30/10/2007

no front

Jornalismo: pior carreira
Essa é da Forbes. Em enquete com especialistas em profissões, a revista elegeu o jornalismo como uma das piores carreiras do século XXI. Segundo o veículo, a internet vai engolir cada vez mais os postos de trabalho dos sofridos jornalistas, já que a tendência mundial é o Jornalismo 3.0. Ou seja: conteúdo gerado pelos próprios leitores, a exemplo do que acontece, ainda na idade da pedra, com o Youtube e os blogs (por incrível que pareça, vem mais coisa por aí). Para a próxima década, a Forbes projeta o crescimento de apenas 5% nos cargos desse mercado. Ou seja, a já sofrida área vai sofrer ainda mais. Se você está pensando em ingressar nessa carreira, pense duas vezes. Pro seu bem. E pro meu.

Lembranças
Esse papo de pior carreira do mundo me lembrou do trote que minha turma levou dos veteranos, quando entrei na UFRN em 1997 (que cheiro estranho de mofo!). A turma do amigo Márcio Rodrigo, agora em Londres, nos saudou com um texto engraçadíssimo, que desfazia o glamour da profissão e desdenhava de nossos sonhos de calouro. Uma das frases que ficou marcada foi: o glamour vai acabar no primeiro cadáver em decomposição que você for cobrir. Trote do bem, foi um tremendo “bem-vindo a realidade” a jovens como eu, à época totalmente deslumbrado com o fato de ser jornalista.

Polêmicas inócuas
Já que o assunto é jornalismo, vamos fazer uma autocrítica. A moda agora é polêmica entre um representante intelectual e outro nem tanto. Depois de Luciano Huck vs Ferréz na Folha, é a vez de Zezé Di Camargo vs Diogo Salles no Jornal da Tarde. Explico: Diogo Salles, cartunista, publicou artigo no qual, em resumo, dizia-se um roqueiro convicto que achava o sertanejo uma merda (leia aqui). Zezé Di Camargo se doeu e pediu direito de resposta: publicou artigo no mesmo veículo, no qual exaltava a importância cultural do fenômeno sertanejo (não leia aqui). Eu, como um clichê autêntico de intelectual descolado, detesto sertanejo. E sou totalmente parcial nessa pendenga: cala a boca, Zezé, não precisamos ouvir mais merdas de sua autoria. O caso, entretanto, é a sede dos veículos por polêmicas. Parece que a era do barraco está chegando ao jornalismo impresso. E isso é vergonhoso.

Pra desopilar
A operadora de celular americana Sprint desenvolveu uma campanha viral muito interessante. Com o conceito “Fast-forward through the boring parts of life” (algo do tipo “Passe reto das chatices da vida”), colocou no ar o site Waitless. Lá, vídeos bem-humorados explicam como não perder tempo com as coisas chatas do dia-a-dia. Por exemplo, como fazer um sorvete em cinco minutos, ou como descascar batatas em 10 segundos. O vídeo mais impressionante ensina como fazer um bebê parar de chorar em 3 segundos. Dentre outras coisas, o site também disponibiliza um contador de tempo perdido: você coloca os dados de determinada ação (por exemplo, o tempo que você gasta pra ir ao trabalho) e ele diz quanto tempo de sua vida você está perdendo com aquilo. Genial!

Sobre a Feira do Livro de Mossoró
Recebi e-mails e scraps diversos de pessoas que conheci em Mossoró nesse último fim de semana. Alguns me cobraram um texto mais longo sobre o evento, com minhas impressões particulares da feira. Ando meio sem tempo de parar e escrever, por isso a ausência de uma crônica mais elaborada. Mas se isto pode amenizar alguma necessidade: o evento foi fantástico e espero muito estar lá ano que vem.

Pra não dizer que não falei do Galera
Seria uma injustiça, entretanto, não comentar o bate-papo com Daniel Galera. Mais ainda, não comentar a presença de Daniel Galera (parece nome de minissérie, né?). Pois bem, a gente tem quase a mesma idade (eu, 15; ele, 16) e talvez por isso a interação tenha sido excelente. Com a mediação de Carlos Fialho, falamos sobre romance de geração, processo criativo e influências da cultura pop. Simpático e generoso, Galera falou sem afetações da indicação de Bravo! ao seu romance “Mãos de Cavalo”, apontado como o possível grande representante da sua geração. Segundo ele, é um grande elogio, mas nunca se esquece de que quem escolhe mesmo esse tipo de coisa são os leitores. Pronto pro Galera. Lição aprendida.

Eu, Fialho e Galera: o bate-papo começou
com um assunto interessante: macarrão

Qual é o seu nome?
Ainda na Feira do Livro de Mossoró, num papo muito legal com Rilder Medeiros, coordenador-geral do evento, ele me falou do texto Qual é o seu nome?, publicado há alguns meses em sua coluna na Diginet. O post tem quase 2.000 comentários e praticamente todos os dias chegam novos. Isso é realmente um fenômeno, considerando-se que a data de publicação foi janeiro de 2006. Como sei que você não vai resistir de curiosidade, depois de ler volte aqui pra dizer se há algum outro motivo, além da qualidade literária, pra esse texto mexer tanto com as pessoas. Eu tenho minha teoria. Mas quero ouvir a sua.

Pra terminar
Segue uma foto de Preta Qui (brinde dado aos autores da FLM e que batizei assim em homenagem a Negra Li). Reparem no charme do sorriso bicolor e no livro servindo de chapéu.


Frase do dia
“Te acordei de novo, boy?”
Carlos Fialho, escritor, me ligando hoje às 8h30 da madrugada

28/10/2007

na flm

Lampeão e Mossoró
Uma coisa que mexe com os brios dos mossoroenses é a história da expulsão de Lampeão e seu bando, que marcou a cidade com o adjetivo da resistência. Era de esperar, portanto, que o encontro entre Moacir Assunção e Tarcísio Gurgel atraísse intelectuais apaixonados, como de fato ocorreu. Explico: Moacir Assunção é o autor de “O homem que matou o facínora”, um dos mais completos estudos sobre o cangaço; já Tarcísio Gurgel é o autor do espetáculo “Chuva de Bala no País de Mossoró”, musical anual que a cidade faz para comemorar a vitória sobre Lampeão. A conversa, de altíssimo nível, contou com a participação ativa da platéia, que concordou e discordou inúmeras vezes com os escritores. Sem dúvidas, um dos debates de mais alto nível da Feira do Livro de Mossoró. Ao final, Antônio Francisco, poeta mossoroense, brindou os presentes recitando um de seus poemas, que conta como Lampeão planejou se vingar de Mossoró voltando mais uma vez à cidade direto do Inferno. Genial!

