30/10/2008

como sobreviver a um vôo transcontinental

Você ignora a crise global, a alta do dólar, o caos aéreo, o escambau e decide viajar. Pra bem longe. De avião. Você sabe que vai extrair disso um aprendizado transformador, uma experiência edificante e dezenove gigas de fotos de paisagens que ninguém vai ter saco pra ver. O que você talvez não saiba é que as viagens de avião são uma avançada técnica de tortura contemporânea.

Tudo começa pelas malas. Limite de peso é um estupro. Como você pode passar seis dias fora sem levar seus pijamas preferidos, seus filmes de estimação, seu aparelho de jantar e a pia da cozinha? Mas você só pode levar o indispensável. Isso significa que o aparelho de jantar e a pia da cozinha ficam. A mala é feita com todo o carinho, as roupas leves em cima, as pesadas embaixo, tênis em sacos de supermercado, roupas íntimas em sacolas de shopping. A pergunta é: pra quê? A mala é a primeira coisa da qual você se livra. Vai entender.

Chegando no aeroporto, você entra naquele saguão enorme. E cadê as placas de identificação? Excetuando-se pessoas que viajam de seis em seis dias, nunca se sabe exatamente o que fazer quando se chega a um aeroporto. Tom Jobim, Santos Dumont, John Kennedy, Charles de Gaulle. Não importa em qual personagem histórico você está penetrando (!). Todos agem como se você fosse PhD em embarques internacionais. O setor de informações, por exemplo, nunca está por perto. De quem foi a idéia de colocar o setor de informação sempre no meio do aeroporto? Ou seja, você só chega até ele quando já está completamente perdido.

Do setor de informações ao guichê da companhia. A fila está enorme e tem uma gordinha comendo donuts na sua frente. Não por ser gordinha, não por comer donuts, mas sim por ser retardada, essa gordinha nunca anda junto com a fila. Fica ali parada, saboreando suas gorduras trans, enquanto a fila vai andando. E você impaciente, de olho no relógio, com o peso improvável de sua bagagem de mão. É o tal do limite de peso. Você superlotou a bagagem de mão pra caber mais coisas. E agora disfarça o peso pra ninguém da companhia notar que as malas que serão despachadas são apenas a ponta do iceberg.

O check-in, esse sim, é a primeira etapa do juízo final. A atendente olha pra você com aquela cara de desinteresse e informa secamente que você ultrapassou em 122 gramas o limite de peso. Seu supercílio direito começa a dar pontadas. Mas calma, sem estresse, afinal você vai viajar para relaxar. Você abre a mala, tira um dos seus pijamas favoritos, enrola no pescoço como se fosse um cachecol e diz: tudo bem, lá é meio frio mesmo. A atendente faz vista grossa ao fato de que você está embarcando pro Caribe.

Última chamada. Você está frente à frente com o detector de metais. O duelo é inevitável. É agora ou nunca. Um passo, dois, três, piiiiiiiiiiiim. Ele apita mesmo depois que você deixa o celular, as chaves de casa, o cinto, as moedas, os brincos, a caneta, a caderneta com espiral, o piercing que nem lembrava que tinha, o botão da calça, a dignidade. O detector odeia você. Por fim, liberam sua passagem. E então você tem que se recompor ali mesmo no salão de embarque. Por que eles não colocam provadores de roupa após os detectores de metal?

Você está no salão de embarque, mas ainda não vai embarcar. Por isso ele existe. Você ainda vai esperar por uns vinte minutos, lutando contra a vontade de comprar um chocolate e uma garrafa de água porque, enfim, juntos eles custam quase 20 reais. Aliás, a gordinha retardada deve ser rica. Ela passa carregando mais de quinze barrinhas de chocolate. Você é tão ignorante que não conhece uma coisa chamada free shop.

De repente, você percebe aquele olhar. Aquela coisa pesada sobre você, aquela energia negativa. Um vampiro? Um dementador? Um alienígena sanguinário? Não, muito pior. É uma criança bilíngüe. Elas são os mais nefastos habitantes dos aeroportos. São filhas da miscigenação. Aquela, em específico, é filha de uma carioca da gema com um alemão da clara. E fala português como se estivesse praguejando e alemão como se cantasse funk. “Oi, meu nome é Schwartszwann”, ela diz carinhosamente. “Oi, Nietzcxhezwann”, você tenta. E então ela passa a cantar canções infantis. Em alemão. É a coisa mais linda que você já viu. Mas cinco minutos depois, você deseja que um avião caia na cabeça dela.

