29/11/2007

¿por qué no te callas, lula?

Sou a favor da criação de um novo cargo no Governo Federal. Mais honesto que o presidente do Senado, menos bocó que o presidente da Câmara, mais eficiente que a ministra da Casa Civil. De relevância vital para a paz do país, seria o Rei da Espanha Brasileiro. Já pensou um Juan Carlos I todinho só pra gente? Seria um espetáculo do crescimento, amigo.

Encarnando a voz do povo no Executivo, este incauto profissional da sinceridade teria a incumbência de acompanhar nosso muy hablante presidente Lula o tempo inteiro, a qualquer compromisso, sempre lavando a honra do povo. Como? Simples: a cada asneira que nosso chefe de Estado proferisse, o Rei da Espanha Brasileiro berraria um sonoro “¿Por qué no te callas, Lula?”. Assim, impostado e grave, com sotaque espanhol pra tornar a coisa toda mais contundente. Convenhamos, ele teria bastante trabalho.

Esta pequena ocupação seria de suma importância pra que os brasileiros não ficassem usando nariz de palhaço toda vez que nosso ilibado presidente discursa sobre o escândalo da moda. Ele disse que não existe caos aéreo coisa nenhuma? ¿Por qué no te callas, Lula? Jurou que não sabia nada sobre o mensalão? ¿Por qué no te callas, Lula? Falou que a crise no abastacimento de gás não tem relação alguma com a nacionalização do gasoduto Bolívia-Brasil? ¿Por qué no te callas para siempre, Lula?

O trabalho é duro e envolve diversas horas extras. Afinal, Lula é uma máquina incansável de produzir pérolas da ignorância. E o pior: mesmo quando acerta gramaticalmente, todos os pingos nos is, nenhuma concordância fora do lugar, sempre dá um jeito de insultar nossa inteligência. Quer um exemplo? Discursando sobre a possibilidade de uma nova onda de apagões há pouco mais de uma semana, o presidente foi enfático: “Não há crise no setor energético! O abastecimento do Brasil está garantido até 2012!”. Alguém diga a Lula que isso não demora nem cinco anos pra acontecer. E que um país que só tem energia garantida por no máximo um quadriênio está sim em crise. Gravíssima, por sinal.

Ao contrário do que você pode estar pensando, o investimento para termos um Rei da Espanha Brasileiro não seria tão alto. E poderia sair, por exemplo, da arrecadação da CPMF. Se quiséssemos investir em um produto de grife, tenho certeza que Juan Carlos I em pessoa assumiria o cargo por uma módica quantia. Afinal, seria um prazer inenarrável ser pago para mandar o presidente calar a boca. Mas como brasileiro é dado a um produto pirata, creio que descambaríamos para um Rei da Espanha Brasileiro e paraguaio. Assim, qualquer um que tivesse freqüentado ao menos duas aulas de castelhano – e aprendido que na língua de Cervantes agudo tem som de circunflexo e dois eles têm som de LH – poderia se candidatar ao cargo. Isto porque pronunciar o bordão de Juan Carlos I com acento ibérico é essencial para o sucesso na profissão. Eu seria o primeiro da fila.

Não precisa nem dizer que o advento do Rei da Espanha Brasileiro causaria um grande mal-estar na América Latina. O primeiro a se pronunciar seria o onipresente e agora onipresidente Hugo Chávez, da Venezuela. Ele acusaria Lula de – dou um doce pra quem adivinhar – fascista. Afinal, o primeiro “¿Por qué no te callas?” foi emitido para ele, na reunião da Cúpula Ibero-Americana de Santiago do Chile, pelo monarca espanhol em pessoa. Quem esses neoliberais usurpadores pensam que são?, berraria Hugo Chávez minutos antes cortar a concessão pública do mote na Venezuela. Quem ousasse dizer a frase, seria perseguido sem tréguas com o aval da nova constituição bolivariana.

O vizinho Evo Morales, da Bolívia, teria uma reação ainda pior: nacionalizaria o bordão, acusando os europeus de roubar a frase nos tempos da colonização. Conforme defenderia, o “¿Por qué no te callas?” é um produto típico de seu país, já que ele vive perguntando isso ao povo e sempre obtém a mesma resposta: o silêncio. Em termos, Evo Morales tem razão.