O rei
Outro assunto onipresente nos encontros literários que fui este ano, esteve também na Feira do Livro de Mossoró. Paulo César Araújo, autor da biografia não autorizada - e recolhida por sentença judicial - de Roberto Carlos. O autor veio destilar mais uma vez seu rosário de lamentações contra o Rei, dessa vez num bate-papo com Thiago de Góes (autor de Contos Bregas). E que rosário, hein! Paulo César tem todos os motivos para excursionar pelo Brasil contando a sua versão dosa fatos. Afinal, num processo marcado por incompetência, ele foi o maior prejudicado com o recolhimento do livro. Ironias do destino, o autor estava hospedado em Natal no mesmo hotel onde o Rei, este fim de semana, fez uma apresentação.

Fui
Bom, hoje vai ser curtinho porque o cansaço está grande. Já esdtou de volta à Natal e venho com uma alegria enorme por saber que Mossoró conseguiu fazer um evento de alto nível, melhor ainda que ano passado. Fica meu agradecimento a Rilder Medeiros, que coordenou o projeto com criatividade e humildade. E a todos que suportaram meu mau humor matinal, mais presente do que nunca em Mossoró.

Frase do dia
“A classe média é o ranço desse país de unanimidades”
Patrício Jr, às três da manhã (lógico)

26/10/2007

na flm

Começos
Para mim, a Feira do Livro de Mossoró começou hoje. E já com uma sentida ausência: Marcelino Freire não pôde comparecer ao evento para a mesa “A nova literatura dos novos”, que dividiria com Carlos Fialho e Mário Gerson. Dificuldades em conciliar a agenda foi o motivo. Pelo visto, a mesa estava amaldiçoada mesmo. Marcelino tinha entrado na programação para cobrir a ausência de Antônio Prata. Mesmo assim, os que assistiram a mesa só com potiguares não se decepcionaram.

Oficina
Excelente a experiência de dar uma oficina sobre blogs. A palestra-aula “Do blog ao PLOG” foi hoje, às duas da tarde, no auditório da FLM. Tinha pouca gente, de certo, mas todos interessadíssimos no que eu tinha a dizer sobre o assunto. E me empolguei tanto que extrapolei o tempo. Normal. Eu falo muito mesmo. Agora, é estudar a apresentação dessa palestra em Natal.

Galera
Ontem, por acaso, me encontrei com Daniel Galera em Natal. Acabamos tomando todas e vindo pra Mossoró numa ressaca de doer. No caminho, Galera não conseguia esquecer a frase mais dita da noite passada, entremeada por várias rodadas de cachaça: calma, cara, a gente vai já embora.

Galera II
Por falar nele, nossa mesa também foi hoje. Dia cheio. Mediada por Carlos Fialho, “Romance de geração” foi um bate-papo do mais alto nível sobre este tipo de livro. Sempre vale relembrar: “Mãos de cavalo” de Daniel Galera foi apontado pela bravo como o possível romance da geração 00. Na conversa de hoje, ele deixou claro que se envaidece pela indicação, mas que um romance de geração só pode ser escolhido tão-somente pela geração.

Halloween
A noite vai terminar num halloween que acontece aqui no hotel logo mais. Coisa mais doida! Lógico que vou. Mas que é surreal, isso é.

Frase do dia
“Sai do chão, Patrício!”
Xico Sá, hoje pela manhã, ao me encontrar numa ressaca indisfarçável

25/10/2007

sangue, bundas, crack e outras coisas

Nos EUA: sangue
Na reunião do Comitê de Exterior dos EUA, a secretária de Estado Condoleeza Rice teve uma desagradável surpresa. A manifestante Desiree Ali-Fairooz furou a segurança e, com mãos ensangüentadas, gritou nos ouvidos da negona toda-poderosa: ‘Vocês têm o sangue de milhões de iraquianos nas mãos!!!’. Desiree Ali-Fairooz, lógico, foi presa.

No Brasil: bundas
E no Brasil, os protestos são mais bem-humorados. Aposentados da Petrobrás, insatisfeitos com o tratamento que a empresa dispensa a eles, organizaram um bundalelê coletivo em frente à sede da multinacional. Qula seria a intenção? Bem, tenho um palpite: mostrar à Petrobrás onde exatamente ela vinha botando neles.

Vovó Crack
E a velhota presa em Juiz de Fora (MG) por tráfico de drogas? Foi denunciada por um cliente que acabara de compras umas pedrinhas de crack. A vovó junkie foi presa em flagrante enquanto organizava umas trouxinhas de maconha na boca.

FLM
Pena não estar ainda em Mossoró para ver o bate-papo de Marcelino Freire com Carlos Fialho e Mário Gerson dentro do “Encontro de Novos Escritores do Brasil”. Começa agora às 18h e o tema será “A Nova Literatura dos Novos”. Pena, pena.

Pendenga do Forte
Depois de receber várias reclamações sobre a liberação da Fortaleza dos Reis Magos para a festa “Luau no Forte”, a Fundação José Augusto quebrou contrato com os organizadores do evento. Ou seja, ferrou todo mundo que trabalhava na festa que ocorreria neste sábado. Segundo a FJA, os dados sobre a balada não foram passados por completo para conseguir a liberação e eles só tomaram conhecimento das proporções do evento quando a mídia entrou no ar. Difícil de engolir essa. De outro lado, os organizadores querem saber quem arcará com prejuízos na margem de R$ 40 mil. Não era a favor da festa, mas sou mais contra ainda esse tipo de sacanagem que comprova a instabilidade e desorganização do poder público. Resumindo: não era pra ter liberado, mas já que liberou, segura a onda.

Frase do dia
“Engov we trust”
Título de anúncio fantasma para o Engov, publicado no site de peças impublicáveis Desencanes



24/10/2007

eua, cuba & outras coisas

Pesquisa mundial detona EUA

40% da população mundial considera que o poder dos EUA deveria diminuir para o mundo ser um lugar melhor. É o que revela uma pesquisa mundial da Gallup International em parceria com o Conselho Europeu de Relações Internacionais, publicada hoje no jornal espanhol El País. Foram entrevistadas 57.000 pessoas em 42 países, mostrando que o antiamericanismo é uma tendência global consolidada. China, Rússia e Irã também ficam com o papel de vilões: foram os países com imagem mais negativa na avaliação da pesquisa. Já os países que não têm sua imagem ligada ao potencial bélico são benquistos no mundo todo, como África do Sul e Índia. Nesse grupo de queridinhos globais está o nosso amado Brasil. Bem avaliado, o país se destaca no que a pesquisa chama de “desejo por um mundo com influências mais diversas”.

E por falar em Bush
Nesta quarta, ele anunciou a criação de um fundo internacional com o intuito de levar a democracia a Cuba. As intenções são as melhores possíveis: países desenvolvidos doariam uma grana preta para ajudar a ilha a se redemocratizar. Ou seja, para impedir que Fidel, velhusco e moribundo, consiga passar definitivamente o poder ao seu irmão, Raúl Castro. O fundo garantiria acesso a internet, mercado aberto, livre trânsito e outras benesses. Transmitido para Cuba por rádio e TV, só faltava isso para insuflar o povo cubano a não aceitar um novo ditador.