Chega o grande momento. O vôo está taxiando. As pessoas se aglutinam. Uma negra com uma microssaia mais curta que seu cinto vem recolher Mxyzptlkzwann. Você sai correndo pra embarcar, mesmo sabendo que todo mundo tem lugar marcado. Aliás, ao que parece, todos ignoram esse detalhe e passam a se acotovelar na entrada do tubo de plástico que conduz à aeronave. Nesse aglomerado, você aproveita pra dar uma cotovelada no cocoruto da criança bilíngüe. Ela não fez nada com você. Mas fará. Você é antes de tudo precavido.

Dentro do avião, você se assusta quando um manequim de vitrine cumprimenta você em três idiomas diferentes. É a chefe de cabine. Ela tem oito clones espalhados pelo avião, todos bonitos, solícitos e sem personalidade. Você dribla esses fugitivos de um romance de Aldous Huxley e chega até sua poltrona. Não é janela. Não é corredor. Você está bem no meio. De um lado, na janela, a criança bilíngüe. Do outro, no corredor, a gordinha retardada.

Você pensa em largar tudo, voltar, aproveitar que as malas estão feitas e passar o fim de semana em Guaratinguetá. Afinal, quem quer conhecer o Caribe? Praia, areia, mulatas rebolantes: tudo isso tem no Brasil. Bom mesmo é Guaratinguetá! Mas a porta da aeronave fecha e os comissários de bordo, todos clones uns os outros, ensinam como você deve proceder caso o avião caia.

Você guarda sua bagagem de mão (que quase não cabe no compartimento, mas se começarmos a falar nisso dá outra crônica inteirinha), senta entre seus algozes e pensa num estalo: peraí, há probabilidade disso cair? Você não estava preparado para essa revelação. É algo óbvio: aviões podem cair. Mas quando se está dentro dele, enfim, essa certeza racional se torna uma revelação funesta.

A gordinha retardada peida no exato momento em que o motor do avião é ligado. Também neste exato momento a criança bilíngüe começa a chorar aterrorizada (fingindo medo, você sabe bem, ela quer apenas a vingança). Você não sabe realmente o que fez pra merecer isso. Afinal, estar com uma criança escandalosa e uma gordinha peidante dentro de um bólido de metal que pode despencar a qualquer momento dos céus não é necessariamente uma bênção.

O avião está correndo na pista. O pum da gordinha cheira a pudim de leite azedo. A criança começa a gritar que você bateu nela. Todos na aeronave olham pra você como se encarassem um monstro. O avião sai do solo. O compartimento de bagagens de mão abre e todos os seus DVDs pornôs e cuecas velhas voam pela aeronave. Você é tomado por uma certeza aterrorizante de que este vôo vai explodir nos céus e todos vão morrer. Você já viu isso num filme, sabe bem como é. Você precisa evitar.

Então, acometido de um surto inédito de heroísmo, você puxa a alavanca de emergência gritando “Vive la France!”. Máscaras caem automaticamente sobre as poltronas. Você segue os procedimentos de segurança, põe sua máscara, depois a da criança (pra ela calar a boca) e antes que o comandante acione a torre de controle para arrematar a decolagem, você respira profundamente seu oxigênio sem pudim azedo e pensa: eu adoro Guaratinguetá. Então, você relaxa e goza.

28/10/2008

no gibi: Y

Depois de ler "Sandman" (e reler, e reler, e reler como eu fiz), é difícil se impactar com algum quadrinho. Por isso, leve a sério o que vou dizer: leia "Y – O último homem" de Brian K. Vaughan e Pia Guerra! Mas leia mesmo, não deixe pra depois. Porque trata-se de uma das melhores coisas que surgiram em quadrinhos nos últimos anos. Sem exageros.


