30/04/2008

o sol e a sílfide

“Words are very unnecessary
They can only do harm”
Depeche Mode,
Enjoy the silence

A gente devia conversar. Desiste desse telefone, esquece o MSN, ao inferno com o Orkut. Eu não vou te mandar e-mails, nem missivas, muito menos sinais de fumaça. A gente devia conversar como era antes: cara a cara, olho no olho, verdade após verdade. A gente devia falar sobre aquele sábado em que ficamos na varanda até oito da manhã e faltou energia e pegamos uma lanterna e tentamos nos comunicar com alguém do prédio ao lado que também levava uma lanterna. Lembra como foi engraçado? Lembra como éramos engraçados?

Não me liga, tá? Vem até aqui, me dá um abraço com gosto de recomeço, diz assim daquele teu jeitinho: a gente não vale um ponto do Bomclube. E vamos, sei lá, encher a cara de vinho, chorar por algum trauma de infância, dizer que ano que vem vai ser melhor. Isso funcionava antes, lembra? A gente planejava o ano que vem durante o ano inteiro. O ano que vem era sempre a mesma coisa, mas batia uma sensação maravilhosa de que estava sendo melhor. Vamos pular ondinhas juntos à zero hora do dia 31 e depois eu deixo você desmaiar de sono pra eu te carregar até o carro.

Não, pára com isso, não tem porque pedir desculpas. Que frescura é essa agora? O que você devia fazer, isso sim, era contar uma daquelas tuas piadas. Daquelas que todo mundo já sabe o final mas é inevitável rir. É que você tem o dom do sorriso. Não se engane, sorrir hoje em dia é um dom. Evita que a gente sangre.

Lembra que falávamos mal de todo mundo, mas ficávamos putos quando sabíamos que alguém falou mal de nós? Lembra que na tua casa tinha sempre Gatorade pra quando eu acordasse de ressaca? Lembra de quando a gente só via beleza um no outro? Pois bem, façamos um trato. Volta a sorrir da minha sinceridade grosseira e da minha arrogância disfarçada de humildade que eu volto a sorrir do teu jeito de adolescente carente e das tuas manias mil. Vai, vamos admitir nossos pecados, no fim das contas nem mais importa quem tinha razão. Nunca fomos santos.

A gente devia mesmo era deixar de coisa pequena, sabe? Nunca combinou com nossa luz. Lembra que a gente tinha luz? A gente chegava num canto e todo mundo nos olhava. Lembra do dia em que eu vomitei todo teu carro, te custou uma nota a lavagem, você teve que me carregar até o quarto num estado deplorável? Lembra que isso virou uma piada deliciosa de contar? O que nos aconteceu que não transformamos mais esse tipo de coisa em piada?

Eu queria te ver frágil de novo, daquele jeito que você ficava que parecia caber na minha mão. Eu queria um momento insólito.

Tem tanta coisa pra te contar. Tanta coisa. Agora eu arrumo a cama quando acordo. Juro por Deus. E aprendi a fazer arroz, carne moída, salada. É sério. Eu tô usando barba, ando meio desgostoso com o tal do cavanhaque. E tenho pensado seriamente em não usar mais brinco. Se você viesse tomar um vinho comigo, eu te contaria mais. Dos meus medos, do meu coração, das orações que faço antes de dormir. Acredita que eu conheci uma mulher com mais de trinta anos que nunca pintou o cabelo? Ai, queria tanto que você me preparasse uma caneca de leite com Ovomaltine.

A gente precisa mesmo sabe de quê? Voltar a ser aqueles grandessíssimos idiotas que todo mundo odiava. Aqueles que faziam piada com tudo. Que riam descontroladamente sem conseguir terminar a frase. Que chegavam na balada às duas da manhã como se fosse absolutamente normal passar cinco horas se arrumando pra dar uma volta no sábado à noite. Essa coisa de virar adulto não nos fez bem.

Coça as minhas costas. Deixa na MTV. Me dá uma carona. Dança comigo. Acende meu cigarro. Troca esse CD. Me deixa usar verbos imperativos contigo, porque eu lembro que você achava bonita essa minha mania de dar ordens. Você via tanta inocência e ao mesmo tempo charme nesse meu jeito torto de ser, falando sem parar de filmes livros gibis novelas contos banalidades. Você adorava quando eu não usava vírgulas.

