31/01/2008

não veja

É comum ouvir gente falando mal da Veja. Você mesmo já deve ter soltado um “Leu na Veja? Problema seu”. Não que a revista desmereça a maledicência, mas é inegável que muitos falam só por falar. Está na moda ser de esquerda. Quando fui jurado da Veja Natal, na votação que elegeu os melhores bares da cidade em 2007, muitos amigos me criticaram. Diziam que eu tinha me vendido. Antes fosse. Não ganhei nenhum tostão pelo serviço e ainda fui chamado de “redator que se diz escritor” por um notório excremento da imprensa local.

Esse fato ilustra como o mais importante semanário brasileiro ganhou o ódio de muitos com sua linha editorial tendenciosa, recheada de achincalhamentos contra seus desafetos e com a famosa lista negra em plena operação. Esse mítico instrumento da revista direciona seu poder de formar opinião contra os inimigos do Grupo Abril. Alguns, de tão odiados, têm a simples citação de seus nomes expressamente proibida. Tudo isso, é claro, nunca foi devidamente comprovado. Agora, na Era Lula, a revista se posicionou claramente contra o PT e todo o seu séqüito. E a ética começou a patinar no já tendencioso jornalismo da Veja.

Pois bem, indo na contramão do lugar-comum das críticas, o jornalista econômico Luis Nassif produziu uma pérola do jornalismo contemporâneo. Nunca, sinceramente, tinha visto alguém falar mal da menina dos olhos da Editora Abril com tanta propriedade como ele vem fazendo no projeto Fenômeno Veja. Nassif, jornalista com larga experiência, comentarista de economia da TV Cultura, decidiu fazer um amplo levantamento sobre a revista depois que passou a integrar a famosa lista negra. A intenção é mostrar didaticamente como o semanário se transformou no que é hoje: “O maior fenômeno de anti-jornalismo dos últimos anos”, segundo ele.

Luis Nassif: guerra contra o anti-jornalismo da Veja

Fenômeno Veja é um blog no qual, periodicamente, Nassif publica reportagens sobre o avanço do anti-jornalismo na editoria da revista. Divididas como se fossem capítulos de um livro, cada uma com um tema específico, essas reportagens já abordaram assuntos como:
- As matérias baseadas em dossiês (muitas vezes falsos e produzidos por lobistas): “Ao longo de toda a década, esse tipo de jogo criou uma promiscuidade perigosa entre jornalistas e lobistas”;
- As sucessivas mudanças de comando na revista até chegar à formação atual: “Nos anos 90 houve uma sucessão de diretores seguindo um padrão: os que entravam eram jornalisticamente inferiores aos que eram substituídos”;
- A guerra entre as cervejarias brasileiras e a possível venda indevida de espaço jornalístico para uso em campanhas publicitárias: “As notas visavam criar expectativa em cima de suas campanhas [da Kaiser], reforçar sua imagem, em um mercado onde a imagem tem efeito direto sobre o valor das contas”.


Matérias baseadas em dossiês:
uma marca da Veja, eles nem sempre são verdadeiros


Nem precisa ser especialista em comunicação, no entanto, para perceber as pisadas de bola que a Veja vem dando. De dossiês falsos a tentativas de desmoralização gratuita de personalidades (nem Che Guevara escapou, no emblemático episódio em que um biógrafo americano do revolucionário teve suas opiniões deturpadas e espalhou por aí um e-mail rechaçando a revista). No site do Nassif, você conhecerá os bastidores desses deslizes. Quer um exemplo? A matéria “O mensalinho da filha de Elis” acusava a cantora Maria Rita de distribuir iPods entre os críticos de música para que eles chancelassem seu CD de estréia. O que não foi publicado é que semanas antes Maria Rita havia negado uma entrevista exclusiva ao periódico. Resultado: a filha de Elis Regina foi parar na lista negra.