Bush em anúncio de Fundo Internacional para Cuba:
ao seu redor, esposas de refugiados cubanos

Nas palavras do presidente estadunidense, Cuba é um campo de concentração tropical e o embargo continua até que a ilha se democratize. Com essa cartada de mestre, Bush pretende ter nas mãos um rival antigo, além de melhorar sua imagem internacional e abrir novos mercados para a claudicante economia americana. Não digo que seria ruim pra Cuba. Mas que vai ser melhor ainda pros EUA, ah isso vai.

Algoz vestido em pele de herói
É interessante notar como os Estados Unidos estão preocupados com a opinião pública mundial. Longe de ser auto-suficiente como imaginava, o país de Bush está cada vez mais dependente de outros mercados. Essa é uma das razões para tentar bancar o bonzinho. Depois de erros crassos como a Guerra do Iraque, que contabilizam prejuízos enormes às contas públicas, é hora de arrumar a casa e voltar a ser sinônimo de liberdade. Mas gostaria de lembrar a Bush que a situação em Cuba tem grande ajuda dos EUA. O embargo econômico, iniciado na década de 60 graças à aproximação da ilha com a URSS em plena Guerra Fria, sucateou o país e possibilitou a ascensão de um ditador como Fidel. Ora, gozasse o país de uma boa situação econômica, a subserviência seria bem menor. Agora, Bush vem bancar o salvador da pátria ignorando que sua nação é uma das grandes responsáveis pela falta de democracia na ilha.

Aliás
Vale a pena ver de novo. Bill Clinton enrijeceu um pouco o embargo a Cuba no início dos anos 2000, preparando terreno para que George W. Bush, em 2004, fizesse um recrudescimento feroz das sanções. Bush diminuiu o limite de remessas familiares e restringiu as permissões para o turismo (até então, uma das poucas áreas econômicas da ilha que prosperavam).

Mais sanções do embargo
- Os Estados Unidos proíbem a importação de quaisquer produtos de qualquer país que contenha alguma matéria-prima cubana.
- É proibido também que empresas de qualquer país vendam a Cuba bens ou serviços nos quais tecnologia americana seja utilizada.
- Nenhum banco pode abrir contas em dólares americanos em Cuba. Também não podem realizar nenhuma transação financeira nessa moeda com entidades ou pessoas cubanas, sob pena de confisco.
- Nenhuma empresa de qualquer país pode realizar negócios ou investimentos em Cuba, sob pena de sofrerem também sanções e embargos.

Democratiza-te ou te devoro
A democracia não seria ruim para Cuba. A grande culpada pelas tentativas de fuga da ilha é justamente a falta de liberdade. Toda ditadura usa do controle das massas para manter-se viva e em Cuba não é diferente. Uma passeada por blogs cubanos comprova o que digo: muitos reclamam da falsificação da história cubana, com a morte de uma visão crítica ao se divinizar Fidel, e também sobre o acesso restrito ao conhecimento. Num país famoso por seu índice zero de analfabetismo, blogueiros condenam as restrições impostas a livros, por exemplo, inclusive de autores cubanos (que ousam em seus pontos de vista e são deportados sob a pecha de traidores). Bush sabe que a democracia anda de mãos dadas com o capitalismo. Mas os cubanos não sabem que democracia não é sinônimo de liberdade.

De volta ao Brasil
Estou de malas prontas para a Feira do Livro de Mossoró. De lá, atualizarei o PLOG com notícias curtas sobre este grande evento. Mas a feira já acontece desde ontem. Enquanto não chego lá, acompanhem as quentes do evento no Sei lá! Mil coisas, coluna de Carlos Fialho na Diginet.

Pra finalizar
Blogueiros, tremeis. Essa saiu no jornal inglês The Guardian. Os proprietários do blog aowstalk.co.uk, sobre o clube de futebol Sheffield Wednesday, foram condenados a pagar multa de € 6.000,00. A razão foram comentários ofensivos ao time postados por terceiros na página. A ação foi movida pelo próprio clube e, na impossibilidade de identificar os autores dos comentários, o juiz entendeu que os webmasters eram os culpados. Por que? Bem, se não deletaram os comentários é porque concordavam com eles. A decisão abre uma jurisprudência perigosa no direito. Como a maioria dos países ainda não tem legislação específica para a internet, é muito provável que este caso se torne ponto de partida para decisões semelhantes ao redor do globo. Na Espanha, por exemplo, dois casos parecidos já estão sendo julgados usando esta sentença como argumento da acusação.

Ps: Apesar da fonte fidedigna, tentei acessar a página em questão, mas não consegui. Se alguém o fizer, me avise.

Frase do dia
“O eleitor brasileiro pode até passar uma impressão de apatia, mas anda atento aos movimentos dos políticos.”
Do blog de Diógenes Dantas, ao comentar a pesquisa da Consult sobre a credibilidade dos políticos entre os jovens

23/10/2007

dumbledore não é gay

Alvo Dumbledore não é gay. Esta é a verdade e por mais que J. K. Rowling, autora da série “Harry Potter”, alardeie por aí que o diretor de Hogwarts é, não é. Explicarei o porquê. Antes disso, é preciso situar você no tempo e no espaço.

Há pouco mais de um mês foi lançado o volume derradeiro dessa grande franquia. “Harry Potter e as Relíquias da Morte” é o último livro da série que se tornou um fenômeno editorial sem precedentes. Ainda não li a última aventura, mas acompanhei todos os volumes. Com humor inglês na dose certa, e um planejamento impressionante, Rowling construiu uma trama interessante e divertida. Não é um Joyce, muito menos um Proust. Mas também não chega a ser Paulo Coelho. O que eu quero dizer é que a autora consegue manter a criatividade em todos os volumes, com sacadas divertidas e boas doses de emoção. É apenas entretenimento. Mas é bom.

Pois bem, depois de tanto sucesso, Rowling pôs um ponto final na história. Desde o primeiro volume, foi anunciado que a série teria sete volumes. Ao contrário dos produtores de “Lost”, ela cumpriu o planejado. E aí, depois de tudo terminado, vem dizer que Alvo Dumbledore, o diretor da escola de bruxos e um dos personagens centrais da trama, é gay. Faça-me o favor, Lady Rowling!


Alvo Dumbledore: a autora diz que ele é gay, mas não colocou nada no livro...

O que vale num livro é o que está lá. Se está escrito, vale. Se não está, fica a cargo de cada um interpretar da maneira que quer. Depois que o autor termina o livro e ele é publicado, não adianta anunciar adendos. Se você não teve coragem ou criatividade de inserir esta sacada quando estava escrevendo, já era. Como assim “Dumbledore é gay”? No livro diz isso? Não! É como se eu dissesse por aí que o personagem de “Lítio” não queria se matar. Sim, ele queria.

