Não é preconceito dizer que detesto música sertaneja. Quem disse? Muito menos considerar a voz de Zezé Di Camargo "um uivo esquizofrênico de gralha". Poxa, por que sempre confundem uma opinião pessoal mais severa com preconceito?
Escrevo isso motivado pelo artigo “É o preconceito que mexe com minha cabeça e me deixa assim”, de Thiago de Góes, publicado em seu blog Contos Bregas. Pois bem, Thiago, escrevo diretamente a você. Não concordo quando defende a tese de que a única motivação para falar mal do sertanejo é o preconceito. Engano seu. O gosto pessoal fala muito nessas horas e não estou dizendo que o rock defendido por Diogo Salles é o mais alto representante da cultura erudita. Não é. Apenas se difere do sertanejo no que tem de criativo, ousado, estimulante.
(Explico: o artigo de Thiago de Góes foi motivado pela polêmica em torno do artigo "Somos todos bregas" de Diogo Salles publicado no Jornal da Tarde, no qual ele escracha a música sertaneja, e que foi respondido dias depois, no mesmo veículo, pelo texto "Vamos vestir a camisa dos bregas" de Zezé Di Carmargo).
Zezé de Carmargo & Luciano numa
foto bem natural: prefiro não comentar...
Eu detesto música sertaneja. Aquela sonoridade me irrita, aquelas roupas me dão vergonha alheia e aquelas letras forçosamente sofredoras e sentimentalóides ultrapassam qualquer limite de compaixão pelas diferenças. Não é preconceito. É conceito mesmo. Testado exaustivamente pela superexposição desse tipo de psedomanifestação artística na mídia e aprovado pela sobrevivência da minha sanidade. Entretanto, defendo veementemente o direito de todos em ouvir o que quiser sem ser taxado disso ou daquilo. Você gosta de sertanejo, Thiago? Tudo bem. Eu detesto e quero que esteja tudo bem também.Transformaram o sertanejo numa voz do povo, mas o termo é exatamente esse: transformaram. Não há autenticidade nem desejo artístico nesse grande mercado de duplas que produzem vibratos. É apenas mercado. Claro, até ouviria Xitãozinho & Xororó numa hora em que estivesse bêbado e bem acompanhado, apenas pelo que há de kitsch. Mas um tipo de música que só suporto se estiver imerso num barril de cachaça tem algo de errado.
Não confundamos as coisas, porém. O sertanejo nada tem a ver com o brega. O segundo é autêntico, feito com o tempero do escracho, propositadamente popular. Mas não é enfiado goela abaixo do público. A estratégia mercadológica do brega tem muito a ver com a do rock: independente, libertária, provocadora. E fique claro: não gosto de brega. Mas reconheço seu valor artístico.
Sandy & Júnior no início da carreira... Ah, num é não? Não podemos sair por aí acusando de preconceito todos que têm opiniões firmes, e portanto contundentes, acerca de assuntos dos quais discordamos. Isso sim é preconceito. E eu tenho preconceito do preconceito dos preconceituosos. Entendeu como é uma argumentação vazia, uma retórica vaga? É o caminho fácil para quem pretende defender algo indefensável.O sertanejo precisa de um banho de respeito à própria tradição. Passar vinte anos de carreira rimando amor com dor não é necessariamente um exemplo de fazer arte. A música, obviamente, não tem regras. É o seu encanto, seu segredo. Toca muita gente, de várias maneiras, sem explicação. Respeito todos que curtem qualquer gênero, do erudito ao funk carioca. Mas não admito ser chamado de preconceituoso só porque meus ouvidos me advertem que aquilo tudo não presta. Definitivamente, não.
9 comentários:
Patrício,
Tréplica em http://contosbregas.zip.net/arch2007-11-01_2007-11-30.html#2007_11-01_16_33_57-8564639-0
patrício,
como só o conheço,por enquanto, virtualmente,torço para que vc se mantenha fiel à sua tese (ou conceito): de não gostar de música
sertaneja. sigo a sua cartilha.
sem dúvida, a GRANA fala mais alto que o gosto das pessoas. desse tipo de música (?) derivam-se roupas, chapéus, jeito de falar... e por aí vai...
por outro lado, por que não divulgam com a mesma ênfase o programa da inezita barroso ( e sua bela história de " musa" da música caipira (de raiz)???
com a palavra, os "entendidos".
abs.tertu
Só não é legal subjulgar ou inferiorizar pessoas e suas preferência musicais. Fora isso, viva a diversidade!
http://meuambiente.wordpress.com
- thiago, li a tréplica. estou preparando a quadpéplica.
- tertu, pode ficar tranquilo, minhas raízes são na guitarra elétrica.
