E TEM MAIS
Em breve, “Nostalgia” vai ser tema de um PLOGCAST. E por falar nisso, o primeiro vai ao ar este fim de semana. Na estréia, eu e Luanda Holanda comentaremos faixa a faixa do CD “Esses dias não irão pra história” da banda Jane Fonda. Aguardem.

28/08/2007

quem vai dar ctrl+s na tevê?

Em tempos de youtube,
orkut, msn e o escambau,
poucos ainda têm tempo

e saco pra assistir TV



Ontem assisti TV. Por mais absurdo que pareça, juro, assisti TV. Sentei-me diante daquele luminoso quadrangular, empunhei o controle remoto, desliguei o cérebro e fiquei ali, não-existir total, apenas corpo diante da informação.

O mais estranho de tudo é que parecia estar diante de uma velha amiga que não encontrava há tempos por pura negligência. Sentia-me culpado. Assisti cerca de uma hora e meia com um grande sentimento católico nas costas: perdão, TV, por tanto te negligenciar.

É, a vida não está fácil pra minha velha amiga. Depois da internet e das zilhões de possibilidades de entretenimento que surgiram com o cyberespaço, a TV está a cada dia mais perdida. Como se já não
bastasse ter sido vilanizada: órgão alienador das massas, sistema de controle da opinião, idiotizador do povo. Calma, calma, é apenas um quadrado de plástico.
Não escondo minha admiração por esse veículo. Eu gosto de TV. Aliás, adoro. Série, novela, jornal, filme: tudo fica mais gostoso com a TV. O problema é justamente esse: é tão bom, mas tão bom, que é perigoso. Idiotiza sim. Aliena sim. Até engorda! Mas, tadinha, é apenas uma TV. Ela só quer nos divertir.

Sem tempo. Todo mundo está sem tempo. A coitada da TV foi relegada a segundo plano, companheira de jantar, apenas gerando o barulho que embrulha momentos mais importantes. A vedete da casa agora é o computador. Que dá mil possibilidades de informação, dez mil de interação, infinitas mil de entretenimento.

E a coisa tende a piorar. Logo mais, a primeira geração que já cresceu diante de um monitor LCD e um teclado QWERT vai deixar a adolescência. Serão os primeiros adultos que trocaram o “Namoro na TV” pelo Orkut. A primeira geração que se habituou a não esperar pelo que quer ver: vai no torrent, baixa, assiste. Um absurdo para a TV que nos fazia passar a semana inteira esperando pelo novo episódio de Armação Ilimitada. É, velha amiga, você precisa rever seus conceitos.
Claro, muita coisa já vem sendo pensada na tentativa de salvar a alma da televisão. O multientretenimento de “Lost”, por exemplo, que obriga o espectador a buscar informações em diversos meios para entender à perfeição seu intrincado roteiro; ou o fortalecimento da indústria das celebridades, que não passa de uma tentativa de nos manter ligados no próximo reality show; ou ainda a tão aclamada TV digital, que promete revolucionar a maneira de assistir televisão mas que, até agora, de concreto mesmo, só tem a qualidade de som e imagem compatível ao cinema. Ainda é pouco. A TV é um meio limitado diante da internet e o esquema de investimentos astronômicos, salários milionários e lucros exorbitantes tende a sumir gradativamente.

Vai ser como o rádio, que de veículo mais importante da década de 50 acabou tendo que se reinventar para ocupar seu lugar no bolo: nichos esparsos, estruturas enxutas, lucros reduzidíssimos. Hoje é impensável ter um emissora de rádio com o poder de fogo da Globo, por exemplo. O destino é mesmo investir em audiências menores porém qualificadas, caminho seguido muito bem pela TV a cabo.


Bem-vinda ao século XXI, velha amiga.

24/08/2007

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CONTRAMÃO
episódio 002
por Marlos Ápyus

O "Silva" do uniforme estava sujo e ele só notou quando Dona Zefinha o apontou com o dedo já enrugado por sua idade avançada. Betão então pediu um guardanapo e tentou em vão livrar-se do imprevisto. Sabia ele que todo prazer tinha um preço, e o de tomar café naquele boteco, com direito a pão com manteiga pingado de leite, era o risco de ter algumas gotas manchando seu uniforme. Desencanou e decidiu tocar sua manhã na mais perfeita e possível tranqüilidade. Até que ouviu ao longe uma buzina soando forte.

Com dois passos para trás não só abandonava o balcão como saía do ambiente. E assim o fez para verificar se tudo corria bem no trânsito do cruzamento mais movimentado da cidade. Com a resposta positiva, retornou para mais um mergulho da massa na xícara. Foi quando uma nova buzina se fez soar. Seguida de uma segunda, e uma terceira, e uma quarta, que juntas berravam o coro dos descontentes. Algo acontecia.

