30/09/2007

na fliporto: cabou-se

Fim e futuro
Pois é, acabou-se o que era doce. A Fliporto se encerra hoje com um saldo positivíssimo. Grandes palestras, grandes momentos e uma pergunta: o futuro da literatura passa pelas festas literárias? Meus amigos, meu amigos, a resposta é sim. Por mais que nos corte de dor reconhecer que escrever não pode mais ser uma ação solitária, reconheçamos que o mundo mudou. Não recebo de bom grado a notícia, é claro, mas jamais vou ignorá-la.

Aproveitando a deixa
Carlos Fialho aproveitou sua presença em Porto de Galinhas para lançar seu livro. Segue foto do grande momento do meu amigo de letras, prestigiado por Antônio Mariano e uma amiga ao fundo.

E por falar em oportunidades

Vida de escritor não é mole. Imaginem que enquanto todos estavam gozando das benesses da beira-mar, águas de coco e cervejinhas, Carlos Fialho, meu ilustre companheiro de Jovens Escribas, não relaxou um só minuto. Para levantar uma graninha extra, fez até frete turístico em Porto de Galinhas. Segue foto que comprova o fato.

Portunhol selvage
Douglas Diegues é é uma das figuras mais interessantes que conheci na Fliporto. Verborrágico, veloz, inteligentíssimo, Douglas é o responsável pela editora Yiyi Jambo, que publica livros artesanais em portunhol. Cada livro tem a capa pintada a mão pelo artista Domador de Jacarés (!). Segue foto de três exemplares que me foram presenteados pelo Douglas. Grande abraço, cara.

E pra finalizar
Transformei o blog em fotolog, num foi? Ok, é que a câmera deu um probleminha e não pude baixar as fotos de ontem. Resultado: acumulou tudo pra hoje. Vocês vão me compreender, né?

Frase do dia
"Estamos aqui com nosso amigo... (baixa, olha o crachá, volta ao microfone) nosso amigo Martin"
Douglas Diegues, escritor, na mesa "Portunhol Selvagem"

29/09/2007

na fliporto

Na Tribuna
Atenção, plogados. Hoje saiu minha segunda colaboração pra Tribuna do Norte sobre a Fliporto. Basta clicar aqui pra ler. Aí você pode voltar no PLOG e comentar. A editoria de cultura da Tribuna me deu total liberdade e os textos que enviei seguem um formato de crônica. Ontem saiu a primeira, que você também pode ler clicando aqui. É nós.


Na tribuna
Ontem foi nossa participação (minha e de Carlos Fialho) na Fliporto. Fomos apresentadores do painel "Poesia e performance" (que tema!!!) que uniu os poetas Cláudio Daniel, Horácio Costa, Pedro Américo de Farias, Micheline Verunschk e Antônio Mariano em torno de um sarau em plena beira-mar. Esse lugar se chama Tribuna Fliporto e fica no finzinho do calçadão de Porto de Galinhas. Surreal! Destaque para Micheline, que recitou acompanhada de um músico e deixou todos os presentes com o coração pra sair pela boca.

Xico Sá
Não tem jeito, cara. Todo mundo de ressaca, aquela cara de quem nem comeu ainda mas já não gostou, aí Xico Sá chega no hotel pra mudar completamente o clima. Ele é o cara. Depois de muitas gargalhadas e algumas cervejas, eu vejo como é importante admirar as pessoas certas. Grande abraço, Xico.

E por falar em Xico
Acabo de sair do painel "Portunhol selvagem" com Xico Sá, Joca Reiners Terron, Douglas Diegues e um poeta uruguaio que a assessoria de imprensa não sabe dizer o nome (!), mas que entrou substituindo o paraguaio Cristino Bogado. Divertidíssimo encontro que falou sobre a terceira língua da América Latina e as tentativas de normatizá-la. Os debatedores acertaram ao defender que o portunhol não deve ser oficializado. Segundo eles, o que é oficial não tem poesia. E claro, a maior graça do portunhol é a junção de dois poemas-idiomas num só.

Casa Latino América
Tim Maia cover e depois Seu Chico, com releituras em formato rock de Chico Buarque. Esta foi a trilha sonora da noite de ontem, regada a muitas caipirinhas na Casa Latino América, local onde ocorrem as festas oficiais do evento. Acompanhdo por Carlos Fialho, Letícia Costa (Programa Entrelinhas, TV Cultura), Joca Reiners Terron e sua respectiva Bel, Xico Sá e Douglas Diegues, percebi que moraria tranquilamente em Porto de Galinhas se todos os dias fossem como esta noite. Vai sonhando.

Frase do dia
"O Bolsa Família devolveu ao pobre o direito à ressaca"
Xico Sá, escritor, às três da manhã

28/09/2007

programe-se

JOVENS ESCRIBAS NO MERCADO DAS PULGAS

De 28 a 30 de setembro, será realizado na Estação Ribeira o Mercado das Pulgas. O evento, que mistura feira mix com atrações culturais, contará com um estande do Jovens Escribas.

O Mercado das Pulgas original é o “Marché aux puces” de Saint-Ouen, nos subúrbios do norte de Paris, um grande bazar ao ar livre (um dos quatro existentes na cidade) que recebeu este nome por causa da venda de vestuário, muitas vezes infestados por pulgas. Em Natal, o Mercado das Pulgas acontece desde 2002, com edições realizadas no Nalva Melo Café Salão e na Aliança Francesa. O evento é um superbazar com artigos novos, usados e inusitados, de conceito exclusivista e que fazem a cabeça e o visual dos fãs de briques, antiquários e feiras undergrounds.

A partir desta edição, o bazar se transforma em uma feira, com participação de 30 expositores, programação cultural, festa de abertura e de encerramento e dois dias de visitação para o grande público.