Por falar em “Lítio”, tenho um bom exemplo dessa limitação. Meses depois de publicar meu romance, criei um novo final. Mudaria completamente o sentido da obra, encaixaria muitas peças e ainda tornaria a história mais comercial, digamos assim. Mas não dava mais. Morreu, acabou, zé-fini. E então, que faço? Saio dando entrevistas dizendo que “Olha, aquilo não era aquilo, na verdade era aquilo outro”. Ridículo, né?

Essa revelação “bombástica” de J. K. Rowling soa muito mais como “autor que não se desvencilhou ainda da obra” do que como “sentido oculto nas entrelinhas”. Foram sete livros, cada um com média de 400 páginas (teve um com quase 800). Se a intenção da autora fosse mesmo esta desde o início, será que ela não teve espaço para desenvolver o tema?

Rowling, Harry Potter já vende muito bem sem esses artifícios. Evite minha vergonha alheia, ok?

22/10/2007

no front

Ainda sobre Che
O Jornal da Tarde publicou matéria sobre os 40 anos da morte de Che Guevara, acrescentando mais dados ao ponto de vista que defendi no texto “Vende-se um Che Guevara novinho”. Na reportagem, vendedores da Galeria do Rock (SP) comprovam que Che é uma grande marca e que a maioria dos compradores nem sabem ao certo quem ele foi, apesar de seus produtos serem responsáveis por cerca de 5% do faturamento. Sem medo de errar, cogito que Che Guevara se transformou numa espécie de Hello Kitty de barba: tal qual o argentino, a gatinha não tem desenho na TV, não protagoniza nenhuma superprodução da Pixar, mas continua vendendo feito água. ¡Y viva a Che!

“Crônico” na Diginet
Acabo de estrear Crônico, minha coluna no site da Diginet. Comecei publicando “O normal”, texto já conhecido dos plogados. A atualização será às segundas.

Textos inéditos entrarão por lá antes de pintar por aqui. Mas a intenção é diferenciar a linha editorial, mantendo “Crônico” com foco, é óbvio, é lógico, é claro, em crônicas. Comentários são bem-vindos.

FLM
Contagem regressiva pra Feira do Livro de Mossoró. O evento começa nesta terça e vai até domingo com um grande diferencial de outras feiras de literatura: a organização apostou pra valer na nova geração de escritores brasileiros, criando o “Encontro de Novos Autores do Brasil”. Investindo, portanto, no que há de novo no país em termos de literatura, a FLM se diferencia de outros eventos e ganha cara própria. Gol de placa.

Tropa de Elite
Assisti e gostei. Tentei escrever algo sobre o filme a pedido da minha amiga Luanda Holanda, mas nada saiu. O problema? Bem, muito já foi dito. Tanto, mas tanto, que fica difícil acrescentar algo. Nessa hora, fico com meu amigo Gabriel Souto: é melhor ver a película sem prestar muita atenção aos comentários, críticas, resenhas, estudos e tratados sobre ela. O filme ganhou status de líbero contra o tráfico de drogas, mas nada mais é que algumas boas horas de diversão. Excelente diversão, por sinal. Então aproveite o momento: torça pelos protagonistas, odeie os vilões e não tente achar um big plan. “Tropa de Elite” é um grande filme de ação. Fica mais divertido pensar assim.

E por falar nisso
Em discussão sobre a prisão de um universitário por porte de maconha dentro da UFRN no grupo de discussões do Jovens Escribas, pedi aos que defendiam a prisão de usuário de drogas que não fossem tão fascistas. Esse comentário inspirou Marlos Ápyus a fazer um excelente texto sobre o assunto, incluindo Tropa de Elite e hipocrisia na receita. “Tropa de elite e consciência social”, pra variar, tem pontos de vista dos quais discordo. Mas por tão bem escrito, me encheu de vontade de opinar também sobre o assunto.

Fascista, fascista, fascista!
Pelo que me disseram, virou xingamento da moda. E por isso, palavrinha fácil, oca, sem significância. Há quem defenda até a não utilização desse xingamento por questões de incongruência histórica. Pelo raciocínio, também não poderíamos chamar racistas de nazistas, nem traidores de fariseus. Porque o significado correto dessas palavras está associado a fatos históricos e só. Eu prefiro manter viva a linguagem figurada, que tão bem serve aos poucos que sabem usá-la. E mesmo estando na moda, continuarei a chamar de fascista aquele que defende atitudes pouco democráticas. Fascista, fascista, fascista!

Viral
A criatividade de quem produz vírus pra internet está extrapolando limites. Veja só o que recebi agora mesmo. Se deu vontade de clicar? Sim.

From: fernan_gata_17
To: moni_loira
Subject: você perdeu a festa, transei com 2 hauhau

"Moni você não vai acreditar heheheh a festa foi otima, bebi muito fumei uns e talz
olha.... so fatou você lá viu, sebe quem estava lá? o rafael e o pedro esses meninos
são fogo, e sabe o que nos tres fizemos? sexoooooo minha filhaaaa hehehhe aiii muito bom
olha tirei fotinhas pra você não ficar triste de não ter participado viu, ver se da proxima
da um geito de vir... olha as fotos estam hospedadas no meu blog.. aiii"

Finaliza com um link para o vírus. Logo abaixo do link, pasmem, ainda tem uma resposta!

"menima você esta doida? como você tem coragem de trazar com 2 caras de vez
e ainda tirar fotos de tudo hauhau, que absurdo olha eu não sabia que você era
capaz disso... não mostar isos pra ninguem mais viu já pessou se seus
pais veem uma coisa dessas??? eu fiquei um pouco exitada sim ...
bom da proxima eu tomo coragem e vou :) beijos gata"

Tsc tsc tsc...

Frase do dia
“Como você vai escrever um livro sobre a Disneylândia se você nunca foi na Disneylândia?”
Seu Patrício, meu pai, numa de suas pílulas diárias de sabedoria

19/10/2007

no front

Assista
“The Science of Sleep” (ou, na tradução pro português, “Sonhando Acordado”), filme de Michel Gondry (“Brilho eterno de uma mente sem lembrança”). Com Gael García Bernal, o longa conta a história de um rapaz que confunde sonho com realidade. E essa situação rende cenas realmente belas. O filme entrou em cartaz hoje na Mostra de Cinema de São Paulo.

Leia
A matéria da Carta Capital de outubro sobre o declínio do poderio americano. Com o título de “Império com pés de barro”, é uma investigação criteriosa sobre os EUA e sua economia, demonstrando que a tendência é que nos próximos 10 anos (ou pouco mais) a hegemonia dos estadunidenses se esvaia. Estou torcendo.


Leia também
As Cem Melhores Crônicas Brasileiras”, organização de Joaquim Ferreira dos Santos. Tenho o de contos e o de poemas. Mas esse, sem dúvida, é o melhor. Com textos de grandes nomes da literatura brasileira, o livro é uma deliciosa viagem pela evolução do texto no Brasil. Com destaque para a crônica “Medo da eternidade”, de Clarice Lispector. O texto fala sobre a primeira vez que ela mascou um chiclete. E com esse tema, ela consegue resumir complexas questões da humanidade. Só ela mesmo.