Desta vez não só deu ré, como virou todo seu corpo e procurou mais detalhadamente a raiz do problema. E nada. Os semáforos funcionavam corretamente, os carros o obedeciam, nenhum veículo quebrado na via atrasando o tráfego, nenhum barbeiro causando o ódio alheio. Mas as buzinas ainda soavam, cada vez mais intensas, e ele pôde notar a movimentação de alguns pedestres em direção a uma via mais à frente costumeiramente utilizada por aqueles que necessitam de uma conversão à esquerda mas são impedidos pela falta de retornos na avenida principal. A solução até então era entrar à direita naquela rua e, com mais duas conversões na mesma direção, num giro de 270º, chegar à via perpendicular à original e assim concluir a manobra. Mas uma reforma nas redondezas por conta de um novo estacionamento para uma faculdade particular dali próxima estava para mudar os sentidos das pistas menores e assim matar o atalho utilizado por aqueles que melhor conheciam o trânsito da cidade. Betão engoliu o pão já molhado do café em sua boca, gritou para Dona Zefinha pendurar sua dívida, e em passos firmes caminhou na busca do problema, não sem antes puxar do bolso da camisa seu apito.

Virando a esquina, deparou-se com a situação: um microônibus e um veículo importado se encarando como boxeadores antes de uma luta. Mas ambos, aparentemente, com a torcida invertida. Por trás do transporte público, motores, tecnologia poluição, estresse coletivo e empresários atrasados para seus compromissos incitavam o combatente. Já da parte do transporte privado, nada mais, nada menos que o povo, com toda sua curiosidade e fome de desgraça, talvez não intencionalmente, defendendo a beleza e imponência do quatro por quatro.

Pensando estar diante de um caso de fácil solução, Betão resolveu primeiro conversar com aquele que, julgava ele, ganhava o melhor salário e poderia lhe render um troco mais gordo: - Bom dia! O senhor sabe que está na contramão?

- Até onde sei, não há nenhuma placa informando que estou infringindo a lei!
- Mas esta é uma via de mão única e o senhor está na contramão.
- É? Prove, então!
- Olha, Senhor, eu não tenho como provar aqui. Mas nesta situação a minha palavra é a lei. E se eu te digo que você está na contramão, é bom você aceitar ou as coisas podem complicar para seu lado.
- Antes de qualquer coisa, gostaria que continuasse me tratando por "senhor", e não por "você". E se eu te digo, caro "Silva", que nossa conversa está sendo gravada não por mim, mas pela minha secretária que está neste momento do outro lado da linha deste celular, acho muito bom que o "senhor" passe a medir melhor suas palavras e atitudes ou as coisas podem complicar para seu lado.

A espinha de Betão gelou. O "senhor" do quatro-por-quatro provavelmente estava blefando, mas devia ser algum político, ou pelo menos parente. Ninguém falaria tão destemidamente se não fosse. Não era bom comprar briga com peixe tão possivelmente graúdo. Resolveu apenas seguir com a operação padrão e conferir os documentos do motorista. Não sem antes pedir calma. - Estou aqui apenas para tentar dar um jeito nessa situação.

- Acho bom mesmo!
Sentindo a dificuldade, Betão dirigiu-se ao microônibus.
- O que está acontecendo aqui?
- Olha, seu guarda, eu entrei aqui na rua para fazer a conversão que faço há sete anos como motorista desta mesma linha e esse maluco está aí fechando o trânsito e não deixando ninguém passar.
- Mas o senhor sabe que este trecho vai mudar de sentido, não sabe?
- Vai sim, disso eu sei. Mas ainda não foi!
- Como assim ainda não foi?
- Não me notificaram nada na empresa.
- Olha, eu não tenho culpa se não te notificaram. Eu estou aqui para cumprir a lei.
- A lei dos mais fortes, é?
- Não me venha com gracinhas ou te levo em cana por desacato. Deixe-me ver seus documentos.

Com ambos os documentos em mãos "Betão", para os amigos, "Silva", na corporação, ou "José Alberto Silva", na certidão de nascimento, finalmente pode notar aquela estranhíssima coincidência. Que possivelmente não queria dizer nada. Mas que não deixava de ser uma tirada irônica do destino. Dois lados em conflito, no meio um juiz, três josés, três albertos, três silvas. Teriam eles em comum apenas os nomes? Uma conversa a três provaria que não. Mas Betão nem imaginava isso quando pediu para que os demais abandonassem os veículos e negociassem ali mesmo, sobre o asfalto quente, uma solução para o impasse.