O estande do Jovens Escribas vai divulgar os livros do grupo, promover vendas e contatos, além de realizar sorteios de livros todos os dias. Além do JE, a feira terá estandes das seguintes marcas:

  • Casa do Cordel (literatura de cordel)
  • Lado R/Tropa Trupe (camisetas e poesia)
  • Overend (roupa unissex)
  • Velvet Discos (CD´s, Vinis e DVD´s)
  • Le Zoo (roupa fashion)
  • Brechó Vip (brechó e antiquário)
  • Galpão 223 (antiquário)
  • Mamãe, eu sou from hell!! (bolsas e acessórios)
  • Acessórios Sex Shop (sexshop)
  • Delícias da Lilica/Bomdelli (comidas artesanais e doces)
  • Avesso Clubber (caipifrutas)
Mercado das Pulgas - Bazar Fashion
28 de setembro: 18hs
29 e 30 de setembro: Das 10hs às 22hs
Estação Ribeira - Rua Dr. Barata, 238, Ribeira
Acesso: R$ 1,00 (feira), R$ 5,00 (Festa das Pulgas)

27/09/2007

na fliporto: primeiras impressões

Mistério
Sim, sim, sim. Porto de Galinhas é linda, a viagem foi maravilhosa, todo mundo é simpático e solícito. Mas… não sei, tem alguma coisa que eu ainda não descobri. Ok, estou há menos de seis horas aqui. Não deu tempo de absorver toda a atmosfera. Também conta o fato de eu não ter conseguido dormir mais desde que acordei às 4 da manhã, ainda em Natal, para pegar o vôo pra cá. Enfim, deve ser meu mau humor.

Tentando
Não consegui dormir, mas continuo insistindo. Eis aí a tentativa 3. Depois de fritar na cama de solteiro do quarto e de passar à cama de casal, resolvi armar uma rede na varanda. Nada de dormir. Tirei algumas fotos pra registrar esse momento de agonia. Estaria eu buscando coisas pra reclamar, uma vez que tudo foi tão perfeitinho até agora? Deve ser o mau humor.

Vida dura de escritor iniciante: é, tem que trabalhar

Destaques
Bem, quem eu quero mesmo ver nessa Fliporto é José Eduardo Agualusa, best seller mundial que, além disso, é um poço de simpatia e inteligência. Após roubar a cena na Flip (em Paraty) com sua elegância e seu dom de, digamos, arrancar suspiros das incautas marias-rodapés, vamos ver o que o angolano vai aprontar por aqui. “Homenagem à África” é o tema da mesa que ele dividirá com Raimundo Carrero, autor pernambucano vencedor do Jabuti 1999, famoso pelo rótulo de regionalista. Vamos ver no que vai dar esse angu.

Perda
Falaram que já tinham avisado, mas a mim não. Infelizmente, Pedro Juan Gutierrez, autor da “Trilogia Suja de Havana” e um dos autores que eu adoraria conhecer, não vem mais pra Fliporto. Acabo de saber no lugar mais quente de Porto de Galinhas: a sala de imprensa. Mais uma vez, é onde tudo acontece. A explicação pra ausência do cubano foi o surgimento de complicações com o visto. Que pena, que pena.

Da Galícia pra Galinhos
Nem tudo está perdido, colegas! O galego Xosé Lois García (assim mesmo, com xis) está confirmado para a mesa “A revolução do poema em Che Guevara”. Que tema, hein! Um dos escritores mais aclamados da Espanha, García ajudou a colocar a Galícia (região anexada à força ao território espanhol e que até hoje deseja a autonomia) no mapa da cultura européia. Ele, inclusive, faz algo bem recifense: num país em que os idiomas ditos secundários foram e são acachapados pelo espanhol, Xosé Lois escreve em galego, publica em galego e dá entrevistas em galego. Pra quem não sabe, o galego é um dos pais do português moderno e guarda diversas semelhanças com nossa língua. Grande sacada da Fliporto.

Frase do dia
“Amigo, tu esh de ondxe?”
Assessor da Fliporto ao ouvir meu sotaque potiguar na sala de imprensa

26/09/2007

fliporto: cobertura completa


Você já viu esse filme, né? Mas o cenário era Paraty-RJ e o evento se chamava Flip. Agora, a locação é Porto de Galinhas, Pernambuco. E o evento se chama Fliporto - Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas. Mas o resto continua o mesmo: quatro dias de palestras sobre literatura, cobertura pra Tribuna do Norte e companhia de Carlos Fialho nas discussões, argüições e cachaças, claro, que ninguém é de ferro.

Embarco nesta madrugada e volto no domingo. Minha grande curiosidade é ver como um evento nos moldes da Flip da abastada e histórica Paraty funciona em terras nordestinas. Claro, a paradisíaca Porto de Galinhas vai influenciar bastante minha opinião.

Esperem notícias direto do front aqui no PLOG e também na cobertura que farei pra Tribuna do Norte. Ah, sim, e pro site do Jovens Escribas.

Galinhas, aí vou eu!