Já Nestor Kirchner, da Argentina, não diria nada. Ao que parece, seguindo o enredo de um tango de mau gosto, muitos problemas ficariam para a sucessora e esposa (futuramente ex, podem aguardar) Cristina Kirchner. Soy solamente primeiro-damo, diria Nestor, tirando el cullo de la reta.

Por sua vez, Michelle Bachelet, do Chile, estremeceria 7.7 graus na escala Richter só de pensar no assunto.

É sabido que Lula perdeu diversas oportunidades de ficar calado. Das metáforas futebolísticas às comparações estapafúrdias, nosso presidente vai entrar pra história como o autor de grandes impropérios. Conseguiu, veja só, ultrapassar o intelectual Fernando Henrique Cardoso no quesito “era melhor ficar calado”. FHC, pra quem não lembra, foi autor de aforismos de alto teor sociológico como “Aposentado é tudo vagabundo”, “Vida de rico em geral é muito chata” ou “Se a pessoa não consegue produzir, coitada, vai ser professor”. São coisas que eu preferia esquecer que foram ditas por um chefe do Executivo.

O Rei da Espanha Brasileiro só não teria utilidade nas horas em que Lula repentinamente se cala. No mensalão, por exemplo. Cortaram a língua do homem, foi? Tão falante, tão discursante, e de repente o presidente vira uma introspecção só. Ante o mar de lama que tomava conta de seu amado PT, vazando gordas gotas de coliformes fecais pro resto do país, o que obtivemos como resposta oficial foi zero. Nessa hora, deu vontade de chutar a porta do Palácio da Alvorada, entrar pisando firme, encontrar Lula devorando sua marmitinha diária e gritar bem nas fuças presidenciais: ¿Por qué no hablas nada, Lula?

23/11/2007

no front: começa o ENE 2007

E na cerimônia de abertura...

O ENE – Encontro Natalense de Escritores, começou ontem. Com uma programação mais diversificada que ano passado, e até mesmo mais atrativa, meu temor era que a organização incorresse em erros bobos que estragassem o brilho da estréia. Bom, ocorreu. Primeiro, colocar o Prefeito pra falar é uma afronta. O evento é promovido pela Prefeitura, com dinheiro público e na melhor das intenções. Justamente por isso, não deveria ficar tão claro que é mais uma obra do Prefeito de Todos. A gente chega todo empolgado, louco por literatura, ansioso pelas palestras, e de repente percebe que aquilo tudo é jogo de cena pra Carlos Eduardo ficar bem na fita. Tudo bem, eu sei que a vida é assim. Mas não custa nada desejar que não fosse.

Veríssimo & Ventura
Estamos falando de dois grandes nomes da literatura, que inclusive são amigos de longa data. Creio que a organização do evento pensou exatamente isso ao suprimir um moderador do debate. Colocar dois escritores sozinhos num palco é um homicídio doloso com requintes de crueldade. Por mais falantes, desinibidos e amigos que sejam, sempre chega a hora do silêncio constrangedor. E, sejamos sinceros, Zuenir Ventura e Luís Fernando Veríssimo são tudo, menos falantes e desinibidos. A notícia boa é que isto foi uma das poucas coisas ruins do grande debate do dia. Simpáticos e esforçados, os autores brincaram, contaram histórias interessantes e falaram muito sobre a produção diária de crônicas. Um prato cheio para mim, que experimento o dever de escrever há tão pouco tempo.

O que são dois pontinhos brancos no palco do ENE?
Luís Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura.


Zuada
Outro ponto negativo da mega-estrutura do ENE foi o barulho do lado de fora da tenda. Ninguém se tocou que a tenda tem paredes de lona que não são, definitivamente, isoladores acústicos. Assim, enquanto a palestra rolava lá dentro, do lado de fora um grupo de zambê girava uma capoeira ao som de batuques, abafando completamente as vozes dos escritores (não custa pergunta: o que um grupo de zambê tem a ver com literatura?). E se fosse só isso, tudo bem. Mas ainda tinha gente que queria conversar, não tinha onde sentar e ia pra dentro da tenda bater papo. Pra essas, desejo a morte.