Continua...

23/08/2007

plogcast >>> teste

Galera, há algum tempo pesquiso na net como criar um podcast no PLOG. Finalmente, descobri!!!! Esse post é um teste. Se funcionar legal, a partir da semana que vem eu e Luanda Holanda (parceira de tantas coisas) passaremos a ouvir CDs de bandas locais e comentar de forma bastante embasada, usando todo o nosso conhecimento musical, artístico, cultural e de mundo!

Por enquanto, fiquem com o teste. Ludov cantando “Noite Clara” do CD “Disco Paralelo”. Até aguardem a estréia do PLOGcast.


20/08/2007

operação impacto: um show de amadorismo

ENTENDA PORQUE A OPERAÇÃO IMPACTO (E SUAS DESCOBERTAS) REVELAM QUE HÁ MAIS AMADORES QUE PROFISSIONAIS NO NOSSO ESTADO

Primeiro foi Flaviano Gama, advogado de três vereadores envolvidos no esquema de corrupção investigado pela Operação Impacto. Disse ele: “A Operação Impacto foi marcada por lambanças”. Agora, é Erick Pereira, advogado da Abreu Imóveis, empresa também investigada por suspeita de pagamento de propina aos vereadores: “Dificilmente alguém sairá inocente desse inquérito”, disse acusando assim o Ministério Público de condenação prévia dos envolvidos.

Vejam em que ponto chegamos. As denúncias são tão consistentes, o esquema está tão na cara, a polícia está tão perto da verdade, que resta à defesa dos envolvidos criticar a investigação. Atenção, advogados, a Operação Impacto não é um filme e vocês não são críticos de cinema. Aqui é a vida real. E por mais surreal que pareça, dessa vez os culpados estão bem perto de pagar pelo que fizeram. Eu esperava que pessoas tão poderosas tivessem advogados mais profissionais. O que vejo é um desespero em desviar o foco. Qualquer advogado de porta de cadeia faria melhor.

Muitas dessas críticas vêm do fato de que a imprensa sempre estava no local das invasões quase em sincronia com as forças-tarefas. Foi assim na Câmara Municipal, foi assim na Abreu Imóveis. Mal tudo começou, pronto, já tinha TV filmando, jornal fotografando, jornalistas por todo canto. Mas isso é totalmente natural. Puxa, não é todo dia que o Ministério Público fecha a Câmara Municipal, não é mesmo? Isso só depõe a favor de nossa imprensa. Foi ágil, cobriu o fato com rapidez, não se deixou intimidar pelo quilate dos investigados. A imprensa, sim, vem dando show de profissionalismo.

O conselho que eu dou aos advogados é que se concentrem em defender seus clientes e não em criar factóides para desviar a atenção da opinião pública. Por exemplo, expliquem a lista completa dos deputados que derrubaram os vetos do Prefeito encontrada no gabinete do vereador Emilson. Expliquem por que o assessor de Geraldo Neto foi sacar dois cheques nominais de 50 mil reais emitidos pela Abreu Imóveis. Expliquem as gravações divulgadas de claras vendas de votos. Expliquem o dinheiro vivo (e não declarado) encontrado na casa de diversos vereadores.

O que está condenando previamente os investigados na Operação Impacto é a sensação de impunidade solidificada na mente dos corruptos. Isso sim. Pelo que vemos, o esquema era tão amador que só mesmo a sensação de nunca ser pego explicaria arriscar tanto. Diante disso tudo, se os indícios se configurarem provas, vou mesmo é ficar um bom tempo me perguntando por que alguém teria a brilhante idéia de pagar propina com um cheque nominal. Na boa, é amadorismo puro.


ps.: Eu sei, eu sei, prometi não voltar ao tema. Mas ele voltou a mim. Fazer o quê?

17/08/2007

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contramão
episódio 001
por Patrício Jr.

Parados frente a frente numa rua de mão única. O microônibus da Viação Cruz, o quatro-por-quatro importado da Kia. Não chegaram a bater, mas quase. De um lado, o trânsito congestionado ao fundo do microônibus, buzinas, protestos, poluição. Do outro, curiosos se aglomerando na traseira do quatro-por-quatro, tentando entender o porquê, querendo assimilar mais um caso urbano incompreensível.

José Alberto da Silva, o Zé, 35 anos, há doze funcionário da Viação Cruz, deixou sua casa às cinco e meia da manhã sob o olhar de dois filhos esfomeados e uma esposa enfraquecida de dengue. O salário acabara há cinco dias e não havia mais como protelar: ia pedir um adiantamento. Fez suas duas primeiras linhas esforçando-se para cumprir o horário: cada minuto de atraso representava desconto de quase um real em seu ordenado. Não é nada na maioria das vezes, mas quem tem um filho chorando de fome em casa sabe o valor de uma moeda prata e dourada.