25/09/2007

domingo

Ele veio abrir o portão e eu simplesmente não consegui entender: a pele enrugada, os cabelos brancos, o sorriso de velho, eu não consegui entender aquilo. Estava bem claro até então, mas a partir dali toda a compreensão fugiu. Em pequeninos e lentos passos, visto que a idade encurta a velocidade da vida, ele se aproximou. E eu ali, ao sol, refrigerante de cola na mão, dois litros como pediu minha mãe. Não entendi. Tão misturado ao cheiro do frango de domingo, do jornal de domingo, do vazio do domingo: perdi a compreensão do que era meu pai. Ao passo que, obviamente, como pude perder isso?, ele era um domingo. Em toda a sua extensão de nadas e ainda assim necessário. Um domingo. Do qual dizemos odiar as noites, mas que são imprescindíveis por serem pausas. Meu pai me fez parar. Ali, sem acertar qual das chaves me abriria o caminho, o refrigerante esquentando, meu peito esquentando, o sol… é obvio o que me fazia o sol. Quem é você?, me escapou pela boca, sem pretensões de ser respondido, quiçá compreendido, apenas escapou. Quem é você? E como respondesse a um retórico “tudo bem”, disse-me: tudo. Não ouviu, não entendeu, ou apenas ignorou. Perdia lentamente a conexão com o mundo, isolando-se nas suas leituras, jornais, revistas, almanaques, menos o meu livro. Quem é você, pai?, eu queria repetir, quem é você?, mas não tive coragem. Ainda era ele o impedimento maior de eu ser em plenitude. Confesso: meu limite é meu pai. Sempre que penso em fazer uma burrada muito grande, uma desinteligência daquelas, ser um grandessíssimo perdido, é ele quem me impede. Quem me segura. Como fosse uma fronteira, meu pai delimitando sempre o que não sou, um guia, um manual, uma letargia de domingo. Fiquei ainda ao sol, ainda com a coca nos braços, ainda sentindo o cheiro do frango e ouvindo agora, mais nítido, o ruído de família: risadas, gritos, correrias, famílias são pequenos carnavais. Então o molho de chaves caiu. E foi tão difícil para ele abaixar-se para catar de volta, que me perguntei como era possível tanta vida de repente esvair-se, pulverizar-se, implodir-se. Pois eu, sem fatalismos, enxergava a vida do meu pai nos últimos grãos da ampulheta, indo-se serena para outro lugar depois de plantar tantas por aqui. Perguntava-me, em absurdo horror, onde estaria a vitalidade do esperma que me vingou, onde estaria a força que fazia dele meu super-herói, onde vigorava agora a lei que dizia que meu pai era mais forte que eu. Baixei a vista, cocei a cabeça, me maldisse por pecar contra meu pai. Algo em mim gritava que eu não podia vê-lo assim decrépito. E ao mesmo tempo, dizia-me também que eu veria isso e muito mais. A vida é inevitável. E preparar-me para os finalmentes era o que me restava. Meu pai me fez voar carregando-me nos braços enquanto corria pela casa. Meu pai foi comigo a uma gráfica quando eu tinha 11 anos para saber quanto custaria imprimir um livro. Meu pai chorou quando fui condecorado por um almirante ao vencer um concurso de redação da Marinha. Meu pai me ensinou o valor de ficar em silêncio e ouvir. Portão aberto, entrei. Trêmulo, gelado, não era mais domingo, mas sim um dia caótico de semana que você não consegue entender. Fechando o portão, concentrado, lento, metódico, ele falou sem me encarar: “E você, meu filho, é quem?”. Como respondesse a um “tudo bem” retórico, eu disse “menos que tudo, pai”. E enfim compreendi aquele domingo.

20/09/2007

reflexões sobre um verbo reflexivo

Pauta sugerida por Thiago de Góes dentro do "Jogo entre blogs"*

Suicidar-se. É incrível como as pessoas têm pudor em falar disso. Uma vez, perguntei a minha mãe se ela já tinha pensado em se matar. A velha quase desmaiou. Ordenou que eu nunca mais falasse naquilo, conversou com meu pai, fuçou meus arquivos no computador na tentativa de achar algum rascunho de carta de despedida.

Pobrezinha, encontrou justamente os primeiros capítulos de “Lítio”, meu primeiro romance, que tem como personagem principal um suicida. Contando assim, parece que estou exagerando, mas foi exatamente assim que aconteceu: minha mãe passou a evitar em meu caminho objetos cortantes, comprimidos, fios desencapados e por aí vai. Deu até vontade de dizer: não adianta, mãe, no dia que eu quiser, eu faço.

E sim, já quis.

Tanto tabu faz crer que suicídio, masturbação feminina e coito anal estão no mesmo rol de assuntos proibidos. Mas não estão. Você pode testar com sua avó (ou algum parente mais ancestral, digamos assim). Pergunte na lata “Você se masturba?”; ou experimente um “Já deu a bunda, vó?”. Nenhuma reação será tão devastadora quanto a que seguirá a pergunta “Já pensou em dar um tiro na própria cabeça?”.

E sim, você já pensou.

É preciso que fique claro que suicídio é crime. E isto não é uma piada: o suicídio não vitima apenas quem morre; todos as pessoas próximas são fraturadas de alguma maneira. Trata-se, portanto, de um crime impossível de ser penalizado (no jargão jurídico, inimputável). E por ser assim, causa revolta em quem fica. Iria mais longe: causa inveja. É o máximo de libertação que alguém consegue atingir e isso irrita os que ainda valorizam a vida. Mas não é só quem fica que sofre. Além de inimputável, o suicídio é inafiançável. Ou seja: o cara estoura os próprios miolos, mas ficará para sempre com a memória manchada.

Já tive dois contatos extremos com o suicídio. Em nenhum dos dois, a vibração deixada foi boa. No primeiro, fui a um condomínio de luxo colher depoimentos para uma campanha publicitária. Procurava uma família feliz com filhos adolescentes. Por isso, abordava os imberbes na entrada do prédio e sondava sobre a família. Uma menina me chamou a atenção pela beleza e eu me aproximei. Expliquei que estava fazendo uma campanha para o condomínio e perguntei sobre a família dela. Falou-me então dos pais e eu perguntei se não teria irmãos. Ela disse que tinha um… mas ele havia se jogado de uma das torres do condomínio há três meses…

O segundo contato foi numa festa que organizei. Alugamos uma puta casa a preço de banana. No dia em que fui checar o imóvel, havia um quarto lacrado. Forcei a entrada e quando a porta se escancarou, o corretor veio apressado dizendo pra eu não entrar no cômodo. Obedeci, mas já era tarde. O que vi, bem, difícil de descrever. Só posso dizer que o dono da casa havia se matado naquele cômodo há cinco anos, ateando fogo no próprio corpo, mas as marcas da agonia ainda eram visíveis nas paredes. A noite da festa, nem preciso dizer, foi um pesadelo. Não consegui me divertir, porque a sombra daquele ser tão liberto ainda era nítida por toda a casa. Só aí entendi o porquê do aluguel tão baixo.

Por essas e outras, não sou contra o suicídio, contanto que aconteça na casa ao lado. Na minha família não há casos e espero que assim permaneça. E peço uma coisa: se você ficou com vontade de experimentar, faça-me o favor de não dizer que foi por minha causa.