Articulação zero
A Prefeitura deixa bem claro que o ENE pertence a ela, só a ela, a mais ninguém. A iniciativa de fazer um evento como este é louvável, sem dúvidas, mas nada explica a falta de articulação com as livrarias de Natal a fim de tornar o evento ainda maior. A assessoria de imprensa de uma grande rede da cidade me confidenciou que chegou a procurar a Prefeitura a fim de desenvolver atividades paralelas no Largo da Rua Chile. A Prefeitura mostrou-se fechada a interferências e disposta a não dividir os louros de publicidade do ENE com mais ninguém. Dessa forma, o evento não cresce. E isso, lamentavelmente, é uma dura realidade em Natal.

Ah, as pessoas
É sempre emocionante chegar a um evento de literatura e ver tudo lotado. Minhas eternas memórias da Flip 2007 dão conta de que isso foi uma das coisas mais legais que vi em Paraty. Por isso, elejo este fato como o melhor acontecimento do ENE em seu primeiro dia. O Largo da Rua Chile estava cheio de gente, a tenda também, as proximidades idem. Claro, não era um show de Ivete Sangalo. Mas tinha gente o suficiente para deixar este ensaio de escritor muito satisfeito por ter um evento assim em Natal.

Por falar nisso
Já que toquei no assunto “ensaio de escritor”, vocês precisam ver o que está acontecendo nos comentários da minha coluna da Digi. Esta semana postei o texto ¿Por qué no te callas, Lula? e venho, desde segunda, percebendo até onde vai a fé cega de algumas pessoas nos políticos (como fosse política uma questão de fé). De “subescritor” até “Diogo Mainardi do Nordeste”, já me acusaram de tudo. Num momento pra lá de inspirado, uma leitora falou que “se em um único dia da sua vida você tivesse passado fome, não diria metade das baboseiras que escreveu”. Essa leitora é uma tal Mary, que ficou tão puta, mas tão puta com meu texto que já deixou mais de 5 comentários, todos cheios de insultos cultos direcionados a mim. O que estou achando disso tudo? Bom, talvez eu responda na coluna da próxima segunda-feira.

Freud explica
E essa matéria de capa do Jornal de Hoje, hein? Publicado no dia 16/11/07, me fez pensar se não teria ocorrido nada mais relevante que esse pênis para ocupar o espaço da primeira página. Realmente, um exemplo único de jornalismo verdade.


Frase do dia
“É muito difícil escrever fácil”
Zuenir Ventura, no ENE, ao falar sobre a linguagem fluida de suas crônicas

20/11/2007

meu melhor quase amigo

A gente é quase amigo. Quase mesmo. Falta pouco pras coisas mudarem e então estamos curtindo essa fase boa dos começos. Sempre conversamos horas e horas, num animado jogo de duplos sentidos, mas apenas quando nos encontramos por acaso no bar ou na praia ou na livraria. A gente já tem o telefone um do outro, mas quase não nos ligamos. É estranho pensar nisso, mas é exatamente assim que acontece. Até agora, sem uma razão muito forte, não nos ligamos. Da última vez, eu que liguei. Por engano.

A gente vai pras mesmas festas e conhece as mesmas pessoas. Nos comportamos naturalmente quando nos vemos e de repente é aquele estouro de brindes, gargalhadas, felicidade. Amigos de infância que não se viam há 20 anos: mas a gente não se conhece nem há dois. E quer saber? É bom ter alguém assim. Que não faz tão parte da sua vida como os outros; não forma nem deforma a sua identidade; não define, com a presença, quem você é. Apenas está ali. Disponível na medida do possível.

A gente encerra em si, um para o outro, a gênese de algo muito bom, muito grande. Quem sabe um dia não vamos mochilar pela Europa com apenas 100 euros no bolso? Quem sabe um dia, bêbados e falantes, não fazemos um brinde silencioso após contar coisas perdidas da infância? Quem sabe quando velhos, enrugados, rotos, não lembramos de como éramos inocentes e verdadeiros na segunda idade?

Por hora, entretanto, apenas falamos dos assuntos correntes. Política, religião, entretenimento. De vez em quando, descobrimos um traço da personalidade do outro sem querer. Percebi que ele é um falso calmo no dia em que sua namorada ligou, ele respirou fundo e atendeu com um suave “oi, amor”. Deixei escapar que sou emocionalmente imaturo no mesmo dia: ele reclamou que ela é do tipo grudenta e eu sem saber o que responder. Pedi outra cerveja.