José Alberto da Silva, o Dr. Alberto, 42 anos, empresário do ramo imobiliário, dormiu a noite anterior no hospital, segurando a mão de sua filha e maldizendo os médicos que não conseguiam inseri-la na fila de urgência de transplantes de medula. Saiu do hospital às vinte para as seis, passou em casa, tomou um banho rápido, não comeu nada e foi direto para a imobiliária. Tinha uma reunião importante às oito e não passou muito tempo na empresa. Entrou no carro refletindo sobre como o mundo poderia ser mais simples se cada um fizesse a sua parte. Se todos cumprissem seu papel dignamente. Se as filas de transplante não estivessem tão corrompidas pelas propinas. E ele não se apegasse tanto à ética que o impedia de tentar algo no câmbio negro mesmo que fosse para salvar uma vida.

A área estava em reforma e há mais ou menos dois dias todas as placas haviam sido retiradas. Sem sinalizações, era impossível saber para qual lado a via era única. Microônibus e quatro-por-quatro encontraram-se frente a frente nesse vácuo da lei de trânsito: quando não há placas, como saber para onde ir?

Zé e Dr. Alberto entreolharam-se logo depois que frearam abruptamente. Entreolharam-se e ficaram esperando que o outro engatasse a marcha à ré para livrar o caminho. Nenhum dos dois, entretanto, tomou essa atitude. Continuaram se fitando com uma crescente raiva bailando no ar. Se um impediria a passagem do outro, o outro estava disposto a fazer o mesmo. Permaneceram estacionados, trânsito congestionado, curiosos ao redor. Não houve batida. Não houve nada.

Zé lembrou das humilhações que passava no trabalho, no salário-mínimo mirrado ao fim de cada triste mês, no estômago dos seus filhos que soava de madrugada enquanto as crianças tapavam o choro de fome com as mãos. Não, senhor dono do Brasil, eu não vou baixar a cabeça e ceder aos seus caprichos só porque sou pobre, ele dizia com os olhos, eu não vou me humilhar mais uma vez e perder por completo meu amor-próprio só porque o senhor pensa que está certo, eu não vou agir como um escravo diante do senhor de engenho, porque sei que é assim que vocês ricos vêm a todos nós da base da pirâmide, escravos libertados que todos os dias devem dar glórias aos céus pela benevolência de seus senhores.

Dr. Alberto segurou fortemente o volante tentando apagar da mente a revolta que mantinha dos que se achavam no direito de invadir sua casa, roubar seus pertences, atirar na sua filha, deixá-la em coma e pensar que está tudo bem, ele é rico, vai se recuperar. Encarou Zé querendo que ele entendesse que não, amigo, eu não tenho culpa de você ganhar apenas um salário mínimo por mês, eu não tenho culpa de ter tido sorte e oportunidades e visão de futuro e até mesmo, vá lá, um pouco de talento, eu não tenho culpa por poder servir pão integral com geléia aos meus filhos quando você nem água, eu entendo seu problema, me compadeço dele, mas não aceito que você transfira a culpa de tudo para mim só porque tenho cheque especial, carro importado e cartão de crédito.

A rua agora pululava de pessoas, cada uma com seus argumentos e suas defesas, posicionando-se uns ao lado do importado negro, outros ao lado do microônibus branco. Os argumentos eram dos mais diversos e, muito embora inflamados e apaixonados, não eram ouvidos pelos protagonistas. De dentro de seus veículos, ainda presos num entreolhar de verdades, Zé e Dr. Alberto não ouviam que o povo ao redor, na rua lotada, discutia ardentemente aquele caso insólito, dizendo que é um absurdo, esses motoristas de ônibus pensam que são donos da rua, entram assim numa avenida estreita como essa sem nem checar se é mão ou contramão; mas absurdo mesmo é esse grã-fino, nem abriu o vidro do carro, ta lá no bem-bom do ar-condicionado, certamente vai ligar pra um amigo deputado pra interceder aqui, eles se acham os donos do mundo, num é só da rua não; mas ele está certo, essa rua é de mão única, o ônibus tá na contramão; a rua é mão única sim, mas quem tá na contramão é o carro; o ônibus; o carro; o ônibus; o carro.

Presos em suas células de sobrevivência, Zé e Dr. Alberto continuaram se olhando. Tinham uma vida toda para provar que estavam certos. Enquanto isso, do lado de fora, o inconsciente coletivo agrupava os curiosos do lado de suas ideologias. Uns para o importado, outros para o microônibus. A vida dividida em plena hora do rush. Como se todos perguntassem: então, de que lado você está?