* JOGO ENTRE BLOGS
A pauta “Suicídio” foi sugerida por Thiago de Góes dentro de um jogo entre os blogueiros. Assim, Thiago indicou três blogs e respectivas pautas. Quem topa o desafio, pode indicar mais três blogs e assim por diante. O divertido é saber o ponto de vista de determinado autor sobre aquele assunto. Por exemplo, quem não gostaria de saber o que Nelson Rodrigues pensaria do Orkut? Dadas às proporções, lá vão meus indicados.

Blog: www.apyus.com
Autor: Marlos Ápyus
Pauta: Masturbação feminina
Comentário: O blog de Ápyus é um dos meus preferidos. Apesar de nem sempre concordar com seus pontos de vista, Marlos sempre traz à tona discussões interessantes e opiniões inteligentes. Além disso, tem uma veia cômica afiadíssima. Será um deleite vê-lo dissertando sobre esse tema com sua sinceridade de sempre.

Blog: www.umanjopornografico.blogspot.com
Autor: Márcio Benjamim
Pauta: Infância
Comentário: Benjamim tem como maior influência Nelson Rodrigues. Mas mistura a crueza deste com toques aterrorizantes de realismo fantástico e literatura de horror. O resultado são textos fortes que sempre terminam deixando um “caraca” escapar pelos lábios. Por isso, o tema. O que um autor acostumado a cores tão fortes fará com uma fase da vida sempre descrita de forma romântica e saudosista?

Blog: www.agentesempretenta.blogspot.com
Autor: Raimundo Neto
Pauta: Estupro
Comentário: O blog do Raimundo sempre traz textos cheios de lirismo e poesia. São em sua maioria contos, mas com uma delicadeza que os aproxima em muito da poesia. O desafio aqui vai ser dos mais divertidos: alguém com uma visão tão sensível do cotidiano falando de estupro.

19/09/2007

a moça do aquário

O que me diz a moça do aquário? Com os olhos perdidos, aquosos quando fitam algo além das paredes de vidro, incandescidos pelo brilho lá de fora; com as unhas pintadas e a tanto custo intactas, visto que a fome, o tédio e a ansiedade chegam com hora marcada tal maré alta, infalíveis, britânicos, a primeira às doze, o segundo às quatro, a terceira às nove; com o cabelo quase crespo, quase mesmo, maltratado que está por tantas escovas, chapinhas, formóis (não deveriam alisá-lo?, talvez se pergunte após tanto nadar nas mil possibilidades cosméticas dos dias de hoje, crente de que tentar ser mais bonita jamais vai torná-la feia).

O que me diz a moça? Enquanto vaga a esmo naqueles seis metros quadrados, boiando entre as arestas do cubículo, retângulo branco, asséptico, iluminado. Enquanto caminha de uma parede a outra, esperando, esperando, esperando (não de esperar, mas de esperança). O que me diz? Talvez que tenha uma vida de verdade fora dali, pais, irmãos, amigas, namorados, sonhos; talvez que aquilo seja uma bolha de ar que estourará logo mais, uma condição passageira, só até terminar a faculdade de psicologia, de música, de engenharia quiçá; talvez que odeie o aquário, os sapatos nas gôndolas do aquário, os clientes que não entram no aquário. O salário.

O que me diz ela, tão calada, tão sozinha, tão à deriva? Encostada num balcão de mármore, fantasmagórica em sua farda branca, indo de par em par, arrumando o que já está arrumado, mexendo minuciosamente no que já é minuciosamente perfeito. Os arquitetos, lembra-se bem, arrumaram tudo. Ela pega uma escada, sobe ignorando as dificuldades do salto alto, atenta ao par de mocassins marrons deitados no topo da estante. Estão milimetricamente bem colocados, mas ela mexe um pouco. Empurra pra direita, depois pra esquerda, centraliza com base na prateleira, dá-se por satisfeita. Ficam exatamente como estavam antes. E o que ela sente, então? O que sente a moça prisioneira do aquário? A certeza da utilidade é o que sente, como dependesse dela a existência dos sapatos de bico fino, dos sapatênis, das sandálias. Uma escafandrista: mas o tesouro que busca é apenas uma justificativa para estar ali. Guarda a escada, vem bem perto da parede de vidro, comprova que não vai entrar ninguém, volta a se encostar no balcão e mirar o nada.


O nada lá fora. Que a bem da verdade é o tudo. As crianças passando com algodões doces, os casais dividindo casquinhas de creme, os adolescentes trocando mensagens de celular às gargalhadas. É a vida lá fora, moça do aquário, o tudo que aos teus olhos soam como um nada. Enquanto você aí dentro com blusas leves e largas disfarçando os pneus, com chumaços de algodão protegendo os dedos das calosidades, com um sanduíche de pão com queijo aguardando a hora do instinto, enquanto isso, a vida lá fora. O que você me diz, moça do aquário? Talvez que seja crueldade afogá-la diariamente neste cubículo; talvez que seja preciso alguns no aquário enquanto o resto em liberdade; talvez que entenda a dádiva alheia em relação ao próprio calvário.

Ela remexe os cantos das unhas com as próprias unhas, suspira exausta e profundamente. Mas suspira não de desejos. Suspira de nada. Pois são brancas as paredes, fluorescentes as luzes, alvas como nuvens as gôndolas, ela, sua farda. O que deve aparecer são os sapatos e só, disseram os arquitetos, assim damos mais vida ao produto. E talvez ela tenha concluído em pensamento: dão vida a eles enquanto tiram a minha.

Uma coadjuvante dos sapatos. É o que é. E quando por ventura alguém entra, displicente observando as estantes, o olhar guiado pela iluminação, se ela não falar nem é percebida. Precisa dizer “posso ajudar” e ser simpática; e torcer para que não respondam “estou só olhando”. Pois pode sentir, e com demasiada probabilidade, pode sentir vontade de chorar ao ouvir esta frase. Estou só olhando: pode ser isso o que ela me diz. Posto que está constantemente apenas olhando.