A gente curte os mesmos filmes, mas isso não quer dizer que gostamos dos mesmos filmes. Significa que temos um interesse comum pelo mesmo tipo de cinema e nem sempre concordamos com a qualidade do que vemos. Eu gostei de “Dogville” e ele classificou como um filme chatíssimo. Nossa amizade vai crescendo nessas diminutas diferenças.

Lembro que quando nos conhecemos, me bateu lá dentro aquela certeza de que seríamos próximos. Ainda me refiro a ele como “meu colega”, mas desde já tenho como certo que um dia, quem sabe, quando distantes, possa sentir saudades e fazer uma ligação interurbana para dizer que tudo que mais queria era dividir uma gelada com ele. A saudade de um amigo é das coisas mais puras que podemos sentir.

A gente é quase amigo e se trata assim. Não se abraça, apesar do aperto de mão caloroso. Não se liga, apesar da felicidade ao se encontrar. Não falamos de nossos problemas e isso torna tudo agradável e cheio de leveza, muito embora subsista certa superficialidade. Mas já ensaiamos ultrapassar o limite do quase. Semana passada, perguntei por que estava tão calado e meu quase amigo hesitou, começou a falar, mas calou. Eu não insisti.

Tenho muitos colegas, mas é ele que guarda as maiores chances de um dia estar comigo na final da Copa de 2014. É ele que provavelmente vai disputar com outros o título de padrinho do meu primeiro filho. É ele, certamente, dentre os quase amigos que tenho, que logo mais perderá o quase. A não ser que eu o conheça tão completamente que perceba não valer a pena. Ou vice-versa.

16/11/2007

programe-se


Começa hoje o Rock Na Rua 2007. Com a iniciativa da colega Camila Pedrassoli, o festival toma conta do Largo da Rua Chile até amanhã. São 11 bandas por dia, com ingressos a apenas 3 reais. A temporada sai por 5. E com a garantia de que você vai encontrar uma galera gente fina, tomar uma cervejinha gelada e ouvir música da boa. Os destaques de hoje, a partir das 18h, são as bandas Experiência Ápyus, Seu Zé e Rosa de Pedra (não por acaso, bandas de queridos amigos meus). Se vou estar lá? Lógico. Pra saber mais, clique aqui. A gente se encontra na Ribeira.

PROGRAMAÇÃO

Sexta, 16

18h30 - sala de Estar

19h30 - Servantes
19h50 - Ad Vintage
20h30 - Toy Guz
21h10 - Sunset Boulevard
21h50 - Lunares
22h30 - Mafalda Morfina
23h10 - Rosa de Pedra
23h50 - Experiência Ápyus
00h30 - Uskaravelho
01h10 - Seu Zé

Sábado, 17

16h30 - Klamah

17h10 - Sex Bomb
17h50 - Rock Rovers
18h30 - Skiva
19h20 - The Volta
19h50 - The Sinks
20h30 - Brand New Hate
21h10 - MobyDick
21h50 - Fliperama
22h30 - Peixe Côco
23h10 - Reverse Rock

14/11/2007

idema na fogueira

Felizmente ainda existe vida inteligente em Natal. Conforme afirmei no texto Humanidade: projeto inviável, a culpa pelo desastre ecológico no Rio Potengi, que matou cerca de 40 toneladas de peixes do dia para a noite em agosto desse ano, foi mesmo do próprio Idema - Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente. Na época, o órgão responsabilizou única e exclusivamente a empresa de carcinicultura Veríssimo & Filhos, que funciona a todo vapor nas imediações do local do desastre. Agora, após analisar oito volumes do processo, a promotora de Justiça do Meio Ambiente Gilka da Mata concluiu que o Idema é tão responsável pelo desastre quanto a empresa, conforme noticiou o Diário de Natal na edição de hoje.

Segundo o jornal, “O problema é que o Idema foi licenciando os viveiros [da Veríssimo & Filhos] aos poucos. Assim, o técnico responsável vistoriava e relatava dizendo que o projeto estava de acordo com a licença inicial. Mas na realidade, não estava. A principal questão encontrada foi a falta de taludes (divisórias) entre os viveiros e a inexistência de um canal onde os dejetos deveriam permanecer três dias antes de serem descartados no rio, conforme apresentava o projeto inicial. ‘Esse canal não existe, simplesmente não foi instalado. Nem o talude’, afirmou a promotora.”