Continua…

16/08/2007

humanidade: um projeto inviável

Ando tão irritado com o mundo. Tão irritado com a imbecilidade do ser humano. Não quero repelir você com minha amargura, nem soar exacerbadamente irado, mas não tem mais como bancar o compreensivo: a humanidade é um projeto inviável.

Fiquei puto (nenhum outro termo expressaria tão bem o meu estado de mau humor) quando li notícia sobre o desastre ecológico no Rio Potengi. O Idema (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente) procura com afinco o culpado. O laudo inicial apontava a Veríssimo & Filhos (empresa de carcinicultura) como a responsável de ter espalhado a substância orgânica que causou carência de oxigênio na água e matou toneladas de peixes do dia pra noite. O Idema está procurando tanto um culpado que fica bem claro que este não é outro se não ele próprio. O Idema matou os peixes.

É a mesma coisa do acidente da TAM em Congonhas. A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) está investigando, mas todos nós sabemos que a maior culpada é a própria Anac. Ora, se é ela a responsável por fiscalizar as atividades no setor aéreo, é dela a responsabilidade pelos erros causados por falhas de fiscalização. O aeroporto estava superutilizado, a pista não tinha grooving, o avião só tinha um reverso… como a Anac deixou tudo isso acontecer?

A mesma coisa com o Idema. Não é dele a responsabilidade de checar o impacto ambiental causado por empresas em áreas de proteção? Não é dele a responsabilidade de cuidar para que o avanço industrial não mande pro espaço nosso patrimônio natural? Não é dele a responsabilidade de manter uma harmonia entre o desenvolvimento econômico e o a preservação do meio ambiente? Então, onde estava o Idema?

Buscar culpados, essa é boa.

Não é de hoje que a presença de empresas de carcinicultura nos mangues do Rio Potengi causa controvérsia. É público e notório que as fazendas de camarão são uma atividade rentável, com baixo investimento inicial, know-how facilmente transmissível e alto risco ambiental. Com todos esses fatores, quem tem mais chances de perder alguma coisa é o Planeta Terra. E, ah, foda-se o Planeta Terra, não é mesmo?

Além do mais, já se sabe que a água do Potengi está contaminada faz tempo. Impotável, poluída com coliformes fecais e nitrato (conforme mostrei no texto “Desta água não beberei”), só faltava mesmo ao nosso principal rio a marca de um desastre ecológico visível a olho nu. Não falta mais.Quando digo que a humanidade não é um projeto viável, é com base na observação desse tipo de rotina. Criamos um órgão para evitar desmandos. Ele não evita. Quando algo muito escabroso toma as páginas de jornais, este órgão sai por aí querendo descobrir os culpados. Tenha santa paciência.

Cansei desse projeto inviável. Cansei mesmo. Que hoje nenhum ser humano venha pedir minha benevolência. Mas se tiver algum marciano lendo, por favor, leve a sério meu apelo: abduza-me.

Ps.: Uns dias sem postar por causa do trabalho. Mas estou voltando á rotina do PLOG. Encerro hoje essa trilogia sobre política e amanhã já estréia o Hipertexto III com o hiperconto “Contramão”. Até lá, povos.

10/08/2007

banco imobiliário: uma lição de vida

Sua opinião está sendo manipulada neste instante. Exatamente como eu fazia com meus coleguinhas quando jogava Banco Imobiliário.

Quando eu tinha 10 anos, era completamente viciado em Banco Imobiliário. O que me fascinava eram as regras dúbias, que davam margem a diversos desdobramentos no jogo. Por exemplo, além de jogador, sempre era o banqueiro (porque o jogo era meu e ai de quem discordasse!). Assim, negava empréstimos, superfaturava juros, enfim, escrotizava os outros jogadores. Ao final, sempre saía vencedor. E completamente dentro das regras.

Como vocês podem ver, basta um pouquinho de malícia pra se dar bem na vida. Por isso, se eu fosse jogar Banco Imobiliário hoje, escolheria ser dono de emissora de TV. É perfeito! As regras nesse setor são tão abertas, tão dúbias, que basta ser um pouquinho mais esperto pra vencer. Além disso, claro, acumularia a função de político. Apenas uma variação da dualidade banqueiro/jogador.

Com o poder de manipulação e a possibilidade de obter lucro fácil com minhas ações, não teria motivo algum para seguir as regras. Aliás, lembro-me bem, sempre que algum jogador contestava minhas atitudes de banqueiro e pedia para checar o manual, eu dizia que tinha perdido o livrinho. Mais ou menos o que faria hoje, manipulando a opinião pública para que ninguém pudesse ter acesso à verdade.