Ouça
The Perishers. Em especial, o CD “From nothing to one”. Em especial, a faixa “In the blink of an eye” (“I never thought love could turn to hate / In the blink of an eye”). Mais melancólicos que o Coldplay, a banda sueca põe uma delicadeza única em seus arranjos para cantar baladas suaves e envolventes.


Para o lançamento de “O Dia Mastroianni” de João Paulo Cuenca. É hoje, na Limbo Livros Selcionados (Av. Afonso Penna, 666), a partir das 19h. De lá, rumamos todos ao Sgt Ponta Negra para entrar pela noite nessa cerveja.

Anote
“Há uma 'releasemania' quase pejorativa no jornalismo cultural do RN.”
Vicente Serejo, jornalista, em entrevista à Papangu

17/10/2007

no front

Leituras Vivas
Excelente o evento ontem na Siciliano. O Leituras Vivas reuniu três atores (dos quais não sei ainda o nome todo, excetuando Samillys) em torno de textos de escritores que participarão da Feira do Livro de Mossoró. O meu texto foi “O normal”. Cheguei após a apresentação dele, mas segundo testemunhas (Renata Lacerda e Carlos Fialho), a leitura arrancou gargalhadas e aplausos da platéia. Perdi meu texto, mas vi todo o resto. E realmente os atores estavam afiados. A leitura do trecho de “O Dia Mastroianni” de João Paulo Cuenca foi de arrepiar. Parabéns a Jacildo, da Oficina da Notícia, que coordenou o projeto e planeja torná-lo mensal. A idéia é brilhante.

EM TEMPO: Após a postagem, descobri os nomes do elenco. Da direita pra esquerda: Danilo Tazio,
Thiago Félix e Samillys Melo. Parabéns pelo trabalho, galera.

Cuenca
E por falar em Cuenca, passo agora os dados completos do lançamento em Natal de “O Dia Mastroianni”: é nesta sexta, às 19h, na Limbo Quinquilharias (Av. Afonso Penna, 666). De lá, já avisou Carlos Fialho, rumaremos todos para o Sgt. Peppers Ponta Negra a fim de tomar algumas ao som da discotecagem especial de Anderson Foca preparou para o Jovens Escribas (ei, discotecagem é coisa de velho, né não? Acho que esse negócio de jovem escriba tá ficando estranho...).

Sai Prata, entra Freire
Por causa de compromissos de trabalho, Antônio Prata não poderá vir à Feira do Livro de Mossoró. O autor participaria do “Encontro de Novos Escritores do Brasil” na mesa “O texto curto que faz rir” com Carlos Fialho e Mário Gerson. Em seu lugar, teremos a presença do muito querido Marcelino Freire. Para mim, uma troca justa. Não escondo de ninguém que sou fã dele (como deixei bem claro no texto “Esse Marcelino é um danado”). Vencedor do Jabuti 2006 pelo livro “Contos Negreiros”, Marcelino vai abrilhantar ainda mais o já estelar elenco da Feira do Livro de Mossoró.

Revistas
Já segue a todo vapor a produção do quinto número da Revista Versailles, da qual sou redator e integro o conselho editorial. A revista explora o universo das festas e é sempre um desafio para mim. Mas está sendo uma experiência incrível tentar entender melhor esse universo cheio de regras próprias. Além disso, a RV é um excelente portifólio. Por causa dela, já estou produzindo uma nova publicação. Não posso adiantar muito além de duas coisas: é voltada ao público masculino e vai ser muito, muito, muito rock’n’roll. Aguardem.

Outra revista
Por falar nisso, a Revista Jovens Escribas continua em produção. Alguns patrocinadores já estão na agulha e acabamos de ser habilitados para disputar patrocínio do BNB Cultural. Se tudo correr bem, no máximo em janeiro ela sai do forno, compilando contos, crônicas e poemas de diversos jovens autores do Estado. A idéia é reunir mais de 30 jovens escritores, dando a muitos a oportunidade de publicar pela primeira vez.

Huck X Ferréz
Luciano Huck foi assaltado e publicou um artigo de desabafo. No mesmo jornal, dias depois, o escritor Ferréz publicou um conto mostrando o mesmo episódio do ponto de vista do assaltante. Muitos disseram que Huck reclamava de barriga cheia e até questionaram como alguém usava um relógio que custava um apartamento. Polêmica inócua. É sabido que o assalto dói em qualquer classe social, e muito mais pelo trauma da violência do que pelos bens perdidos. Ferréz apenas corroborou com o ponto de vista de Huck: em seu conto, mostra que a culpa não é do bandido e sim das circunstâncias. Mas essa é minha opinião. Gostaria de saber a sua. Leia os dois textos aqui e depois opine.

Imprensa marrom?
Reparem na manchete principal. E como ela fala a verdade apenas nas letras miúdas. Tsc, tsc, tsc.

Programe-se
Aniversário da E.Sessions: Sábado, 20 de Outubro | Line up: Banda Barbiekill - RN / T.Yuri - RN / Dude - PE / Oscar Bueno (Paradise After Hours/D-Edge - São Paulo) / David - Pipa / Danny Andrade - (Pragatecno/AL) | Vendas antecipadas: Depilla - 3207.7697 e Le Zoo - 3201.8158

Momento Superinteressante
P: O que é histeria do Ártico? R: Também chamada de pibloktoq, é um transtorno que acomete esquimós e outros povos da região. Os doentes (principalmente mulheres) rasgam suas roupas, gritam obscenidades, comem fezes e se jogam na neve imitando focas (!!!!!!!).
Fonte: Superinteressante, out/07, ed. 244

16/10/2007

blog do rosk denuncia fraude no fest natal

Acabo de ler notícia interessantíssima publicada no Blog do Rosk, de autoria do estudante de Comunicação Social Fábio Farias. Vale a pena reproduzir na íntegra.

FRAUDE EM CONCURSO DO FESTNATAL
por Fábio Farias

O FestNatal estava realizando um concurso, via internet, do melhor apresentador de telejornais aqui do Estado. Um amigo meu, Thiago César, é apresentador de um programa na TV União e por não ser um programa lá de grande audiência e ele ser um mero estudante de jornalismo, a foto dele nem o programa constavam na lista de votação. No entanto, podia-se votar em "outro", preenchendo o nome do candidato.


Alguns colegas da faculdade fizeram uma campanha dentro do curso mesmo entre os conhecidos de Thiago para votarem nele todos os dias. Resultado, nosso querido amigo ganhou a foto dele no site e começou a ficar em primeiro lugar nas votações. Todo mundo votava todo dia só para ver até aonde isso tinha que dar (só era permitido um voto por dia). O segundo colocado era Geider Henrique, apresentador da TV Cabugi, retransmissora da Globo aqui em Natal e, quando notaram que Geider estava perdendo para um simples aspirante a foca, começaram a enviar recados de um perfil fake para Thiago supondo que ele estaria usando métodos ilícitos para conseguir votos. Mas isso não existiu. O que acontecia era que vivíamos no site votando no nosso nobre amigo. De repente, de um dia para o outro (eu votava e acompanhava os resultados diariamente), Geider conseguiu 200 votos, tirando a diferença de votos de Thiago e abrindo mais 100 de vantagem. O apresentador poderia estar muito bem fazendo campanha em prol dele, ou não.