Recostada no balcão de mármore, líquida, misturada à luz, às paredes, às prateleiras, a moça do aquário já quase nem existe. Deveria mesmo era pegar a bolsa, lacrar o aquário, sair pela tarde em busca de vida. Mas teme ser como um golfinho adestrado que morre de fome se libertado no oceano. A gente se acostuma ao cativeiro. Talvez não me esteja dizendo nada, a moça do aquário.

18/09/2007

no front

Belô
Ontem, foi a noite de Carlos Fialho em Belo Horizonte. O escritor potiguar, co-fundador do grupo Jovens Escribas, foi lançar seu “É tudo mentira” na capital mineira. A gente, aqui em Natal, ficou obviamente na torcida. E aguardando notícias de como foi tal noite.

Sarney
E por falar em Jovens Escribas, adivinha quem nos citou em entrevista. O senador José Sarney. Em visita a Natal para lançar seu “A duquesa não vale uma missa”, Sarney citou para o portal Nominuto o Jovens Escribas como exemplo de renovação da literatura. Quer conferir na íntegra? Clique aqui.

Plogcast
Cara, pense num bagulho pra dar trabalho. Gravamos o primeiro Plogcast, editamos, mixamos, mas na hora de postar… cadê que funcionou? Ainda não consegui descobrir o que é. Mas neste fim de semana, de deus quiser, resolvo o problema.

Hipertexto
O quinto capítulo do hiperconto “Contramão” já está no ar. Quem quiser conferir todos os capítulos, basta ir na sessão “Plog-conexões” e clicar na tag “Hipertexto III”. Se deu preguiça de procurar, é só clicar aqui.

Fliporto
Tá chegando a Fliporto – Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas. De 27 a 30 de setembro, ou seja, semana que vem, eu e Carlos Fialho embarcamos para Pernambuco como convidados do evento. Quatro dias discutindo literatura com os maiores nomes da América Latina envoltos por um cenário paradisíaco? Ai, que estresse. Aguardem notícias diretamente daquelas plagas.

Feira do Livro de Mossoró
E mês que vem tem a Feira do Livro de Mossoró. Ainda não tenho a programação completa, mas o que posso adiantar é que ministrarei uma oficina de produção de textos para blog e participarei de um debate sobre nova literatura. É preciso dar parabéns à cidade de Mossoró, que se destacou no estado como pólo cultural. E que venha mais.

A Cega Natureza do Amor
Esse é o nome do meu próximo livro. E ao que tudo indica, sai ainda este ano. Aguarde notícias.

Valeu
E pra finalizar, agrdeço em público a indicação que Marlos Ápyus fez em seu blog para o PLOG. Elegendo este aqui como um dos melhores blogs do Estado, Marlos foi resonsável por um pico de acesso no meu sistema. Valeu, Ápyus.

17/09/2007

hipertexto

CONTRAMÃO
episódio 005
por Thiago de Góes

Você começou a sentir febre na madrugada, mas não deu importância. Para uma vida como a sua, febre não é nada. Mas você perdeu o sono porque tremia. E você não sabia se aquilo que sentia era calor ou frio. Apenas tremia. Você foi à cozinha pegar água no filtro. Havia pouca água no filtro, mas você não tem dinheiro para comprar água. Você sentiu vontade de roubar o lençol do filho mais velho, mas não teve coragem. Você já não podia ignorar a força daquela febre que aumentava rapidamente. Se tivesse um termômetro, veria que sua temperatura já passava dos trinta e nove. Mas você não tem termômetro. Você não tem um monte de coisas e termômetro é apenas uma das coisas dentre o monte de coisas que você não tem. Você não agüentou e roubou o lençol do filho mais velho. Sem acordar, ele roubou o lençol do irmão. O caçula acordou chorando. Você não sabe se terá paciência com o choro do caçula. Você não sabe se terá paciência com as reclamações do seu marido, que dormiu na sala, vendo televisão, e agora acordou com o choro do seu filho caçula. Você, afinal, já não tem forças nem para levantar-se. Sente dores nos ossos das pernas. Sente dores nos ossos dos braços. E você já era fraca. Tão fraca que se deixou abater por um mosquito que veio da poça d'água que ainda restava no tanque de lavar roupa, no quintal de sua casa. Um mosquito. E você, tão grande, empapada de suor, sem ao menos ver as manchas vermelhas na sua pele. Sem ao menos poder convencer o marido a não ir para o trabalho. Ele não pode ficar em casa. Ele não pode cuidar de você. Ninguém pode cuidar de você. Ninguém pode levá-la ao posto de saúde mais próximo. Você está sozinha, com seus filhos raquíticos. Se você tivesse plano de saúde, poderia chamar uma ambulância, quem sabe. Poderia tomar soro na veia e medir a quantidade de suas frágeis plaquetas. Mas você é casada com um pobre coitado. Que não pode fazer nada por você. Ninguém pode fazer nada por você. O seu filho mais velho pede para você tomar um banho frio. Como se todo banho não fosse frio para você. Não! Mas você precisa de banho frio. Você enjoa só de pensar na água gelada caindo no seu corpo. Ele tenta carregá-la até o chuveiro. Mas ele não pode com você. Ninguém pode com você. Mas veja, ele teve uma idéia. Ele pôs um balde embaixo do chuveiro e abriu a torneira. Ele pegou uma bucha na pia do banheiro. Ele mergulhou a bucha no balde e a passou no seu corpo. Você tremeu ainda mais, tomando aquele banho de gato. Ele é um santo, você pensou. Mas você não é santa. Você sabe disso. Lembra quando você foi fazer a faxina na casa daquele empresário? Você sabia que ele estava sozinho em casa. E vestiu aquelas roupas curtas. E exibiu-se descaradamente. Você sentiu o peso do olhar certeiro em suas pernas e nádegas. E no final do serviço perguntou: O que mais o senhor deseja? Agora, diga-me: Por que você deixou o verbo desejar no final da frase? Por que deu uma entonação especial para o verbo desejar? Você sabia que ele desejava você. Admita: você não lembrou do seu marido quando fez amor com aquele empresário. Mas agora você não lembra de nada. Apenas vomita sangue no lençol que roubou do seu filho mais velho. Ele sai de casa. Vai pedir remédio pra febre, emprestado aos vizinhos. Você fica deitada no chão, ouvindo o choro de fome do caçula. Você já não sabe de nada. Parece que está morrendo. Você pensa em ligar para o empresário. Ele é rico e talvez possa ajudar. Mas você não sabe onde ele está agora. Você acredita que o carro dele está frente a frente com o microônibus do seu marido, atrapalhando o trânsito? Não, seu marido ainda não sabe de nada. Eles brigam, mas não é por você. E você não tem forças nem para fazer uma ligação. Por que você não se contenta com a meia banda de comprimido que o seu filho mais velho conseguiu no vizinho de cima, para você tomar com água que ainda resta no filtro da cozinha?