Eu já tinha cantando a bola, então nem me surpreendi com a notícia. É óbvio que o Idema fez vista grossa. Isso é a cara do pacto social que afunda cada vez mais o Brasil: o funcionário público finge que trabalha, o Governo finge que paga bem, a propaganda governamental finge que tudo funciona, e lá vamos nós ladeira abaixo.

Claro, não vou iniciar uma guerra contra o funcionalismo público. Conheço pessoas que estão nesse setor e realmente trabalham. Infelizmente, trata-se de uma bem-vinda exceção. A maioria mesmo sonha com o emprego público porque é sinônimo de dinheiro certo e trabalho zero. Ignoram, portanto, que a felicidade subsidiada pelo governo enterra nosso país no caos.

O Ministério Público, contudo, parece ser uma outra bem-vinda exceção. Palmas a Gilka da Mata, que abriu processo para responsabilizar os culpados e agora põe nas mãos da Justiça as medidas cabíveis. Eu, por outro lado, fico aqui na minha desesperança de sempre: a Anac já foi, o Idema também, tantos outros já passaram pela berlinda, resta-nos esperar qual será a próxima bola da vez.

12/11/2007

teste activia

Eu fiz o teste Activia. Juro que fiz. Tudo começou como uma experiência empírica para alertar aos meus leitores a veracidade (ou não) das propagandas. Terminou como uma lição de vida que jamais esquecerei, de tocante significado filosófico e altíssimo teor existencialista.

Conforme a garota da propaganda indicava, meu dinheiro seria restituído caso eu não atingisse os objetivos desejados. Você sabe quais os objetivos desejados, ao passo que não vou incorrer no erro de usar palavras de baixo calão para explicar. O fato é que entrei nessa experiência sem medo. Afinal, se nada ocorresse, teria meu dinheiro de volta. Se ocorresse, me livraria de alguns gramas de, bem, você sabe, objetivos desejados.

No dia um, às primeiras colheradas, nada aconteceu além de uma sensação estranha no estômago, um aperto lá dentro, uma coisa que há muito não sentia. Era ansiedade. Afinal, o primeiro passo estava dado. Como um jovem que experimenta a primeira dose de uma droga da moda, eu sabia estar penetrando num universo cheio de meandros labirínticos. Assim permaneci até o quinto dia. Ansiedade e conjecturas. Nada de objetivos desejados.

Do sexto dia em diante, algo estranho aconteceu à minha fisiologia. Passei, como posso dizer?, a gaseificar fervorosamente os ambientes pelos quais circulava. Nada muito anormal, visto que um ser humano padrão faz isso constantemente. Nunca me dei ao trabalho de contar quantas emissões desse naipe meu corpo produz em circunstâncias cotidianas. Até este dia. Foram seis. No dia sete, como um enredo de Dan Brown, foram sete também. Já estava começando a montar hipóteses acerca da relação entre dias e gases quando percebi que no oitavo dia foram dez. Onze se eu contar o da hora que fui dormir (mas já era mais de meia noite, então computei o escore para o dia seguinte).

Foi exatamente no dia onze, porém, em que tudo começou a mudar drasticamente. Para usar uma metáfora suave, avancei do estado gasoso para o estado líquido. Foi bem naquela hora em que você termina de almoçar e se senta diante da tevê para desligar o cérebro. Pois bem, justo ali, quando fiz aquela leve inclinação do tronco para liberar espaço mais embaixo, que senti uma certa umidade. Acompanhada, obviamente, de um cheiro que posso descrever como o de um burro morto por envenenamento com creolina e enxofre.

Entretanto, a situação não era para alardes. Verifiquei meus trajes e a umidade não havia ultrapassado os limites do meu corpo. Estava, portanto, restrita aos meus recônditos. Feliz, fui trabalhar com a certeza de que posso confiar nas multinacionais de produtos laticínios. Afinal, meus objetivos desejados estavam quase se concretizando.

Não fosse o décimo segundo dia, diria que realmente se concretizaram. Pois o que produzi neste dia pode ser chamado de tudo, menos de concreto. Descrevo aquilo como uma espécie de trufa derretida com recheio de urubu em putrefação. Ah, sim, e não posso esquecer das dores de parturiente sofridas para que aquela pasta cor de chocolate viesse à luz. Não sei se era menino ou menina, mas definitivamente não era a cara do pai.