Acontece que ontem a assessoria do FestNatal divulgou nota dizendo estar cancelado o concurso por suspeita de fraude e informando ainda que alguns apresentadores teriam se retirado oficialmente por conta disso.

Muito estranho, só espero que não pensem que Thiago usou de fraude para conseguir seus votos porque eu e mais um monte de gente do curso de Comunicação da UFRN votavamos diariamente nele. E muito estranho também essa ânsia de Geider de ganhar um concurso que para ele não terá significado nenhum além de um troféu em casa e uma foto no jornal.

15/10/2007

no front

Desemboco do feriadão direto numa semaninha daquelas. Muito trabalho, pouquíssimo tempo. Já estou com medo de não seguir as atualizações programadas. Como a temporada de caça ao tempo está aberta, prossigamos com algumas rápidas.

Leituras Vivas
É amanhã na Siciliano do Midway, a partir das 20h. Atores interpretarão textos de escritores que estão da Feira do Livro de Mossoró. Será o lançamento do evento em Natal. E tem texto meu lá, hein! Como não sei qual é (e preferi não perguntar), estou na ansiedade pelas próximas 24h.

Veja Natal
Poucos sabem, mas integrei o time de jurados de bares da edição de Veja Natal. Como se estivesse com tempo de sobra, amanhã faço um ensaio com Luís Morais para a revista. O lançamento da edição especial, que premiará os melhores de Natal no circuito de lazer, será 07/11/07.

João Paulo Cuenca
É o nome de um dos autores mais promissores da nova geração, apontado pela Bravo! como possível grande representante dos anos 00. E ele vai estar em Natal na sexta, 19, lançando seu mais novo romance, “O Dia Mastroianni”.


Vai ser na Limbo Quinquilharias, a melhor livraria de Natal, que fica à Av. Afonso Penna, 666. E o Jovens Escribas vai comparecer em peso.

Feira do Livro de Mossoró
E por falar nisso, semana que vem começa este grande evento. Com uma programação diversificada e atenta às novas tendências da literatura, a FLM promete colocar Mossoró de vez no mapa da literatura nacional. Vou participar de duas atividades na feira. Na sexta (26), ministro uma oficina sobre literatura e blog (“Do blog ao PLOG”), que estou correndo para finalizar ainda esta semana. No sábado (27), me encontro com Daniel Galera, dentro do “Encontro de Novos Escritores do Brasil”, para um bate papo sobre romance de geração.

Daniel Galera
Por sinal, Daniel Galera, autor do fantástico “Mãos de cavalo”, foi o outro jovem escritor cotado pela Bravo! para ser o grande nome da geração 00. Segundo a revista, seu romance de estréia “Até o Dia em que o Cão Morreu”, de 2003, é “o retrato de parcela da população jovem da classe média urbana, sem objetivos de vida claros”. Além de conversar comigo sobre romance de geração, Galera se encontra na FLM com Ney Leandro de Castro para o bate papo “Meu livro virou filme”. “O homem que desafiou o diabo” (baseado em “As pelejas de Ojuara” de Ney Leandro) e “Cão sem dono” (que veio de “Até o dia…” de Galera) serão as pautas.

Frase do dia
"Ambos são homens com problemas."
Da reportagem do New York Times ao comparar o Capitão Nascimento de "Tropa de Elite" com Jack Bauer da série "24 horas"

09/10/2007

vende-se um che guevara novinho

Hoje, no aniversário de 40 anos da morte de Che Guevara, mais do que relembrar essa estampa de camiseta, convido você a celebrar o capitalismo. Esse monstro insaciável que assimila o que não o aceita e transforma qualquer ideologia, qualquer crença, qualquer cultura em produto. Islã em conserva, revolução ready-to-drink, terrorismo instantâneo.

Não, eu não sei quem foi Che Guevara. Aliás, sei tanto quanto você. Assisti “Diários de Motocicleta”, li algo sobre ele no Google, vi uma ou duas matérias sobre o aniversário de sua morte. Sinceramente, sei muito mais sobre a vida de Madonna. E não é culpa minha. Até os estudiosos da vida desse líder revolucionário sabem mais sobre a estrela do pop. Mas não uso camiseta com o rosto dela. Minha túnica de rebelde é uma regata com a cara do Che.

Andy Warhol, 1962: Che Guevara assimilado

O capitalismo é um sistema perfeito do ponto de vista da auto-sustentação. Qualquer coisa que vá contra ele rapidamente se transforma em produto. Assimilar é a melhor forma de lutar contra o inimigo. Assim, os árabes viram odaliscas. Hippies viram traje de festa à fantasia. O ativismo ambiental vira um tomate orgânico - mais caro e, justamente por isso, inacessível. Sabe o que o capitalismo fez com quem odeia o McDonald’s? Criou as redes de sanduíches naturais. Megafranquias que em termos de maus-tratos aos funcionários e bombas calóricas não deixam nada a dever aos gigantes do fast-food. Não adianta, amigo, ele vai te assimilar um dia.

Já vi uma camiseta assim: Che Guevara assimiladíssimo

Voltando a Enesto Guevara (e também, entendendo melhor a teoria da assimilação). O famoso desenho de Che que hoje estampa camisetas foi criado no fim dos anos 60 pelo então jovem artista plástico Jim Fitzpatrick, sobre foto de Alberto Korda. Para ajudar a propagação da imagem, Fitzpatrick liberou seu uso para fins não-lucrativos. E enviou o desenho para ativistas políticos da Europa. De lá, a imagem ganhou o mundo. Conforme foi sendo usada, perdeu o sentido original. Se sua reprodução se resumisse a camisetas vestidas por pessoas que não sabem quem foi Che, tudo bem. Mas até cigarros e sorvetes o pobre Ernesto Guevara já ajudou a vender. Na Austrália, por exemplo, uma linha especial do picolé Magnum trazia a fotinha do revolucionário na embalagem, conforme mostra matéria da Folha.

Mas vamos deixar de hipocrisia, ok? Todo mundo cita Cuba como a flor da resistência ao capitalismo, mas a ilha de Fidel só se sustenta em seu utópico socialismo graças ao dinheiro enviado por Hugo Chávez. Aliás, esse dinheiro da Venezuela vem sabe de onde? Venda de Petróleo aos países ricos. E sabe o que o capitalismo fez com Cuba? Sexo-turismo, amigo, sexo-turismo.

"Con mi revolución, voy a ser una camiseta!"