13/09/2007

numa manhã na qual existo

A minha casa tem cores que eu não adivinhava. E nada transborda em silêncio. Não é como eu imaginava, a minha casa.

As mulheres ficam na cozinha, muito embora nem todas cozinhem. Ficam por ali, entre programas matinais, discutindo o ranço vivo de ser mulher. Os homens, na sala. Falam de política, futebol, mas de mulheres não. Elas estão todas na cozinha, e falam sobre o que bem entendem, mas não desligam seus radares dos assuntos dos homens. Auscultam. Eles, resignados, falam de Brasília e da Granja Comary como falassem de um pornô. Pois é obsceno o desejo reprimido.

Observo toda essa vida e me espanto. Não conhecia minha casa assim, tão indiscutivelmente classe média, tão vividamente anos 50. Por diversos motivos que não valem a pena mensurar, por tantas escondidas coisas e coincidências e circunstâncias, hoje não pude ir ao trabalho. E é tão raro ver o decorrer da manhã, suas movimentações, as idas e vindas pelos cômodos da casa até que tudo esteja pronto. Mas pra quê? Estou abismado. A casa anda entre os quartos, nos banheiros, da varanda ao quintal, a casa não pára de mover-se e me pergunto: para onde?

Meu quarto, por exemplo, não é branco. Branca é a luz fluorescente que banha o cômodo todas as noites quando retorno. Ao largo do dia, porém, meu quarto existe numa tonalidade amarelada. O sol vaza pelas persianas, os raios morrem nas paredes alvas, tudo é tão belamente amarelo. Amarelo-ovo, amarelo-vivo, amarelo-sol. Nem caibo no meu quarto de tão belo que ele se apresenta.

O espetáculo dos sentidos continua nos sons. São crianças, Deus, são crianças tantas que ignoro que em minha casa há apenas uma. Mas ouço sons distantes, gritos, risadas, choros, áudios que vazam das casas ao redor. Um universo puro e radiante que existe por completo sem mim.

Que arrogância chamar tudo isso aqui de meu. Minha casa, minha família, meu bairro. Mas se tudo acontece sem necessitar minha interferência! O menu do almoço não me é consultado, a tevê muda de canal sem que eu aquiesça, a vida segue seu caminhar até o meio dia – que é geralmente quando, de volta do trabalho para o almoço, efetivamente existo por duas horas de descanso remunerado.

Nada é meu, portanto. A vassoura limpando a poeira acumulada da madrugada, o gosto de água sanitária recendendo do banheiro lavado, a sinfonia de chocalhos e risadas fugidias do berço no quarto ao lado, as vozes das mulheres, todas em carne viva, gerando o silêncio dos homens. Nada me pertence. Eu é que desejo esse tanto voltar a pertencer.


11/09/2007

tem um onze de setembro bem do seu lado

CONVIDO VOCÊ A SER SENSÍVEL
AOS PROBLEMAS DO MUNDO:
CUSPA NO TÚMULO DAS VÍTIMAS
DO ONZE DE SETEMBRO


Não vou fazer um minuto de silêncio por nenhuma das vítimas do Onze de Setembro. Aconselho você a não fazer também. Seria o mesmo que concordar com toda a barbárie desencadeada pelos Estados Unidos (e apoiada pela população, vide reeleição de Bush) após o ataque às Torres Gêmeas. Pra mim, depois de ver tanta coisa, foi bem feito. Digo mais: foi pouco.

Antes de me taxar de qualquer coisa, lembre-se que os aviões lançados no World Trade Center vitimaram pouco mais de 2.700 pessoas. Em contrapartida, a Guerra do Iraque já matou mais de 3.000 soldados americanos. Se ficasse só nisso, tudo bem, pelo menos eles próprios que estão morrendo. Mas a guerra sempre vem acompanhada da injustiça com uma pitada de imbecilidade, e com isso quase 80.000 civis iraquianos já se foram também (segundo dados do Iraq Body Count, site que realiza a contagem diária dos mortos em território iraquiano desde 2003). Com esses números, fica difícil sentir pena do abastado, obeso e alienado povo americano.

Passaram-se seis anos, mas não podemos deixar as homenagens aos mortos turvar a visão dos vivos. Não esqueçamos, portanto, que a invasão do Iraque foi motivada por uma certa Guerra ao Terror na tentativa de encontrar armas químicas de destruição em massa. E que nada foi encontrado. Não esqueçamos que na caça a Osama Bin Laden, o Afeganistão foi destroçado e agora está entregue às baratas. Não esqueçamos que essa guerrinha idiota já custou mais de US$ 400 bilhões, dinheiro que custearia 14 anos de programas de combate à pobreza ou 32 anos de luta contra a Aids. Ah, sim, e não esqueçamos também que o maior fornecedor de armas do planeta é justamente o maior guerreador: mais de 33% das armas fabricadas no mundo vêm dos Estados Unidos.