Você ainda dorme ocupando apenas um cantinho mínimo da cama? Porque eu ainda durmo ocupando a cama inteira.

Sabe o que eu vou fazer agora? Colocar Madonna bem alto e dançar sozinho pela sala. Mas vai ser como se estivesse dançando com você. Eu vou segurar na tua cintura, a gente vai rebolar até lá embaixo, deixar todo mundo chocado. E então eu vou fazer você girar nessa pista, abrir uma clareira no meio da multidão, só vamos parar quando todos não conseguirem tirar os olhos de nós. E quando a música acabar, sabe o que vai acontecer? Vamos sair da pista como se fosse totalmente natural dançar assim.

A gente devia conversar. Mas não sobre as vezes em que nos desentendemos. Foram tão poucas, pra que voltar ao assunto? A gente devia falar mesmo sobre como é extraordinário o fato de nos comunicarmos com os olhos, como é sensacional termos o mesmo hábito de dormir com um copo d’água ao lado, como é incrível que duas pessoas tão completamente diferentes sejam viciadas em profiteroles. A gente devia falar sabe do quê? Da nossa grandeza. Ia ser assunto pra mais de uma semana.

20/04/2008

brasil x espanha: um factóide

A verdade é que a Espanha não é o país inescrupuloso que estão pintando. A verdade é que não é prova alguma de inteligência, ou habilidade diplomática, quiçá coragem barrar espanhóis na imigração. A verdade é que a imprensa brasileira tem dado um destaque desnecessário aos brasileiros repatriados no Aeroporto de Barajas – uma realidade que já completa quatro anos. E, pior ainda, o governo brasileiro tem engolido perfeitamente essa corda. A verdade é que o Brasil deveria, isto sim, aprender algumas coisinhas com a Espanha.

Arrasada por uma Guerra Civil e, em seguida, por uma ditadura de décadas, o maior país da Península Ibérica soube se reerguer. Um verdadeiro caldeirão de culturas e influências, formado pelos povos mais diversos – dos pacatos galegos aos durões bascos – a Espanha pode mal e porcamente ser comparada a uma paella. Tem de tudo dentro e ainda assim o sabor funciona. Entrou pra União Européia, perdeu o apelido de “terceiro mundo do primeiro mundo” e segue crescendo. Tudo isso sem a arrogância inglesa, a frieza francesa ou a falta de graça dos países nórdicos.

Quem atacou Zapatero, o primeiro-ministro espanhol, no episódio do “¿Por qué no te callas?” deveria dar uma checada nos debates que consumaram sua reeleição. Com uma visão de mundo humana, e ao mesmo tempo defendendo idéias de esquerda com uma coragem que poucos têm, ele conseguiu mais quatro anos no poder. Crise diplomática com o Brasil? Não, aqui não deram uma linha sobre isso. A imprensa espanhola preferiu manter seu foco nos quatro anos do atentado de Atocha. Ah, não lembra disso? Bom, os espanhóis não conseguem esquecer.

Na manhã do dia 11 de março de 2004, a estação de Atocha, que conecta Madri por trem às cidades vizinhas, foi o cenário de uma série de explosões cronometradas. Foram 192 vítimas fatais, mais de 300 feridos e uma seqüela impossível de contabilizar. A festiva e amigável sociedade espanhola acordava finalmente para uma terrível realidade com o maior atentado de sua história.

Atocha está no centro de Madri e é a principal porta de entrada de quem vive em outras cidades mas trabalha na capital. No início da manhã, dá pra imaginar, está sempre lotadíssima. Falando assim, claro, parece apenas mais uma notícia de um lugar distante. Mas pensem bem: o que separa tudo isso do Brasil são apenas 7 horas de avião.

Sei que é complicado pra quem está nos trópicos saber o que é viver num país ameaçado pelo terrorismo. Além da Al Qaeda, há também o ETA – uma facção que luta pela independência de uma região chamada País Basco (e que, por exemplo, assassinou um conselheiro pessoal do primeiro-ministro na semana das eleições). Por isso, vou dar algumas amostras.

No metrô é proibido deixar sacolas ou mochilas abandonadas. Se você tenta, logo um guarda vem gentilmente convidá-lo a recolher sua bagagem. No Aeroporto de Barajas, palco das repatriações brasileiras, tive que provar a uma funcionária da limpeza que a sacola que queria jogar no lixo estava realmente vazia. Esta semana, um amigo viu o pânico tomar conta do centro quando foi à Fnac ver as novidades. As sirenes antiterrorismo soaram e todos os prédios foram evacuados. Sabe o que deflagrou tudo isso? Uma panela de pressão abandonada numa esquina. Sim, uma panela de pressão.