E no décimo terceiro dia, tudo saiu do controle. Cabalístico? Não sei. O que posso dizer é que o dia treze só não foi pior porque não era uma sexta. Em resumo, poupando os leitores de descrições escatológicas, visto que o intuito do artigo é apenas esclarecer os incautos dos riscos da propaganda não enganosa, acordei todo cagado. Em desespero, corri para o banheiro. Não sei se foi o nervosismo ou ainda o efeito Activia em meu corpo, só sei que o rastro que deixei atrás de mim, parafraseando García Márquez, não era do meu sangue na neve.

Em convulsionados movimentos, me contorci por exatos trinta e sete minutos sobre o trono de porcelana. Eu sei, eu sei, a imagem do vaso sanitário como trono é antiqüíssima, muitíssimo usada, quase um clichê, mas não posso evitar. Naquele momento, por todas as dores e cólicas e palavrões disparados contra a multinacional de laticínios em questão, eu era um rei.

No décimo quarto dia estava internado, usando pela primeira vez meu plano de saúde. Ele me garantiria enfermaria, mas resolveram isolar-me num apartamento devido ao teor altamente corrosivo de minha produção gasosa. Uma enfermeira que veio cuidar de mim ao início do dia quinze, espantou-se com o ruído muito peculiar de uma de minhas (incontáveis) excreções. Em poucos instantes, ela corria aterrorizada pelo quarto, com os olhos lacrimejados e uma terrível expressão de dor, enquanto berrava “Fui envenenada pelo gás sarin!”.

Foi com uma roupa de plástico onde pude ler “Risco de contágio biológico” que o médico me deu alta ao final do dia quinze. Voltei pra casa debilitado, mais magro, ainda com a estranha sensação de que eu era uma arma química. O importante é que o objetivo desejado foi alcançado. A lição que aprendi, por fim, de alto teor filosófico e elevado grau de sabedoria, é a mais óbvia: Activia é uma merda.

06/11/2007

preconceito com preconceituosos, parte II

“Se há algo que vem faltando ao debate público brasileiro é o princípio da caridade, descrito pelo grande filósofo analítico norte-americano Willard van Orman Quine. É a regrinha heurística segundo a qual, no curso de uma disputa intelectual, devemos conceder às declarações analisadas, principalmente às que vêm de nossos oponentes, a mais generosa interpretação possível. Isso significa que devemos tratá-las em princípio como racionais e bem-intencionadas. Só poderemos considerá-las falaciosas quando não houver outra leitura possível.”
Hélio Schwartsman, filósofo e jornalista

O trecho acima vem do texto “Aborto e caridade”, publicado na Folha em 1º de novembro. Se os que discordam do meu pensamento explanado no texto “Tenho preconceito com preconceituosos” (publicado logo aí embaixo) tivessem se dado ao trabalho de usar o princípio da caridade citado por Schwartsman, não precisaria voltar ao assunto. Mas não aconteceu. E lá vou eu novamente.

Preconceito é muito mais do que gostar ou não de uma vertente musical. Como adiantei nos comentários do post anterior, o preconceito segrega grupos inteiros da população (quer sejam étnicos, sociais, sexuais), gera conflitos armados que muitas vezes evoluem a guerras de grandes proporções e, como não bastasse, tira as oportunidades de muitos ao separar a sociedade em castas que, segundo o princípio da segregação, dominam umas às outras. Nada disso acontece com o cara que ouve rock em meio a pagodeiros.

Ainda sobre o preconceito in natura, o próprio Hélio Schwartsman publicou texto há alguns dias em que falava um pouco sobre ele. Em “O DNA do racismo”, o filósofo e jornalista da Folha fala sobre o real argumento que deve ser usado para combater o racismo e outros tipos de preconceito: “O argumento contra o racismo, o sexismo e outras chagas que desde sempre atormentam a humanidade deve ser moral. De outra forma, se um dia inventarem um teste confiável para medir a inteligência e ele mostrar discrepâncias entre grupos, o que acontece? O racismo estará legitimado?”

O que pretendo com essa enchente de citações é mostrar que preconceito de verdade, racial, social, sexual, o preconceito que vitima, macula, violenta, segrega, nada tem a ver com gosto musical. Você foi estudar numa escola de playboys onde todos achavam que roqueiro era maconheiro? Tadinho de você. Você sofre porque os amantes de música brega são destratados nos cadernos de cultura? Nossa, estou sensibilizado.