É assim que enxergo todos os políticos que detêm concessões públicas de veículos de comunicação. Crianças de 10 anos tentando ser mais espertas para vencer o jogo. São, ao mesmo tempo, banqueiros e jogadores. Mas, como as regras são abertas, não estão necessariamente cometendo um crime.

A pergunta é: quando um ato antiético é cometido com o intuito de obter o mesmo resultado que um crime obteria, deve ser punido como tal?

Me perguntei isso ao acompanhar o processo de cassação da senadora Rosalba Ciarlini (DEM/RN), acusada pelo candidato derrotado Fernando Bezerra de mau uso dos meios de comunicação na eleição de 2006. A maioria dos ministros do TSE, até agora, julgou natural que ela aparecesse tanto na TV Tropical – que por coincidência é de propriedade do seu maior apoiador, José Agripino. As pautas diziam respeito a assuntos nos quais ela seria entrevistada em circunstâncias normais. E como se entende que a Lei Eleitoral não pode funcionar como censura, joguemos La Ciarlini na telinha.

O voto a favor da cassação dado pelo ministro Cezar Peluso, entretanto, abriu uma discussão interessante. Para ele, há dois tipos de delito. O primeiro é o que descumpre diretamente a lei (no Banco Imobiliário, seria alterar o resultado dos dados para evitar que seu pino caia justamente num hotel no Morumbi); o segundo, disfarça de lícito um ato ilegal, descumprido a lei de forma indireta (era o que eu fazia no Banco Imobiliário). Pelo voto de Peluso, Rosalba Ciarlini cometeu este segundo delito que, para ele, equivale a crime eleitoral.

Como vocês podem ver, é o mesmo raciocínio que eu aplicava para vencer meus amiguinhos de infância. Vejam bem, sou jogador e banqueiro. Posso sugerir ao meu editor as pautas que colocarão meu candidato diante das câmeras por mais tempo (maquiado, cheiroso, simpático). Se ficar muito na cara, sugiro que o adversário também seja entrevistado (mas que seja pego de surpresa na saída de uma partida de futebol, por exemplo, suado e bêbado, sem nenhuma resposta preparada). Tudo dentro das regras do jogo, que são tão abertas que possibilitam esse tipo de artifício.

Rosalba Ciarlini em dois momentos:
no jornal dos seus adversários
e no jornal dos seus correligionários

Um dos grandes defeitos do brasileiro é ignorar problemas graves. E, pior: quando se tornam gravíssimos, anunciá-los como uma novidade. O desastre em Congonhas, a perdição dos jovens da classe média alta, a crise no setor aéreo, as favelas do Rio, o crime organizado em São Paulo: todos são assuntos velhos, problemas decanos, deficiências da sociedade brasileira que são ignoradas até que não mais possam ser.

Pois bem, estamos diante de mais um grave problema há algumas décadas. Ninguém explica por que a maioria das concessões públicas de rádio e TV estão justamente nas mãos de grupos políticos (e que esses grupos formam, coincidentemente, oligarquias dominantes nas regiões onde atuam). Ninguém discute se é ético, e portanto passível de estar de acordo com a lei, que um político tenha um instrumento tão forte de manipulação nas mãos. Ninguém falará sobre isso até que aconteça uma tragédia muito grande (como se as que já ocorreram nas urnas não fossem o suficiente).

Seguimos ignorando que a manipulação da opinião pública em favor de determinados grupos políticos ocorre de forma descarada no Brasil. Você sabe, eu sei, todos sabem (basta assistir o noticiário local, só isso, e você encontra provas contundentes). Tudo acontece, claro, dentro da lei. Mas, como já provei aqui, até uma criança de 10 anos consegue burlar essa tal de legislação.

08/08/2007

operação impacto: um atentado violento ao pudor

Neste domingo, o motorista Gilson Freitas foi preso num motel em Mossoró na companhia de um menino de 13 anos. Acusado de pedofilia, defendeu-se: era usuário de maconha, mas sua esposa não sabia. Por isso, sempre que ia fumar, procurava um motel. Naquele dia, o traficante deixou o irmão pequeno em sua companhia e foi buscar mais fumo. Como ele já ia mesmo ao motel, levou a criança e ficou lá esperando. Apesar da defesa criativa, Gilson continua preso. E mesmo que se livre dessa, bem, o que está passando no xadrez já deve servir como lição.

Já em Natal, na segunda, o advogado José Cabral testemunhou na Delegacia do Patrimônio Público. Ele é o principal álibi de Ricardo Abreu, dono da Abreu Imóveis, acusado de pagar propina a vereadores para alterar o Plano Diretor em favor da especulação imobiliária. A acusação surgiu quando se comprovou que Francisco de Assis, assessor do vereador Geraldo Neto, sacou dois cheques de 50 mil reais emitidos pelo empresário.