Enquanto lia o blog, me assustei com o fato de já ter visto diversas dessas coisas acontecendo na imprensa local. Da venda indevida de espaço jornalístico para campanhas publicitárias – a famosa “matéria paga”, que diverge do “informe publicitário” por não ter nada indicando ao leitor que foi paga e, portanto, não goza da credibilidade editorial do veículo – até o uso do poder da mídia para difamar pessoas. Com as eleições municipais se aproximando, isso fica ainda mais gritante. Abra um jornal local que simpatiza com um determinado grupo político e você vai comprovar. Infelizmente, o fenômeno Veja não tomou conta apenas da Veja. E esse projeto de Nassif poderia até servir pra dar um pouco de vergonha na cara dos pseudojornalistas potiguares que infestam nossa imprensa, envergonham quem faz um trabalho sério e transformam a profissão num completo desserviço.

Diversos outros fatos controversos são expostos por Nassif. Incluindo aí o antológico episódio do “Boimate”, o caso de falsa notícia mais famoso do Brasil. Aconteceu em 1983, quando a revista inglesa New Science seguiu a tradição britânica de publicar mentiras no dia 1º de abril. Tratava-se do maior avanço da história da ciência até então: a fusão de genes bovinos com um pé de tomate (!), que daria frutos semelhantes a um filé ao sugo (!!), com tecnologia desenvolvida na Universidade de Hamburgo (!!!) pelo professor McDonald (!!!!). Pois bem, a Veja publicou esta notícia como se fosse verdade. Não obstante, buscou a opinião de biólogos da USP para dar mais respaldo à matéria. O desmentido só aconteceu dois meses depois, assim mesmo só porque o Estadão publicou reportagem sobre o embuste.

O Boimate, por Cida de Oliveira:
cruzamento entre boi e tomate é alardeado
pela veja como se fosse verdade


Fruto de um levantamento criterioso, muito responsável e de extrema importância à imprensa nacional, Fenômeno Veja é uma daquelas coisas que só poderiam acontecer na internet. E exatamente por isso, o autor vem pagando um alto preço. “Aproveitando a situação de fragilidade da Dinheiro Vivo [empresa de sua propriedade], nos últimos tempos fui alvo de toda sorte de calúnias, injúrias e difamações produzidas pelo comando de Veja com o evidente intuito de me intimidar nas críticas que faço à revista”, diz o jornalista em seu blog. Se você pretende ler as história de Nassif, adiante-se. A gente não sabe do que a Veja será capaz para silenciá-lo.

25/01/2008

mac book on air

É a Semana Multimídia do Plog, é? Bom, tá parecendo. A verdade é que nos últimos dias ando lendo pouco e navegando muito. E descobrindo algumas coisas na net que valem a pena ser compartilhadas.

Uma delas é este VT do lançamento do ano da Apple. O Mac Book Air é o laptop mais fino do mundo, com 1,94cm na parte menos estreita. Pesando 1,36kg, o computador tem tela de 13.3 polegadas, teclado de tamanho padrão e uma câmera integrada iSight para vídeo-conferências. Além disso, processador de 1.6 GHz Intel Core 2 Duo com 4MB de cache L2, 2GB de RAM, HD de 80 GB e suporte a Wi-Fi 802.11 e bluetooth. Se você não entende patavina de informática, eu traduzo: é foderoso.

Nada disso, entretanto, aparece na propaganda. Como dizia meu professor de comunicação publicitária, o ilibado e inoxidável Cassiano Arruda, o difícil é ser simples. E nesse quesito, o pessoal da agência da Apple conseguiu atingir o cúmulo da simplicidade. Sabe o que é melhor? Ficou sensacional.

Dê pause no player do post anterior e dê play nesse aqui embaixo. Se gostar da trilha, é só ir atrás da cantora no torrent: ela se chama Yael Naim.



23/01/2008

emo espanhol

É nisso que dá estudar muito. Comecei fazendo espanhol de brincadeira, me apaixonei pela língua, resolvi me aprofundar. Foi um tal de comprar dicionário, ler Dom Quixote no original, baixar filmes espanhóis sem legenda.

De repente, me vi tomado de informações em espanhol. Acesso tpodo dia o El Pais, vejo as opiniões divergentes no El Mundo, cato blogs escritos em castelhano. E quando pensei que já tinha atingido o fundo do poço, eis que encontro no Myspace essa banda que você tá ouvindo. No Somos Nadie é, nada mais nada menos, que uma banda emo que canta em espanhol. E sabe o que é pior? Eu gostei muito! Agora todo dia ouço. Viciado geral.

