A minha infância toda passando nas capas daqueles discos. Fazia tanto tempo. Juro que pensei ser um sonho ou uma memória tão forte que vem com exatos cheiros, cores e gostos. Mas não. Era a realidade. Eles estavam todos ali. Abelhudos, Trem da Alegria, Balão Mágico, Topo Giggio e a indefectível discografia da Xuxa. Todo mundo tinha disco da Xuxa.
Simony era a estrela maior do Balão Mágico e fazia com Jairzinho duetos românticos. Ninguém poderia imaginar que ela viraria ex-mulher de ex-presidiário. Já o filho de Jair Rodrigues era uma criança feia de doer, que despertava a simpatia mais pela pena do que pela identificação. Os dois formavam uma espécie de casalzinho romântico infantil. Naquela época, eu não sabia o que era pedofilia.
No rastro desse sucesso, vinha o Trem da Alegria com o inesquecível Juninho Bill. Era tempo de cantar “O gato de botas” e dizer “Juninho Bill pra presidente do Brasil”. Que fim levou ele, hein? Fui atrás no Google: agora é vocalista de uma banda de rock obscura e tenta não ser mais o Juninho Bill. Apesar do público, nos shows, sempre pedir pra ele tocar “Piuí, piuí, piuí, abacaxi”.
Mas ninguém fazia um sucesso tão aterrador quanto Xuxa. Autodenominada “a rainha dos baixinhos”, a loira ditou tendências e influenciou, para o bem ou para o mal, toda uma geração. Mês passado, ela veio à Natal gravar seu novo programa. O que eu vi de marmanjo dizendo que queria conhecê-la foi assustador. Com uma ponta de emoção contida, como estivessem mais próximos que nunca de realizar um sonho de infância, falavam: queria ver a Xuxa. Eu também queria, devo confessar. Mulher inacessível, ícone de uma época, La Meneghel soube fazer de si mesma uma interessante personagem. Amigos que estavam na produção do programa me disseram que ela é exatamente como na TV: quer dizer, ou Xuxa finge o tempo inteiro que é retardada, ou efetivamente é.
Enquanto revejo a capa de seu primeiro disco, com o peitinho da rainha vazando na blusa transparente, meus amigos brincam dizendo de cor o endereço do Xou da Xuxa. Rua Saturnino de Brito, 74, Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Este é o endereço mais famoso dos oitenta. Tenho certeza que há excursões para lá, diversos trintões guiados por uma ex-paquita que agora ganha a vida nos escombros de um sucesso avassalador.
Por falar nas Paquitas, elas também estavam lá. Presentes num LP que tinha quatro loiras na capa e três na contracapa. A decisão foi tomada com base na beleza: as bonitas na frente, as feias atrás. Um péssimo exemplo. Talvez por atitudes assim, minha geração seja ultrafocada na própria aparência. Talvez. Não quero colocar a culpa em ninguém além de nós mesmos. Afinal, nós fizemos esses ídolos. Nós escolhemos gostar do fútil “bom dia, amiguinhos, já estou aqui”. Meus amigos falam da nave espacial, dos pompons do auditório, das pernas das Paquitas. A riqueza de detalhes é tão grande que fico aguardando o Moderninho surgir de trás do sofá para anunciar o baixinho sorteado.
Vou recolocando os discos de volta à estante. Um a um. Minha infância contada em faixas de vinil, lembranças compostas por Michael Sullivan e Paulo Massadas. Quem sabe eu fosse uma pessoa melhor se tivesse ouvido só ópera. Ao invés disso, sou produto de uma época que é exatamente como as balas que amava na infância: colorida e saborosa, mas vazia e desnecessária. Como diria Xuxa: a vida é um doce.
Simony era a estrela maior do Balão Mágico e fazia com Jairzinho duetos românticos. Ninguém poderia imaginar que ela viraria ex-mulher de ex-presidiário. Já o filho de Jair Rodrigues era uma criança feia de doer, que despertava a simpatia mais pela pena do que pela identificação. Os dois formavam uma espécie de casalzinho romântico infantil. Naquela época, eu não sabia o que era pedofilia.
No rastro desse sucesso, vinha o Trem da Alegria com o inesquecível Juninho Bill. Era tempo de cantar “O gato de botas” e dizer “Juninho Bill pra presidente do Brasil”. Que fim levou ele, hein? Fui atrás no Google: agora é vocalista de uma banda de rock obscura e tenta não ser mais o Juninho Bill. Apesar do público, nos shows, sempre pedir pra ele tocar “Piuí, piuí, piuí, abacaxi”.
Mas ninguém fazia um sucesso tão aterrador quanto Xuxa. Autodenominada “a rainha dos baixinhos”, a loira ditou tendências e influenciou, para o bem ou para o mal, toda uma geração. Mês passado, ela veio à Natal gravar seu novo programa. O que eu vi de marmanjo dizendo que queria conhecê-la foi assustador. Com uma ponta de emoção contida, como estivessem mais próximos que nunca de realizar um sonho de infância, falavam: queria ver a Xuxa. Eu também queria, devo confessar. Mulher inacessível, ícone de uma época, La Meneghel soube fazer de si mesma uma interessante personagem. Amigos que estavam na produção do programa me disseram que ela é exatamente como na TV: quer dizer, ou Xuxa finge o tempo inteiro que é retardada, ou efetivamente é.
Enquanto revejo a capa de seu primeiro disco, com o peitinho da rainha vazando na blusa transparente, meus amigos brincam dizendo de cor o endereço do Xou da Xuxa. Rua Saturnino de Brito, 74, Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Este é o endereço mais famoso dos oitenta. Tenho certeza que há excursões para lá, diversos trintões guiados por uma ex-paquita que agora ganha a vida nos escombros de um sucesso avassalador.
Por falar nas Paquitas, elas também estavam lá. Presentes num LP que tinha quatro loiras na capa e três na contracapa. A decisão foi tomada com base na beleza: as bonitas na frente, as feias atrás. Um péssimo exemplo. Talvez por atitudes assim, minha geração seja ultrafocada na própria aparência. Talvez. Não quero colocar a culpa em ninguém além de nós mesmos. Afinal, nós fizemos esses ídolos. Nós escolhemos gostar do fútil “bom dia, amiguinhos, já estou aqui”. Meus amigos falam da nave espacial, dos pompons do auditório, das pernas das Paquitas. A riqueza de detalhes é tão grande que fico aguardando o Moderninho surgir de trás do sofá para anunciar o baixinho sorteado.
Vou recolocando os discos de volta à estante. Um a um. Minha infância contada em faixas de vinil, lembranças compostas por Michael Sullivan e Paulo Massadas. Quem sabe eu fosse uma pessoa melhor se tivesse ouvido só ópera. Ao invés disso, sou produto de uma época que é exatamente como as balas que amava na infância: colorida e saborosa, mas vazia e desnecessária. Como diria Xuxa: a vida é um doce.
1 comentários:
a minha infancia pega um pouco da sua.. mas talvez tenha sido um pouco mais superficial, porque dançávamos "é o tchan" e não balaozinho magico.
:T
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