NO MUNDO DA IMAGINAÇÃO

O depoimento de José Cabral em favor de Ricardo Abreu lembra em muito a defesa de Gilson Freitas no que tem de mirabolante. José Cabral afirmou que há três meses tentava vender um apartamento a 270 mil reais. No dia 2 de julho, abriu negociações com Ricardo Abreu. No dia seguinte, fechou o negócio por 220 mil. Mas não concordou com as condições de pagamento: dois cheques de 50 mil de entrada, mais 120 mil para um ano depois. Ricardo Abreu disse que não tinha problema: entregou os dois cheques a Francisco de Assis (assessor de Geraldo Neto) que estava ali por ser amigo de longa data do pai do empresário. Assis foi ao banco, sacou o dinheiro, voltou à imobiliária e entregou tudo ao dono do apartamento. Que, ainda em depoimento, afirmou que dali rumou pra São Paulo, onde rateou os cem mil reais com seus quatro filhos.

Como alegou o suposto pedófilo de Mossoró, foi apenas uma terrível coincidência. Uma fatalidade. Lances do destino. Francisco de Assis, elo entre o empresário e o vereador, estava apenas no lugar errado na hora errada. A defesa, entretanto, tem tantas falhas que nos obriga a colocar um nariz de palhaço.


José Cabral tentava vender seu apartamento avaliado em 270 mil reais há três meses. Num dia recebe proposta de Ricardo Abreu. No seguinte, com um desconto de 50 mil reais, vende o apartamento. Que desespero! Partindo do pressuposto de que o desespero é real, por que cargas d’água pegou os 100 mil reais e distribuiu entre os filhos? Estranho, não é?

Uma pergunta que me corrói: na Abreu Imóveis não tem office-boy? É a única explicação para Francisco de Assis ter ido sacar o dinheiro. Que empresa é essa onde office-boy faz bico de assessor parlamentar? Estamos falando da maior imobiliária do Estado, que figura constantemente entre os 100 maiores arrecadadores de ISS do RN. E não tem office-boy? Nem serviço de malote? Quiçá um setor financeiro capaz de agilizar um DOC bancário?

É muita fé na humanidade arriscar sair com 100 mil no bolso pra economizar os 35 reais cobrados pelo banco. Aliás, essa fé vai além: os cheques sacados por Francisco de Assis eram nominais a ele! De novo: os cheques sacados por Francisco de Assis eram nominais a ele!!! Até imagino o diálogo comovente: “Confio tanto em você, Assis, que vou te dar esses cheques em seu nome pra você sacar 100 mil reais pra mim”. Não são 100 reais, nem 1000 reais, são 100.000 reais. Por mais rico que alguém seja, 100 mil reais continuam sendo 100 mil reais.


Mais um detalhe: o contrato de compra e venda não foi registrado em canto algum. Ou seja, até a apresentação do contrato à polícia, ele só existia pra quem o assinou, sem qualquer validade legal. Ricardo Abreu, o dono da maior imobiliária do Estado, com mais de 30 anos de mercado, não atentou pro fato de que a transação só valia se fosse registrada. No entanto, pagou 100 mil reais em espécie, sequer solicitando um recibo. Estranho, muito estranho.

Pra fechar com chave de ouro o festival de incoerências, ainda tem duas pérolas: 1) o apartamento estava impedido judicialmente de ser vendido por fazer parte do espólio de Laudaíra Fagundes, falecida esposa de José Cabral (com toda uma estrutura de profissionais qualificados a sua disposição, Ricardo Abreu comprou um imóvel de 220 mil reais sem checar sua idoneidade); e 2) José Cabral, apesar de ter vendido desesperadamente seu imóvel há mais de 30 dias, continua morando nele (de novo: José Cabral, apesar de ter vendido desesperadamente seu imóvel há mais de 30 dias, continua morando nele).

ISSO É BRASIL

Apesar dos pesares, nenhum dos envolvidos foi preso até agora, diferente do suposto pedófilo Gilson Freitas, que amarga num xadrez superlotado todos os seus erros em forma de estocadas à revelia.

Não creio mais na humanidade. Pra mim, todos são culpados. Mas como não quero julgar ninguém precipitadamente, tenho uma sugestão: ou soltamos Gilson Freitas e damos a ele os mesmos direitos de defesa dos acusados na Operação Impacto, ou colocamos todos os envolvidos no mesmo xadrez superlotado do suposto pedófilo. Estendendo aos nobres senhores, obviamente, todos os carinhos forçados dos quais Gilson Freitas, chorosamente, tem gozado.