Destaque para “Yo quiero verte” que é… bem, como posso dizer… ok, muito emo! E também para “Aqui sin ti” que é… er… bem emo também…

Se você encheu o saco, é só dar pause aí embaixo. Se não encheu, segue lendo o resto do blog ao som deles. “Yo quiero veeeeeeeeeeeeerteeeeeeeee”…


EM TEMPO: agradecimentos especiais ao Gabriel Souto, que me deu a dica de como colocar o player do Myspace no post. He he he. Valeu, Gabriel!

21/01/2008

lítio no youtube

Sabe como é, né? Fim de semana ocioso, preguiça de escrever, mas a idéias fervilhando. Então, deu nisso: um VT de divulgação de "Lítio". Quem quiser copiar e colar por ae, sinta-se à vontade.


imagens fortes contra a aids

Campanhas de prevenção contra a Aids há aos montes, mas duvido que você tenham visto uma forte como essa. Com o conceito “A Aids nos torna iguais”, a AIDES – Associação de Luta contra a Aids, uma entidade francesa que luta desde de 1984 contra o preconceito aos soropositivos, usou ícones da cultura pop mundial pra falar de um assunto muito sério. Se você é desses que saem por aí transando sem camisinha, preste bastante atenção nas imagens.

Da mesma entidade, também com imagens fortes, é essa outra campanha. O conceito é “A Aids é um bicho perigoso”. Transa sem camisinha, transa.

18/01/2008

emília & miguel

Ela está preocupada porque Emília vai beijar Miguel. Rói as unhas, sacode os pés sobre o centro da sala, consulta o relógio pra saber se falta muito tempo. O capítulo de hoje está imperdível e ela até esquece da pilha de roupas pra passar, da conta de água atrasada, do telefone sem crédito. Hoje Emília vai beijar Miguel.

Esta semana, viu um anel lindo na revista da Avon. Um anel lindo do jeito que ele disse que um dia daria pra ela. E agora toda vez que lembra dele, ouve aquele forró. Toda vez que ouve aquele forró, lembra dele. Como um círculo vicioso, está presa entre essas duas lembranças, ele e o forró, sendo que nenhum dos dois têm uma ligação direta. Quando estava com ele, não tocou a música. Quando ouviu a música, não estava com ele. Mas ambos estão associados em sua memória, enquanto suspira pensando se o anel que um dia ganhará será tão bonito quanto o que viu na Avon. Custava 25 reais.

Ela cantarola enquanto rói as unhas. Cantarola baixinho, fora de ritmo, desentoada, exatamente como faz toda vez que vai lavar a louça e o CD pirata que comprou há três semanas ecoa pela casa. Acaricia os pratos, os copos, os cabos das facas. Cantando e lembrando dele. Não sabe ao certo onde fica a Europa, mas sabe que é bem longe. Pensa ser um país. Onde todos são loiros, falam com a língua presa e ganham muito dinheiro. Foi de lá que ele veio, direto praquela praia, ela tão queimada, só com o dinheiro da passagem de volta, mas sorrindo pra ele sem entender direito o que ouvia. Antes de ir embora, ele deu um chaveiro em forma de touro. Disse que era símbolo da Espanha e ela entendeu que era a mesma coisa que Europa. Voltou no ônibus lotado segurando forte o presente sem parar de falar nele. A amiga disse que ninguém ia acreditar que aquele chaveiro era espanhol. Mas outra amiga que foi embora com o namorado europeu telefonou um dia e confirmou: lá é cheio de chaveiros em forma de touro.

A novela começa e ela se acalma. Emília ainda não chegou à casa de Miguel, então ela se entrega aos devaneios de um país chamado Europa, com homens loiros e sorridentes, com chaveiros taurinos, com moedas coloridas bem mais bonitas que o real. Pois ele também deu umas moedas na segunda vez que se viram. Disse que era lembrança, que ela podia guardar pra um dia tomarem um café em Madri. Ela quase perguntou se ele morava na Europa ou na Espanha. Agora, estala os dedos lembrando da primeira noite, de como foi rainha, de tudo que aprendeu. Até riu depois lembrando que dizia às amigas que queria casar intocada. Não, não, não esperarava mais por isso. Pois o príncipe encantado estava lá, diante dela, vermelho de sol e dourado nos pêlos.