Para um país que vive sob esta ameaça, endurecer a entrada de estrangeiros não é assunto de soberania nacional. Trata-se de uma questão de segurança. O Brasil poderia aprender essa lição. E em vez de retaliações, adotar medidas preventivas. Responder ao governo espanhol barrando alguns bodes expiatórios na imigração não é necessariamente louvável (eu taxaria de comezinho). Este tipo de atitude não diminui o sexo-turismo, o tráfico de drogas, o contrabando, tampouco uma série de crimes que poderiam ser evitados já na alfândega (como, por exemplo, o assassinato de Paulo Ubarana pelo fugitivo da polícia espanhola Anton Anxon).

Infelizmente, no Brasil se aplaudem as medidas impulsivas, os tapa-buracos, as soluções em curto prazo. É difícil entender nos trópicos que ter colhões é necessário, mas não precisa ficar mostrando pra ninguém.

carta da distância n°1: de estar longe

Estar longe de casa é um exercício de estar mais perto de si mesmo do que nunca. É ser você em plenitude e aí sempre tem a pergunta: você agüenta ser você? Porque já não há amigos de infância para avisar que você está mudando, já não há pai e mãe para te pedir juízo, já não há sua casa com aqueles recônditos que dizem tanto sobre você. Estar longe de casa é descobrir-se outro: aquele que você sempre foi e não deixavam.

Lentamente, todas as pequenas coisas dessa distância passam a existir dentro de você. O nome das ruas, as linhas de metrô, o telefonema pra casa no domingo à noite. Tudo isso passa a haver em seu interior de uma forma natural, é sua vida, é você. E como era estranho antes pegar a linha cinza, descer numa estação de nome intraduzível e pegar em seguida a linha verde. De repente, é isso que você faz todos os dias, é essa sua rotina, é isso estar longe de casa.

As línguas, os dialetos, as gírias: tudo isso é novo e tudo isso subitamente já não é. Você não necessita mais traduzir-se e entende os costumes mais diferentes (café da manhã com pão doce e chá verde já não causam estranheza), entende que o sol nasce do lado contrário ao que nascia, entende a saudade. Porque sim, dá muita saudade. Do calor das pessoas que te amavam e não eram uma conquista paulatina até que se pudesse dar dois beijinhos na despedida. Aqui, você está sendo testado todos os dias, é o elemento dissonante das reuniões, todos estão em casa menos você.

E que saudade da mãe com os dedos fincados delicadamente entre os cachos, dizendo naquela rudez suave de mãe que está na hora de ir trabalhar. E que saudade do pai assistindo o Jornal Nacional e adormecendo enquanto Fátima Bernardes e William Bonner entoam suas diárias canções de ninar. Que saudade sabe de quê? Do suor que escorre pelas costas cada vez que você sai na rua, do almoço de domingo que era sempre frango porque domingo tinha que ser diferente (dos outros dias da semana, mas nunca dos domingos), que saudade do negro na pele, do vermelho nos olhos, do sangue fervendo em todo mundo.

Na sua nova casa tudo funciona, todos são educados, parece tudo perfeito. Mas tem uma coisa que falta sempre que você observa o movimento uniforme das ruas, as cadeiras dessas pessoas, os rostos. Tem um quê ausente nos abraços, nos beijos de despedida, nos apertos de mão. Tem calor faltando por aqui e você não pode reclamar: você veio porque quis.

Aliás, estar longe de casa tem muito a ver com isso: você faz as escolhas e então não pode reclamar delas. Ora, se já não há pai, mãe, amigos, toda aquela gente que tenta o melhor pra você, o livre arbítrio está todo em suas mãos. Nas decisões erradas é você e só você. O ruim é que nas certas também.

Estar longe de casa é abrir uma garrafa de vinho de 55 centavos às quinze pra meia-noite, deitar numa cama fria por baixo de cinco cobertores, ouvir Nina Simone quase chorando (você e ela), fechar os olhos pra saudade e sorrir. Porque não tarda pra você estar perto de casa novamente. Mesmo que você permaneça exatamente onde está.