Seria uma excelente lição.

04/08/2007

it's only rock'n'roll

Como no Dia Internacional do Rock eu estava viajando por Recife (e lá ainda não chegou internet), não pude atualizar o PLOG. Ou seja, a merecida homenagem acabou não acontecendo.

Mas não tem problema. O rock ainda vive. Prova disso é o Festival DoSol, que está rolando desde ontem na Rua Chile. Puro rock’n’nroll por obra de Anderson Foca e Ana Morena.

Então, a homenagem a esse libertador de almas, esse combustível da evolução, essa religião que me salvou do mal!, acontece hoje. Com vocês, uma série de anúncios que simplesmente me deixou chapado.

É o rock!




Ficha técnica: Criação: Felippe Motta, Sérgio Takahata e Tiago Dutra Direção de criação: Mario D'Andrea Agência: RMG Connect (PR) Anunciante: Revista Bandas Curitibanas Ilustração: Sérgio Takahata Aprovação: Marcos Wichert e Jaques B. Alves.

03/08/2007

hipertexto III: em breve

A partir da próxima sexta, novidades no PLOG. É a volta do Hipertexto, em sua terceira edição.

Tivemos o Hipertexto I, que rendeu o excelente hiperconto “Memento”. Tivemos o Hipertexto II, que foi um desastre com “Delirium”. Agora, é a tentativa III: vamos tentar escrever o hiperconto “Contramão”.

Pra quem já conhece, poucas novidades. Pra quem ainda não conhece, lá vai a explicação.

“Contramão” é uma história que será escrita por diversos autores e publicada semanalmente aqui no PLOG. A cada semana, um autor diferente assume o comando da história e faz com ela o que bem entender.

Não é permitida a combinação prévia sobre as tramas e o autor que assume a história tem total liberdade sobre ela (desde desenvolver tramas secundárias até matar personagens). O importante é ter em mente a qualidade da história como um todo, que ao final deve formar um conjunto harmônico.

O episódio 1 já foi escrito. Toda semana, o autor escolhido receberá um arquivo com todos os capítulos que já foram publicados. Ele assume a história a partir deste ponto.

O Hipertexto é um exercício criativo, um desafio às mentes dos escribas e também rende ótimas situações. É muito comum um autor querer encurralar o próximo, deixando a história num ponto em que parece impossível prossseguir. Portanto, fiquem atentos. Aos que ainda não conhecem o projeto, corram pra baixar o hiperconto “Memento”, produto do primeiro Hipertexto, no site do Jovens Escribas.

Começa sexta que vem, hein! Até lá.

01/08/2007

no torrent



O HOSPEDEIRO

Numa base militar americana na Coréia do Sul, um oficial yankee ordena a um funcionário coreano que despeje um produto altamente tóxico no Rio Han, uma espécie de área de lazer para a população local. Esse produto é o responsável pelo surgimento do Hospedeiro, uma espécie de bagre gigante anfíbio. Uma família que trabalha à beira do rio tem sua caçula seqüestrada pelo monstro e então inicia uma perseguição para regatá-la. Mas com um detalhe: como ninguém acredita que a jovem Huyn-seo ainda está viva, a família parte sozinha nesta jornada. Ou seja, pessoas comuns enfrentando um monstro mutante. É de aterrorizar. O mais legal é que o diretor Bong Joon-ho brinca com o fato de o monstro ser produto de uma irresponsabilidade dos Estados Unidos, carregando o filme de críticas disfarçadas em cenas de ação. Um desses grandes momentos é o tio da garota enfrentando o monstro com coquetéis molotov (quem lembrar de revoltas populares contra sistemas totalitaristas, ganha um queijinho). Mas o cargo de cena inesquecível fica mesmo pra primeira aparição do monstro nos minutos iniciais do filme. Trata-se de uma perseguição aterrorizante em plena luz do dia, com corpos, sangue, gritos e tudo que a cartilha do cinema de terror versa. Mas quando você pensa que Bong Joon-ho vai dar uma de Ridley Scott e esconder o monstro até o final, eis que ele surge inteirinho. Feroz, grotesco e aterrorizantemente real.


FICHA TÉCNICA

Título: “O Hospedeiro”
Título original: “Gwoemul”
País: Coréia do Sul
Ano: 2006
Duração: 119min
Gênero: Terror
Direção: Bong Joon-Ho
Roteiro: Chul-hyun Baek, Joon-ho Bong, Won-jun Ha
Elenco: Song Kang-Ho, Byeon Hee-Bong, Bae Du-Na, Park Hae-II, Ko Ah-Seung, Lee Jae-Eung