Naquela tarde, ligou pra uma amiga perguntando se o cobrador aceitaria aquelas moedas. Estava sem dinheiro pra ir trabalhar. A amiga achava que não, mas ela já tinha aprendido, a amiga era invejosa, não conseguia nada mais além de Jair. Coitada. Tão preto, o Jair. Tão pobre, o Jair. O dela se chamava Javier e disse que voltaria para pegá-la. Voltaria para casar, levá-la pra longe, praquele lugar (país?, cidade?, estado?) onde tudo funciona, onde todos são felizes, onde todos têm dinheiro pra passar férias no Brasil.

Emília finalmente está frente a frente com Miguel. Diz que era tudo mentira, que ela não casaria com Augusto Sérgio, tudo não passava de uma armação para separá-los. Miguel quase não acredita, chora, se abraça com ela. Finalmente, olhos nos olhos, violinos ao fundo, respiração ofegante, os dois se beijam. Ela suspira no sofá. E nem se pergunta se ainda vale a pena esperar mesmo depois de quase cinco anos.

10/01/2008

liminar ou censura?

JUIZ PROÍBE IMPRENSA DO RIO DE CITAR NOMES DE AGRESSORES DE PROSTITUTAS NA BARRA
Principais órgãos de comunicação também não podem divulgar imagens dos três jovens

Dez veículos de comunicação do Rio de Janeiro estão proibidos de divulgar imagens e até mesmo citar os nomes de três jovens de classe média que agrediram um grupo de prostitutas na Barra da Tijuca, em novembro passado. Os rapazes descarregaram sobre as vítimas o conteúdo químico de extintores de incêndio.

Os estudantes agora estão protegidos por decisão do juiz Carlos Alfredo Flores da Cunha, do 9º Juizado Especial Criminal do RJ, que aceitou pedido do Ministério Público.

A proibição atinge a Globo, TV Brasil (ex-TVE), Bandeirantes, CNT, Record e Rede TV e os jornais O Globo, Jornal do Brasil, Extra e O Dia, informa o Comunique-se. O descumprimento implicará multa de R$ 10 mil.

Em sua decisão, o juiz escreveu que “primeiramente, são condenáveis os rótulos utilizados em diversos comentários. Pouco interessa a origem ou classe social dos envolvidos, ou a profissão ou gênero a que pertence a vítima: Para ser isenta a matéria deveria relatar um conflito entre dois jovens recém entrados na vida adulta (e por isso penalmente responsáveis) e um outro ser humano (pouco importa se homem ou mulher) que foi agredido”.

Ainda em novembro, dois dos três jovens foram condenados pela Justiça do Rio a prestar serviços comunitários por um ano – no caso, pintar postes e muros. O terceiro jovem era menor de idade e seu caso ainda está em análise.

Fonte: Comunique-se

04/01/2008

o mar e o velho

“Pode ser que eu não esteja tão forte
como penso – admitiu o velho –,
mas conheço todos os truques.”
Ernest Hemingway em O velho e o mar

Às quinze para a meia-noite, quando todos já estavam com seus champanhes em punho, descalços e excitados, devidamente vestidos em branco num alvor que dava ainda mais esperanças no futuro, o velho disse: eu também vou à praia. A frase, ao se estender pela casa, quase sufocou a euforia reinante. Quase mesmo. E só não o fez por completo porque o respeito e alguma noção politicamente correta impediram filhos, netos, genros e noras de tentarem demover o patriarca da idéia.

Estavam a cerca de cem metros da beira-mar e o velho não agüentaria a caminhada. E mesmo que alguns cultivassem a esperança de que ele agüentaria, dificilmente chegariam à praia antes da meia-noite, visto que os passos curtos apoiados na bengala não eram os melhores amigos da pontualidade. Antes que a sensação de impotência recaísse sobre todos os presentes, entretanto, um deles teve a idéia. Vamos de carro. Obviamente, não alcançariam a beira-mar sem que atolassem o veículo, mas encurtariam o máximo de distância possível. Vamos até onde o carro conseguir.

