06/11/07

preconceito com preconceituosos, parte II

“Se há algo que vem faltando ao debate público brasileiro é o princípio da caridade, descrito pelo grande filósofo analítico norte-americano Willard van Orman Quine. É a regrinha heurística segundo a qual, no curso de uma disputa intelectual, devemos conceder às declarações analisadas, principalmente às que vêm de nossos oponentes, a mais generosa interpretação possível. Isso significa que devemos tratá-las em princípio como racionais e bem-intencionadas. Só poderemos considerá-las falaciosas quando não houver outra leitura possível.”
Hélio Schwartsman, filósofo e jornalista

O trecho acima vem do texto “Aborto e caridade”, publicado na Folha em 1º de novembro. Se os que discordam do meu pensamento explanado no texto “Tenho preconceito com preconceituosos” (publicado logo aí embaixo) tivessem se dado ao trabalho de usar o princípio da caridade citado por Schwartsman, não precisaria voltar ao assunto. Mas não aconteceu. E lá vou eu novamente.

Preconceito é muito mais do que gostar ou não de uma vertente musical. Como adiantei nos comentários do post anterior, o preconceito segrega grupos inteiros da população (quer sejam étnicos, sociais, sexuais), gera conflitos armados que muitas vezes evoluem a guerras de grandes proporções e, como não bastasse, tira as oportunidades de muitos ao separar a sociedade em castas que, segundo o princípio da segregação, dominam umas às outras. Nada disso acontece com o cara que ouve rock em meio a pagodeiros.

Ainda sobre o preconceito in natura, o próprio Hélio Schwartsman publicou texto há alguns dias em que falava um pouco sobre ele. Em “O DNA do racismo”, o filósofo e jornalista da Folha fala sobre o real argumento que deve ser usado para combater o racismo e outros tipos de preconceito: “O argumento contra o racismo, o sexismo e outras chagas que desde sempre atormentam a humanidade deve ser moral. De outra forma, se um dia inventarem um teste confiável para medir a inteligência e ele mostrar discrepâncias entre grupos, o que acontece? O racismo estará legitimado?”

O que pretendo com essa enchente de citações é mostrar que preconceito de verdade, racial, social, sexual, o preconceito que vitima, macula, violenta, segrega, nada tem a ver com gosto musical. Você foi estudar numa escola de playboys onde todos achavam que roqueiro era maconheiro? Tadinho de você. Você sofre porque os amantes de música brega são destratados nos cadernos de cultura? Nossa, estou sensibilizado.

No dia em que você não puder entrar num restaurante porque é negro, ou não puder beijar a boca de quem ama porque ama alguém do mesmo sexo, ou ganhar menos que seus companheiros de trabalho pelo simples fato de ser mulher, ou ainda levar uma surra no meio da rua porque confundiram você com um batedor de carteira, bem, aí sim, podemos falar de preconceito. Por hora, vamos manter a discussão na música sertaneja. Que, ratifico, eu detesto.

5 comentários:

Thiago de Góes disse...

respondido de novo: http://contosbregas.zip.net/arch2007-11-01_2007-11-30.html#2007_11-06_14_12_20-8564639-29

Tcrisss disse...

... e me sinto tão emocionada a cada postagem sua ...

Bia Madruga disse...

menine, voce nem me falou que tinha me indicado pro troço lá da seletiva. encontrei agora, por acaso, na coluna de fialho no site do je.
depois me informa direitinho como isso funciona, ta?
meu e-mail está às ordens.

brigadao
:******

Fábio Farias disse...

concordo com tudo o que foi dito :)

Não acho que o brega sofre preconceito nas editorias de cultura, acho apenas que as pessoas que fazem parte dessa editoria simplesmente não ouvem esse tipo de música. Até porque o perfil das pessoas que se dedicam a esse tipo de editoria, geralmente não bate com o perfil daqueles que ouvem brega ou sertanejo.

E comparar preconceito musical com racial é exagero. O musical não é preconceito é algo mais de brincadeira, não há uma segregação. Diferente do racial. Aquele que ouve sertanejo não é submetido a humilhações, pode ser motivo sim de tiração de onda, mas vá lá, isso é normal e acho que todos somos adultos o suficiente para conviver com brincadeirinhas sobre gostos musicais.

Enfim, concordo contigo Patrício :)

Carito disse...

Aqui me parece que cabe mais de um valor descoberto, como: a necessidade da tolerância, o respeito ao gosto (ou ao desgosto), e a importância da qualidade. E se gosto não se (d)escute... e a qualidade? Se discurte? Sem preconceitos com trocadilhos, mal-tematicamente inventando, se fizermos uma “brega de três” simples, eu pergunto se as grandezas do rock e do sertanejo são inversamente proporcionais, o que gera uma “briga de três” composta, muito bem posta nessa mesa.

Caro Patrício, estou dândi um tom meio zé, explicando pra confundir, e dizer que adorei vir aqui. Parabéns pelo texto, parabéns pelo blog! CAFÉ COM LÍTIO PARA TODOS!