Uma pesquisa rápida no Google me mostrou também que a última vez que o país em questão foi atacado em seu próprio território, antes do Onze de Setembro, foi no longínquo ano de 1812. A Inglaterra, por divergências envolvendo o comércio marítimo, invadiu diversas cidades americanas, incluindo a capital Washington. Por sua vez, os Estados Unidos fizeram intervenções militares em 42 países desde a Segunda Guerra Mundial. Incluindo aí horrores que jamais devem ser esquecidos, como a Guerra do Vietnã e a Guerra do Golfo. Eu, sentir pena desse povo? Nunca!

Não esqueçamos também, e sobretudo, que o Onze de Setembro foi uma reação e não uma provocação. Cerca de 500 mil crianças morrem todos os anos no Oriente Médio, vítimas dos embargos econômicos capitaneados pelo país de Bush. O mundo árabe foi realmente massacrado e subjugado pelo imperialismo ianque. O ideal do lucro acima de tudo conduziu o Ocidente a investir em mercados e não em nações. Por essa lógica, quem não exibe potencial mercadológico é sumariamente limado do desenvolvimento. Deu no que deu.

Convido você a cuspir no túmulo das vítimas do Onze de Setembro. A sentir asco por todo o circo que se monta em torno do orgulho americano ferido. A não fazer coro e amplificar a comoção com esse desastre que não é, nem de longe, grande como se alardeia. O Onze de Setembro vem sendo usado descaradamente para justificar ações muito mais sanguinolentas e mortíferas que os aviões se chocando no símbolo do capitalismo. Comover-se com isso é ser, no mínimo, cúmplice do holocausto empreendido pela Terra da Liberdade. Cague pra quem morreu nas Torres Gêmeas. Diga um sonoro e reverberante “eu acho é pouco”.

Se é humanamente impossível para você, lembre-se que o mundo tem problemas muito mais graves que não contam com sua compaixão. Você não tira um dia inteiro pra pensar nas vítimas da Aids. Você nem sabe que ainda há milhões de pessoas que morrem de malária no mundo. Você ignora solenemente as vítimas da fome, do narcotráfico, da violência doméstica. Na favela aí ao lado, morrem milhares por ano e você não faz nada. São números alarmantes, que ultrapassam em muito os 2.700 mortos do World Trade Center. Portanto, não há mal algum em ser insensível com os Estados Unidos. Você já está sendo com o resto do mundo.

10/09/2007

quase trinta

A vida fica chata aos quase 30. Chatíssima. Só não digo que fica insuportável porque não quero parecer fatalista. Se ainda tivesse 20 e poucos, tudo bem, não teria o menor pudor em fazer drama. Mas tenho quase 30. Nessa idade, já perdemos o direito de não ser perfeitos.

Aliás, “nessa idade” é uma expressão que tipicamente quase-trintona. Os mais velhos trabalham no pretérito (“no meu tempo era…”), os mais novos no futuro (“quando eu for…”). Nós, dessa tribo perdida no vácuo das desatenções, trabalhamos no presente. E como trabalhamos! Dez horas por dia, seis dias por semana e considere-se um bon vivant. Quem tem quase 30 já se acostumou à semana laboral de quinze dias. E no final do mês, vem aquilo que você já conhece muito bem: guardar dinheiro pra comprar um apartamento ou pagar o cartão de crédito? Nessa hora, você se pergunta como conseguia ser tão feliz aos 15, com uma mesada ridícula e a certeza de que ela duraria o mês todo. Será que cerveja e motel eram mais baratos naquele tempo?

Falei sobre um tal vácuo das desatenções. Pois é, vivemos nele, todos nós imersos no vácuo das desatenções. Responda, amigo que está quase lá, qual foi a última vez que você viu um programa social do governo voltado a sua faixa etária? Qual a última vez que você ouviu uma música pop falando sobre sua realidade? Essa é boa, essa é boa: qual a última vez que sua mãe sugeriu a você procurar um psicólogo? Na certa, você ainda tinha 17 anos, fumava escondido, ouvia Nirvana o dia todo e achava que jamais usaria uma calça social. Agora, nessa idade, ninguém mais se preocupa com você. E não pense que é porque finalmente confiam na sua figura ilibada. Tenho amigos com quase 30 que ainda fumam escondidos, ouvem Nirvana e acham que jamais usarão uma calça social. Mas agora são ignorados. Casos perdidos. As pessoas simplesmente desistiram deles. Estão mais preocupadas com os adolescentes problemáticos e os idosos da melhor idade.

O mais difícil de estar prestes a cruzar o limiar da terceira década é saber que não podemos mais usar a idade como desculpa. Esse infalível argumento foi utilizado por mim exaustivamente. Você vai acampar no Natal em vez de ficar com sua família? Qualé, pai, eu só tenho 25, tenho que aproveitar a vida! Você vai vender o computador pra comprar uma guitarra? Qualé, mãe, só tenho 26, tenho que aproveitar a vida! Você vai pedir demissão pra excursionar pela América Latina com três francesas lésbicas? Qualé… Hum, bem, não cola mais. Aliás, fica ridículo alguém de quase 30 dizendo “Qualé, pai”.

Poderia discorrer sobre uma série de outros infortúnios. Mas vou falar apenas de mais um: o sexo. Não consigo controlar a vontade de rir – e não é de felicidade. Com quase 30, a gente broxa pela primeira vez. Não há mais a pressa dos 17, nem a gana dos 20 e poucos. Não, amigo, temos quase 30. Agora, não há mais como ignorar o clitóris, ou pular as preliminares, ou gozar sozinho, ou virar, fechar os olhos e dormir. Com tanta pressão, claro, não tem tesão que resista. Bem-vindo ao mundo real.

A gente se habituou a estar em transformação, a ser outro a cada instante. E de repente, a estabilidade. Por mais que Martha Medeiros e Carlos Heitor Cony preguem que somos diferentes a cada segundo que passa, pouquíssimo em você mudará daqui pra frente. Talvez uma opinião aqui, outra ali; porém nada será mais tão radical. Este que é você ultrapassará seu trigésimo ano e será o mesmo daqui por diante. Para sempre. Como a maldição do galo que canta três vezes, lembra? Se você estiver envesgando os olhos bem na hora do seu aniversário, puff!, vai ficar vesgo pro resto da vida.