A horda de mais de vinte pessoas, alguns com bebês nos braços, outros carregando frutas, mais alguns de mãos abanando e com o peito recheado de desejos, seguiu caminhando pela avenida. Os passos eram apressados mas contidos, ninguém queria chegar à orla suado ou com os cabelos desfeitos. No caminho, contavam suas uvas, repassavam os pedidos, alguém perguntava pelas romãs. O carro passou por eles próximo ao acesso à praia. Entrou numa viela e seguiu rumo ao mar. O mais próximo que conseguisse. Alguns sorriram ao ver o velho abanando as mãos na janela. Faltavam cinco minutos para a meia-noite.

No estacionamento improvisado, no ponto exato em que o pneu afundou na areia mais que o recomendável e o motorista – tomado de prudência – resolveu não insistir, o velho tentou descer sozinho do carro. Como se mostrasse impossível, contou com a ajuda do filho mais novo e do genro mais velho. Sempre dizendo, é claro, que não precisava, que pode deixar, que eu vou sozinho. Era sabido que não iria. A areia da praia estava fofa, solta, voando com o vento forte daquela noite. Pra completar, a maré estava baixa, aumentando as distância entre o carro e o mar. Faltavam dois minutos para a grande hora quando o patriarca deixou bem claro que fazia questão de molhar os pés.

Fogos iluminaram o céu. Gritos, abraços, aleluias das mais diversas formas. Pois pode prestar atenção: nessa hora, quando todos estouram champanhes e brindam aos próximos 365 dias, fica tudo muito parecido com um louvor de igrejas. Assim, como anjos, abraçados e felizes, a família festejou. Não faltaram beijos na face do velho, todos felizes pela presença dele mas sem saber exatamente por quê – seria o desafio vencido?, ou por não ter causado atrasos?, seria simplesmente porque estava ali?

Com a bengala se enterrando na areia fina e branca, o velho saiu caminhando rumo ao mar. Quase não notavam sua ousadia. Mas o genro correu para apóia-lo, disfarçando sua preocupação com comentários sobre a beleza dos fogos. Lentamente, como é a fisiologia dos que já viveram muito, o velho tirou as sandálias, deixou a bengala cair para o lado, livrou-se do apoio do genro e avançou três passos para dentro da água. A primeira onda do ano novo tocou, então, seus pés.

O filho veio logo em seguida, preocupado, aturdido, incrédulo. Estancou um pouco atrás, deixou o cigarro cair dos lábios e buscou com sofreguidão a máquina fotográfica nos bolsos. Era inacreditável. Ainda com as luzes estourando sobre suas cabeças, todos puderam ver o patriarca mergulhando sozinho no mar.

O sal, os sargaços, o gelado do mar. O velho sentiu cada um desses elementos em seu corpo. E de alguma forma que não sabia precisar, sentia outras coisas que não deveriam fazer parte do oceano. Sua mãe jogando a água da banheira em sua cabeça, o primeiro beijo em meio à chuva, a farda das forças armadas mergulhada em medalhas, o cheiro do cabelo molhado daquela menina do interior, o suor nas mãos até que o médico anunciasse que era menina, o olhar do primeiro neto quando pediu um copo d’água dizendo vovô. Como uma criança de volta ao ventre, rolou na delícia de uma pequena onda, sorriu do seu desequilíbrio, brincou dentro de sua placenta.

Ao ver tanta vida emanando do velho, do seu sorriso de poucos dentes e muitos sentimentos, do seu olhar cinzento mas incrivelmente brilhante, dos seus cabelos que eram brancos mas de repente estavam prateados, todos os outros esqueceram seus pedidos. Com romãs e uvas sem utilidade, só pensavam numa coisa ao voltar pra casa: se jogariam no mar o quanto antes.