No meu primeiro romance, “Lítio”, a principal tônica é a crítica ao capitalismo. A sociedade de consumo é rechaçada em diversas passagens do livro, incluindo muito dessa teoria que estou expondo. O problema é sabe qual? Para imprimir o livro, precisei de dinheiro. Para cobrir o investimento, tive de vendê-lo. Para vender, dei entrevistas, participei de encontros, fiz acordos. Rapidamente, meu livro foi assimilado. Está agora na prateleira da livraria mais próxima de você com uma tag indicando seu preço. Um compêndio anticapitalista que só ganha voz através de um instrumento: o próprio capitalismo.


Apesar dos pesares, não desisti. Na impossibilidade de liquidá-lo, tento ao menos torná-lo mais justo. Infelizmente, lutar contra este monstro do norte é uma guerra inglória. Você pode dizer-se rebelde, não concordar com tudo que está aí, berrar por um mundo livre de exploração. Mas saiba que o capitalismo é mais inteligente que você. Ele não deixa escapatória. Mais hora, menos hora, você se transformará numa estampa de camiseta.

¡Y viva a Che!

Houve uma vez um PLOG

Por Carlos Fialho

Ouvi falar nos blogs pela primeira vez em 2001. Em e-mail, o jornalista Paulo Celestino perguntou: “Você já pensou em ter um blog?”. Eu não sabia direito o que era, de que exatamente se tratava. Depois descobri que era um sítio de internet mais simples de fazer. O primeiro amigo que criou um blog foi Bruno Cássio, o Chico, colega do curso de jornalismo da UFRN. Foi também em 2001 e vi que essa história poderia ser bem divertida.

Mas foi só em 2004 que o acesso a essas páginas pessoais mais simples se tornou um hábito. Começou no princípio do ano com o PLOG. Patrício atualizava sua cria quase diariamente, com textos de sua autoria, comentários sobre temas pertinentes, publicações de outros autores e logo começou a ter idéias bem criativas como a de escrever um romance on-line, cada capítulo escrito por um colaborador diferente. Era o Memento, livro virtual que marcou época para muitos jovens autores natalenses, hoje com livros publicados. Também havia a terça dos Jovens Escribas em que enviávamos textos inéditos e podíamos ir lá conferir os comentários. Era uma ótima acolhida aos sem-blogs como eu.

Sair no PLOG era ótimo. Dava visibilidade e gerava empatia imediata. Era uma página cativa de muita gente boa. Publicitários, jornalistas, amigos, curiosos, todo mundo ia lá conferir a atualização do dia. Guardo até hoje o post que Patrício fez sobre o lançamento do meu primeiro livro “Verão Veraneio”. Foi em 5 de fevereiro de 2004, representa um registro do nascimento dos Jovens Escribas e foi muito bacana.

Logo, os outros blogueiros da cidade começaram a interagir. Através do PLOG, Patrício conheceu Marlos Apyus, Andréa Marinho, Renata Lacerda e muitos outros que se uniram aos JEs e acabaram se tornando parte do grupo.

Agora, é com muita felicidade que vejo o PLOG de volta ao ar. Leitura diária indispensável, uma prova cabal de que existe vida inteligente na grande e inebriante rede de computadores.

Longa vida ao blog do Patrícicio. Longa vida ao PLOG.

Ps.: Logo que o PLOG voltou ao depois de um hiato de alguns meses, meu companheiro de Jovens Escribas, Carlos Fialho, me enviou esta colaboração. Perdida nos meus arquivos, só agora me dei conta de que nunca tinha sido publicada. Dever cumprido agora.

08/10/2007

mp3: você é usuário ou traficante?

QUAL O FUTURO DA MÚSICA
QUANDO BAIXAR MP3 SE TORNOU
UM HÁBITO DE MASSA?

Na mesma semana em que o Radiohead, uma das melhores bandas de rock desses tempos escassos, lança seu novo álbum diretamente na internet (numa ação inédita: você faz o download e paga o quanto quiser), um pool de gravadoras abre uma jurisprudência perigosa nos EUA: Jammie Thomas, 30 anos, mãe solteira, foi condenada a pagar US$ 222 mil (cerca de R$ 401 mil) por compartilhar ilegalmente arquivos de mp3 no Kazaa.


Ao ler esta notícia, fui imediatamente ao Mininova baixar algumas discografias.

As gravadoras ainda não se deram conta de que o caminho é buscar novas formas de obter lucro e não nos empurrar goela abaixo suas velhas extorsões. Mas o quadro é bem pior do que se espera: o advogado das empresas, Richard Gabriel, disse claramente que a ação é um recado a quem compartilha arquivos. “A decisão envia a mensagem de que baixar e distribuir nossos arquivos não está certo”, disse ele. Ou seja, pegaram a mulher pra cristo. Assim como o Naspter, Jammie Thomas é um mártir da era digital.

As regras mudaram. Como reclama a cantora Björk em entrevista ao Estadão: “A indústria fonográfica é um dinossauro. A gente leva oito meses para fazer o álbum e um ano para promovê-lo. É ridículo. Podia fazer sentido dez anos atrás, mas agora você grava uma canção e coloca no MySpace na hora”. Estou com a islandesa. Aliás, ela está no grupo de artistas que apóia a música livre. Não por acaso, o mesmo grupo que vem conseguindo manter a lucratividade e a qualidade dos trabalhos nesses tempos bicudos. “As gravadoras não acompanharam o ritmo da tecnologia”, concluiu Jão Saraiva, baixista e letrista do Jane Fonda, enquanto tomávamos uma cerveja. A tese dele é semelhante a de Björk: mais de um ano para lançar um disco é coisa do passado.

A única parte boa desse angu de caroço é perceber o desespero das gravadoras em criar manobras mirabolantes para acabar com o tráfego (tráfico?) de mp3 na web. Desde os infalíveis arquivos protegidos contra cópia (que podem ser “desprotegidos” facilmente com um plug-in baixado em qualquer site de compartilhamento) até aberrações como a que ocorrreu na Bélgica no início do ano. A Belgacom (maior provedor do país) chegou a cogitar o bloqueio de downloads por parte dos usuários para atender ao pedido de uma associação de artistas. Nem precisa dizer que a medida não vingou. Isto porque o provedor passaria a operar no modo censura. Além disso, causaria uma migração em massa para seus concorrentes. É, o mundo anda tão complicado.

O mp3, entretanto, não é ruim para o artista. Aqueles que sabem usar as novas ferramentas conseguem grandes retornos. Vide o Arctic Monkeys, que estourou primeiro na rede para então chegar aos veículos tradicionais. O iTunes, loja virtual de mp3 da Apple, também é um bom exemplo de que adaptar-se é a palavra de ordem. A empresa segue aumentando seu lucro e Steve Jobs, visionário diretor-presidente da Apple, já mandou seu recado à indústria fonográfica. Em nota publicada no seu blog (e traduzida aqui), ele afirma que o futuro da indústria fonográfica passa pelo livre compartilhamento de mp3. Segundo ele, as pessoas vão trocar arquivos de uma forma ou de outra. Então, é mais rentável que esta briga inútil termine por iniciativa das gravadoras. Parece louco, mas levando-se em consideração que essas palavras vieram do cara que criou o iMac, o iPod e o iPhone, ditando tendência na indústria tecnológica há quase duas décadas, bem, eu não duvidaria dele.