No dia em que você não puder entrar num restaurante porque é negro, ou não puder beijar a boca de quem ama porque ama alguém do mesmo sexo, ou ganhar menos que seus companheiros de trabalho pelo simples fato de ser mulher, ou ainda levar uma surra no meio da rua porque confundiram você com um batedor de carteira, bem, aí sim, podemos falar de preconceito. Por hora, vamos manter a discussão na música sertaneja. Que, ratifico, eu detesto.

01/11/2007

tenho preconceito com preconceituosos

Não é preconceito dizer que detesto música sertaneja. Quem disse? Muito menos considerar a voz de Zezé Di Camargo "um uivo esquizofrênico de gralha". Poxa, por que sempre confundem uma opinião pessoal mais severa com preconceito?

Escrevo isso motivado pelo artigo “É o preconceito que mexe com minha cabeça e me deixa assim”, de Thiago de Góes, publicado em seu blog Contos Bregas. Pois bem, Thiago, escrevo diretamente a você. Não concordo quando defende a tese de que a única motivação para falar mal do sertanejo é o preconceito. Engano seu. O gosto pessoal fala muito nessas horas e não estou dizendo que o rock defendido por Diogo Salles é o mais alto representante da cultura erudita. Não é. Apenas se difere do sertanejo no que tem de criativo, ousado, estimulante.

(Explico: o artigo de Thiago de Góes foi motivado pela polêmica em torno do artigo "Somos todos bregas" de Diogo Salles publicado no Jornal da Tarde, no qual ele escracha a música sertaneja, e que foi respondido dias depois, no mesmo veículo, pelo texto "Vamos vestir a camisa dos bregas" de Zezé Di Carmargo).

Zezé de Carmargo & Luciano numa
foto bem natural
: prefiro não comentar...

Eu detesto música sertaneja. Aquela sonoridade me irrita,
aquelas roupas me dão vergonha alheia e aquelas letras forçosamente sofredoras e sentimentalóides ultrapassam qualquer limite de compaixão pelas diferenças. Não é preconceito. É conceito mesmo. Testado exaustivamente pela superexposição desse tipo de psedomanifestação artística na mídia e aprovado pela sobrevivência da minha sanidade. Entretanto, defendo veementemente o direito de todos em ouvir o que quiser sem ser taxado disso ou daquilo. Você gosta de sertanejo, Thiago? Tudo bem. Eu detesto e quero que esteja tudo bem também.

Transformaram o sertanejo numa voz do povo, mas o termo é exatamente esse: transformaram. Não há autenticidade nem desejo artístico nesse grande mercado de duplas que produzem vibratos. É apenas mercado. Claro, até ouviria Xitãozinho & Xororó numa hora em que estivesse bêbado e bem acompanhado, apenas pelo que há de kitsch. Mas um tipo de música que só suporto se estiver imerso num barril de cachaça tem algo de errado.

Não confundamos as coisas, porém. O sertanejo nada tem a ver com o brega. O segundo é autêntico, feito com o tempero do escracho, propositadamente popular. Mas não é enfiado goela abaixo do público. A estratégia mercadológica do brega tem muito a ver com a do rock: independente, libertária, provocadora. E fique claro: não gosto de brega. Mas reconheço seu valor artístico.

Sandy & Júnior no início da carreira... Ah, num é não?

Não podemos sair por aí acusando de preconceito todos que têm opiniões firmes, e portanto contundentes, acerca de assuntos dos quais discordamos. Isso sim é preconceito. E eu tenho preconceito do preconceito dos preconceituosos. Entendeu como é uma argumentação vazia, uma retórica vaga? É o caminho fácil para quem pretende defender algo indefensável.

O sertanejo precisa de um banho de respeito à própria tradição. Passar vinte anos de carreira rimando amor com dor não é necessariamente um exemplo de fazer arte. A música, obviamente, não tem regras. É o seu encanto, seu segredo. Toca muita gente, de várias maneiras, sem explicação. Respeito todos que curtem qualquer gênero, do erudito ao funk carioca. Mas não admito ser chamado de preconceituoso só porque meus ouvidos me advertem que aquilo tudo não presta. Definitivamente, não.