02/01/2008

feliz ano velho

O que posso dizer de 2007 é que vai ficar uma saudade difícil de explicar. Primeiro porque um ano, essa coisa de 365 dias, que termina em fogos e desejos e novas velhas promessas, é apenas uma convenção. E eu aprendi isso já aos 9 anos, estudando geografia, todo mundo deve ter passado por essa desilusão. Desde então, sempre me neguei a sentir qualquer tipo de sentimento por um ano específico. Anos são apenas convenções. Até 2007.

Como não sentir saudade de um ano em que discutimos política como ninguém?, todos de olho em Brasília, falando contra ou a favor de Lula, mas falando. Como não sentir saudades de um ano em que as jogatinas, trapaças, enrolações e subterfúgios da política ficaram expostos como nunca? Porque você pode estar do lado do PSDB, do DEM, do PT, do PSOL, você pode até mesmo não estar do lado de ninguém. Mas não tem como negar que 2007 foi um ano especialmente feito para vermos os bastidores, entendermos os escândalos, amadurecermos nossa democracia e nos prepararmos para a forra. Os políticos que nos segurem. A forra vem aí.

Como não sentir saudades de um ano em que ecologia deixou de ser palavra morta em cartaz de cartolina na feira de ciências e passou a ser questão de segurança global? Um ano em que discutimos reutilização de resíduos sólidos, sustentabilidade do planeta, responsabilidade sócio-ambiental das empresas – tudo isto não mais como um argumento de propaganda, mas sim como uma obrigação. Como esquecer um ano em que as pessoas, todas elas, de todas as partes, souberam que não estava tão quente porque era verão. O motivo pra uma cerveja na beira da praia virou outra coisa: aquecimento global. De repente, passamos a ser todos a mesma raça de hominídeo afundando no mesmo barco e lutando contra a tempestade. 2007 vai entrar mesmo pra história.

Eu lembro que antes das tais aulas de geografia, translação e rotação, esses saberes que tiram a poesia da vida, eu amava 1979. Foi o ano em que nasci e isso por si só já era motivo de sobra para carinhos exacerbados. Mas, negando-me a tal egocentrismo, procurei outros motivos para amá-lo. E eis que descobri ser o ano da Anistia Internacional, ano do perdão aos exilados pela Ditadura. Amei 1979 até 1988. Professora Arlete, com seu cinto preso por cadeadinho de diário e sua voz mansa induzindo todos ao sono e sua alegria circunférica e adiposa, nos alertou: é só uma convenção. E comecei 2007 assim, sabe? Meio incrédulo, pensando que astros e energias (e exus até!) não entrariam em conjunção para me garantir 365 dias incríveis, diferentes de todos os outros. Grandes. Professora Arlete, me perdoe, a senhora estava redondamente enganada (ops!). 2007 fugiu de todas as convenções.

Foi um ano bom sim. Começou meio capenga, não posso negar. Fui demitido, perdi pessoas queridas, amigos de repente foram embora pro outro lado do mundo. Mas é típico das novelas que comecem com reveses aos mocinhos. E se isto é uma novela – que até acredito que seja – e eu sou um mocinho – muito improvável, mas vá lá, tudo é possível – então o autor seguiu à risca a tradição latino-americana do dramalhão. E o que começou coalhado e cheirando a desgraça, terminou com um saldo impressionante de viagens, novos amigos, trabalhos, possibilidades.

Encerro 2007 com a sensação de missão cumprida. Estive nos principais eventos literários do país, conheci muitos de meus ídolos das letras, toquei projetos de uma magnitude que eu jamais pensei ser capaz. Eu disse “eu te amo” pra minha mãe. Eu ouvi “eu te amo” do meu sobrinho de dois anos. Eu berrei “eu te amo” depois do amor suado. Eu aprendi que dinheiro é apenas um detalhe e passei a prestar atenção em tantos outros. Sem me dar conta, no sofrimento, na tristeza, nas algumas lágrimas derramadas, fui me tornando uma pessoas melhor, mais consciente dos meus papéis, menos dada a oquidões. De repente, me vi num novo e melhor emprego, numa nova e melhor vida, num novo e melhor eu.

Foram apenas 365 dias. Apenas uma convenção. Mas 2007 deixa em mim uma saudade de quando as coisas não tinham explicações. De quando a gente podia simplesmente dizer: foi tudo graças a Deus.