O conselho é: sinta bastante saudade de quem você foi. Muita mesmo. Chore de vez em quando lembrando das bobeiras de moleque, das inconseqüências da juventude, das burradas de quando aprendia a ser adulto. Não esquecer disso tudo vai fazer de você alguém melhor. Mais vivo, até. E só pra deixar algo bem claro: não eram três francesas lésbicas. Eram quatro.

06/09/2007

hipertexto

CONTRAMÃO
episódio 004
por Márcio Benjamim

Apesar de saber que ele pediria o pingado de sempre, Dona Zefinha hesitou. Prendeu a respiração por alguns segundos até que se confirmou o pedido.

Ansiosa, retirou-se pela primeira vez para fazer o café, normalmente preparado em frente ao freguês, batizando o líquido meio escuro com o preparado.

“Ele me garantiu. Me garantiu que ia fazer efeito.”

Foi o que pensou, ao misturar o leite. Uma dose generosa, pra disfarçar a cor meio roxa da beberagem.

Ele ia perceber.

Sentia os golpes do coração batendo apressado dentro do peito, como os socos de um punho fechado.

Ele notaria. Notaria e derramaria o que sobrou da xícara por todo o balcão. Por todo o seu rosto.

Ele.

Ele bebeu o café. Ele bebeu tudo, de olhos e ouvidos perdidos no trânsito.

Ainda nervosa, a velha apenas apontou, patética, a placa meio encardida que dizia “silva” de um modo meio borrado em seu peito.

Até que uma buzina acordou-o de seu transe cotidiano.

E a velha o viu afastar-se correndo, ainda com gotas de leite no canto do bigode.

Dona Zefinha o viu afastar-se e correr em direção à confusão, onde dois carros se estranhavam.

Como num filme mudo, viu os dois motoristas brigarem, e o Silva, de bigode sujo de leite, tentando mediar o conflito.

Por quanto tempo?

Ela não precisava de cartões de diálogos pra perceber quem era o mocinho; quem era o vilão.

Vitoriosa, recolheu o copo usado de cima da bancada e o atirou no lixo.

Lá fora, as coisas pareciam se acalmar.

“Ele me garantiu que seria rápido. Me garantiu!”

Foi o que a velha pensou.

E que se confirmou quando Silva, que de longe tinha um ar meio de imperador romano, não parecia mais conseguir sustentar satisfatoriamente as suas pernas.

Continua…

05/09/2007

putz! do 13 ao 17

Depois de um certo hiato, eles voltaram. Com vocês: Putz! por Patrício Jr. e Jão Saraiva. Deleitem-se.






Ps.: Três coisas. 1) O PLOGcast acabou não rolando ainda por uma questão de inviabilidade técnica. Mas depois do feriado, ele sai. Quem tiver sugestões de bandas, pode enviar. 2) Como sexta é feriado, o novo episódio do Hipertexto III vai ser publicado amanhã. 3) Tem texto inédito meu no site do Jovens Escribas. "Quase trinta" é o nome. Entrem e comentem.

04/09/2007

o de sempre

Olharam-se naquele almoço de negócios. Mas ele com a esposa aguardando em casa. Mas ela com o marido chegando de viagem. Continuaram se olhando sem saber exatamente o porquê, mas ao mesmo tempo sabendo tudo – absoluta certeza daquilo que ainda não adivinhavam. Sabiam mesmo, com a exatidão do modo empírico, daquelas coisas que só quem vive pode reconhecer. O ronco sem glamour, a porta aberta do banheiro, a toalha molhada sobre a cama, o feijão com muito sal, o mesmo. O de sempre, o de sempre, o de sempre. De todos os dias. O mesmo. Continuaram se olhando. Veio a entrada, as discussões sobre os índices financeiros, mais gerentes sentando. E o olhar. Que dizia coisas como preciso do teu oxigênio, que berrava coisas como me tire dessa vida. Só quando veio o prato principal, trocaram as primeiras palavras. Pode me passar o sal? Sim, pois não. E mais nada. Apenas os olhares se chocando de vez em quando, o chefe de um rindo da piada sem graça do chefe do outro. O de sempre, o de sempre, o de sempre. E os olhos-oásis salvando da sequidão com a rutilância. Sentiram vontade de iniciar uma conversa paralela, quem sabe comentar a elegância do local, ver se dali a conversa evoluiria. Mas o celular dela tocou exatamente na hora do dele. Era o marido. Era a esposa. Para ele: estou um pouco ocupada agora, posso te ligar mais tarde, amor? Para ela: certo, certo, depois nos falamos, querida. Desligaram. E se olharam. E nesse momento foi a confirmação. Notavam-se, estudavam-se, precisavam-se. Ela pediu licença, pegou a bolsa, caminhou lentamente ao banheiro. Sentia-se viva. E era tão forte a sensação que cambaleou pelas paredes do toalete, apoiou-se na pia, as mãos suadas, as pernas trêmulas, o corpo em carne viva. Desejando que ele abrisse a porta do banheiro e tomasse-lhe o maior de todos os beijos. Um beijo com sabor de vida. Retocou o batom, ajeitou os cabelos, uma mulher pronta para a guerra. E quando retornou à mesa com a certeza da vida invadindo as artérias, desobstruindo caminhos, pulsando em desejo, ele não estava mais. Sentou-se calada. E triste. E quase chorou, é verdade, quase chorou. Porque a vida passa por nós tão rápido que… Veio a conta, o café, as últimas considerações. E ninguém falava mais nada sobre ele, onde estaria, porque se foi. Levantaram, recolheram os pertences, frios dois-beijinhos, gelados apertos de mão. O de sempre, o de sempre, o de sempre. Quando já se retiravam, o garçom trouxe um bilhete. Você fica linda apoiada na pia. Assinando, apenas um número de telefone. E a certeza de que a vida iria começar.