Negar que o mundo mudou, como os gigantes da indústria fonográfica fazem, é excluir-se gradativamente dele. A música voltou às mãos dos artistas. Eles não sabem ler uma planilha de custos, mas são bem mais criativos que os executivos. Como disse Ana Carmen Longobardi em “Cuidado com os criativos”: “As pessoas tendem a confiar nos banqueiros, mas são os poetas que mudam o mundo”.

05/10/2007

prisão de universitário gera polêmica

Quer ver uma discussão boa de verdade sobre drogas? Vai no Blog da Jô Lopes. A notícia sobre a prisão de um universitário ontem, na Cientec (UFRN), acusado de estar fumando maconha e, posteriormente, de ser suspeito de traficar dentro da universidade, gerou uma discussão acalorada nos coments. Eu, claro, tô por lá. Brigando com meu querido amigo Marlos Apyus que, graças a Deus, discorda de mim em muitos pontos. Vai lá, vai lá.

02/10/2007

como sobreviver a um hotel de luxo

Para Carlos Fialho

Você vai ficar num hotel de luxo. Primeiro de tudo, não leve muita coisa. Esse conselho é por diversas razões, mas a principal é que vão desconfiar de sua nobreza caso chegue carregando cinco malas para passar um fim de semana. Os chiques de verdade viajam com uma malinha pequena porque sabem que voltarão atolados de novas bugigangas. Viajar com a casa a tiracolo é coisa de pobre.

No quarto, cuidado com o frigobar. Aliás, o ideal é que você nem veja onde ele está. Frigobares são equipados com um poderoso sensor de desejos. Eles têm tudo que você mais almeja. Custando, obviamente, uma fortuna. Quer um chocolate Lolo, daqueles que saíram de linha há pelo menos vinte anos? Não se assuste se abrir a geladeirinha e ele estiver lá dentro, geladinho, com a famosa e sorridente vaquinha na embalagem. Frigobares são traiçoeiros. Tudo bem, você não o ignorou, abriu, viu que tinha o Lolo. A saída agora é muito simples: pegue o chocolate e não olhe para nenhum outro item. As chances de três gueixas massageadoras saírem lá de dentro são enormes.

Antes de ligar qualquer aparelho do quarto – e há muitos, ar-condicionado, som, televisão, chuveiro elétrico – verifique com a recepção se os gastos com eletricidade serão adicionados à sua conta. Não há nenhum hotel no mundo inteiro que faça isso. Mas nunca se sabe, não é mesmo?

Tome o cuidado de jamais estar no quarto quando a arrumadeira vier. Elas pedem gorjeta. Aí fica aquela situação: ela com a mão estendida esperando e você entregando tristemente a metade do Lolo que guardou para comer mais tarde. Para o caso de solicitar algo da recepção (um cinzeiro, um isqueiro, uma toalha), proceda da seguinte forma quando a encomenda chegar: grite “pode deixar aí fora” de forma bem antipática, dando a entender que está ocupado com algo mais importante que receber o que pediu. Então, espere cerca de dez minutos para que o entregador desista da gorjeta. Vá a porta silenciosamente, verifique se não tem mais ninguém lá fora pelo olho mágico e seja veloz: abra, pegue a encomenda, feche a porta e respire aliviado. Mais uma gorjeta que você economizou.

Saiba que os hotéis não cobram pelo sabonete, xampu e condicionador que disponibilizam nos banheiros. Mas isto não significa que você pode usar um tubo de xampu a cada banho (aliás, você checou se o hotel cobra pelo banho?).

O café da manhã é de graça. É a sua chance de comer o suficiente para não precisar gastar com comida pelo resto do dia. É importante sentar-se próximo ao bufê, para que os outros hóspedes não percebam que você está refazendo o prato pela quinta vez. As regras de etiqueta dizem que você pode repetir uma refeição quantas vezes quiser, contanto que não faça um prato de pedreiro. O que não é o seu caso, obviamente. O primeiro prato que você faz tem três andares. No quinto, você inova nas regras de engenharia e consegue edificar uma réplica do Empire States Building com croissants, muffings, queijo, presunto, abacaxi, salsicha e um azeitona simulando o King Kong.


Você verificou se o hotel cobra pelo uso da privada? É lá que você vai passar o resto dos seus dias se não tiver bastante cuidado com o que come no desjejum. Saiba: a administração dos hotéis coloca uma gotinha de laxante nas iguarias mais caras da refeição. De modo que aquela pitadinha de noz moscada pode se transformar num porco podre em apenas alguns minutos de digestão.

A piscina. Você deita na espreguiçadeira, olha aquele espelho azul, sente que tudo valeu a pena. O sol é de graça (os sistemas de cobrança pela luz solar ainda estão em testes no Massachussets Institute of Tecnology), portanto você pode torrar o dia todo sem medo de ir à bancarrota. Mas não peça nada. A última vez que a Apple quase faliu foi porque Steve Jobs resolveu tomar todas num bar molhado. Já que você não sabe como parar quando começa, melhor viver um dia de cada vez.

Muito bem, a noite chegou. Vai ter uma festinha na boate do hotel e você descolou uma pulseira VIP com o cabeleireiro ao dar falsas esperanças a ele. Antes de levar pro quarto aquela loira de microssaia e salto alto, verifique qual a política do hotel no tocante à prostituição feminina. De menores. Bom, você não esperava que a dona daquelas curvas caísse no seu colo motivada pelo seu charme, não é mesmo? A sua sorte é que a batida do Ministério Público vai acontecer bem na hora que você for ao banheiro tomar um pouco de água da torneira (na boate, a cerveja é mais cara que no bar molhado).

Lembra que eu falei que havia muitos motivos para levar uma bagagem pequena? Muito bem, uma dessas razões é o temido check-out. Ou, como se diz em português, o juízo final. É nessa hora que você vai acertar as contas com o deus dos hotéis de luxo. Vão te cobrar os trinta e oito tubos de condicionador (usar creme capilar como hidratante não foi uma boa idéia), o canal pornô que era pay-per-view e você não checou antes, as gorjetas acumuladas, os dez por cento da taxa de serviço, o Lolo e a luz solar (um protótipo do MIT foi instalado há dois dias). O que fazer?

Com sua mochilinha nas costas, diga que decidiu ficar mais alguns dias. Volte ao quarto e espere quarenta minutos (gerentes são como moscas: têm perda de memória recente). Em seguida, vista apenas uma sunga, deixe uma toalha escapando da mochila e passe pela recepção cumprimentando todos, dizendo que não vê a hora de se jogar naquele marzão. A loira peituda estará esperando na esquina dentro de um Fusca 79. Você teve que ligar a cobrar. Ainda bem que ela ganhou uma graninha na noite passada pra colocar crédito no celular.