- patricia, vc entendeu perfeitamente o que quis dizer. obrigado!
Eu acho cabelo de preto algo tão ruim que para mim faria mais sentido servir de base em vasos para samambaias. Não é preconceito. É apenas uma opinião pessoal mais severa.
É tudo muito relativo. Depende de muitos contextos. De quem fala. De quem escuta.
Cursei meu pré-vestibular num colégio que à época abrigava a mais alta elite potiguar. E lá, por ouvir, pasmem, o Rappa, ganhei o apelido de "maconheiro". E de vários amigos ouvi frases como "eu não gosto de roqueiro, mas de você eu gosto". Talvez seja uma frase boba. Mas se eu chegasse para você e dissesse: "Eu não gosto de preto, mas de você eu gosto", como você se sentiria?
Acho que Thiago se sente discriminado pois vive num meio inverso. Os cadernos culturais comentam show a show do MADA, uma porção de bandas no geral muito ruins que as pessoas só ouvem esperando a atração principal, mas, com excessão das colunas sociais, nada relatam do show da Banda Eva, do Calypso, do Aviões do Forró e de Zezé Dicamargo. O que faz Marcelo D2 mais cultural que Durval Lelis?
Tenho certeza que na CAP Thiago não se sentiria discriminado como me senti. Mas ao entrar na UFRN, parecia ter encontrado meu mundo. Eu gostava de Rappa e lá eu era careta.
No fundo, acho uma pena. Sempre acreditei que a música era um mecanismo para unir semelhantes. É mais ou menos o que é defendido em Alta Fidelidade. Nós não gostamos das pessoas pelo que elas são, mas pelo que elas gostam. Se tudo que mais gosto na vida é música, gostarem mais das pessoas que gostarem da mesma música que eu.
Mas, mais do que nunca, a música é usada para separar os diferentes. Defini-se o que se gosta e exclui-se aquilo que não se gosta. Parece a mesma coisa, mas não. No primeiro caso, a intenção era fazer amigos. No segundo, inimigos.
Conheço muita gente que diz gostar de certas coisas apenas para se sentir superior a outras gentes. Talvez para compensar outras deficiências. Se o cara não vence por sua aparência física ou carisma, o jeito é ganhar no intelecto ou na atitude. Ele pode até comer mais mina do que eu. Mas só eu entendo o quão revolucionário é o último disco do Radiohead. Assim como conheço muito playboy que porque agora escuta Aviões do Forró se acha melhor que aquele nerd que só escuta música americana. De certa forma, este rancor conforma e conforta.
Nossa visão de preconceito é bem distinta. Enquanto você acha que se trata de um mal a ser combatido, eu já entendo como um característica humana a ser entendida e controlada. Eu realmente tenho a visão citada no início deste comentário. É triste. Mas tenho uma porção de outras visões positivas acerca dos negros que me fazem me sentir orgulhoso sempre que lembro que possuo um amigo negro como você. Mas talvez estejamos apenas dando nomes diferentes para a mesma coisa, e o que você chama de opinião mais severa, eu chamo de preconceito.
Abraços.
o que é kitsch?
- ápyus, é meio forçado comparar gosto musical com preconceito racial, não acha? há uma questão moral no preconceito racial que nada tem a ver com "eu prefiro pagode" ou "eu prefiro jazz". o preconceito racial é uma chaga social, que cria desigualdades cruéis e até mesmo guerras. é uma questão profunda, que não pode ser discutida na base do silogismo. já gosto musical, bem, desculpa se vc leva a música tão a sério, mas é apenas um gosto. não isola pobres nas favelas nem mata civis com tiros a queima roupa.
- bia, kistch, em resumo, é algo tão ruim, mas tão ruim, que se torna bom. por exemplo, aquele filme "Serpentes a bordo". todo mundo sabia que era uma merda, e virou hit justamente por ser uma merda. mais ou menos isso.
Patrício,
Concordo plenamente quando você fala que preconceito e opção musical são coisas completamente diferentes, as pessoas são livres para falar e expor o que gostam ou não, podemos mesmo até criticar, mas isso não chega ser preconceito. Hoje eu vejo situações gritantes que naturalmente poderiam ser chamadas de preconceito que não vale a pena nem comentar...
Na questão do sertanejo, eu particularmente não curto muito não, nem a música e muito menos em seu estilo de vestir, com todos aqueles acessórios. Vale lembrar que eu não estou sendo PRECONCEITUOSA, é apenas minha OPINIÃO.
Abraço!
me envergonha ser, um ser humano ao ler um comentário tão rídiculo feito o do marlos ápyus...
triste!
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