A história é simples de doer (e justamente por isso é genial): um surto misterioso mata todos os portadores do cromossomo Y do mundo. Ou seja, todos os machos do planeta. O jovem Yorick e seu macaquinho de estimação são os únicos do gênero masculinos que escapam a essa aniquilição.

Enquanto as mulheres tentam reconstruir um mundo que perdeu quase metade de sua população do dia pra noite, Yorick e seu macaco fogem de feministas extremistas, gangues urbanas, agentes secretos de Israel… enfim, de todos que querem terminar o que o surto misterioso começou.

A série, em 60 edições, terminou sua publicação nos Estados Unidos em outubro do ano passado. E com o sucesso retumbante, claro, já tem roteiro pronto pro cinema. A promessa é que seja uma trilogia, com direção de D.J. Caruso (o mesmo de "Roubando Vidas" com Angelina Jolie).


Até agora, li até o número 8. E tome gangues urbanas de mulheres que arrancam um seio de si mesmas, cidades que só sobreviveram à crise mundial porque eram comandadas por mulheres há anos, intrigas na Casa Branca e Yorick fugindo de tudo e todos que querem ele mortinho da silva.

A publicação no Brasil é pela Editora Pixel. E vale cada balão de diálogo.

23/10/2008

relax

Tá a fim de dizer um "vai tomar no cu" daqueles bem sonoros pro atendimento da sua agência? Seja mais criativo. faça como Jack Nicholson. Essa vai especial pra todos os redatores e diretores de arte que se plogam. A dica foi do bróder Mark Winkler. Enjoy!


21/10/2008

no cine: blindness

O que mais incomoda em Ensaio sobre a cegueira é aquilo que você não vê. Sem trocadilhos baratos, dá pra perceber nitidamente a intenção do diretor de incomodar com imagens sugeridas. Ou seja, o que ele não mostra é o que tem mais força. E essa sacada genial faz de “Ensaio” o melhor filme do ano.

A trama é a seguinte: um surto de cegueira se espalha por uma cidade de forma contagiosa, forçando o Governo a isolar os infectados numa espécie de campo de concentração. Juliane Moore faz a única personagem que não é contaminada pela enfermidade e, por assim dizer, funciona como nossos olhos nesse universo de cegos. E que universo. Tem de tudo: lutas por comida, sujeira por todo canto, pernas infeccionadas à beira da gangrena, estupros. Ou seja, tudo que passa quase desapercebido aos cegos, mas dilacera o olhar de quem enxerga. No caso, Juliane Moore. Por tabela, nós.

Juliane Moore: um personagem que não tem nome

Baseado no romance homônimo de José Saramago, único escritor de língua portuguesa a ter um Nobel em seu currículo, “Ensaio” foi transposto pra tela grande pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, o mesmo de “Cidade de Deus”. E olha, o cara está na sua melhor forma.
Na cena inicial, quando um dos personagens cega repentinamente em meio ao engarrafamento de uma grande metrópole não identificada, já se revela a malandragem do diretor: na confusão de carros passando, sinais fechando, pessoas correndo, placas de publicidade, o público quase não vê o que realmente acontece. Mas entende perfeitamente.

Em terra de cego, quem enxerga é muleta

O filme segue assim: sem mostrar, mas se fazendo compreender. Uma grande forma de trazer pra tela o que está no livro: de certa forma, Saramago usou a limitação do livro (a de não conter figuras) para compor imagens fortíssimas. Meirelles seguiu o mesmo raciocínio e acertou. Inclusive, acertou ainda mais em manter detalhes do livro que fazem a diferença. Os personagens, por exemplo, não têm nome. É a mulher do médico, o médico, a mulher de óculos. Quem leu o livro, como eu, sai extasiado. Quem não leu, nem se preocupe, dá êxtase também.

Ensaio, o livro: a obra-prima de José Saramago

Se você ainda não viu “Ensaio sobre a cegueira”, a despeito de qualquer trocadalho do carilho, corra para ver. E se prepare para ler nas entrelinhas desse grande filme.




FICHA TÉCNICA

Diretor: Fernando Meirelles
Elenco: Juliane Moore, Mark Rufalo, Gael Garcia Bernal, Alice Braga, Danny Glover
Título original: Blidness
Ano: 2008
Site oficial: www.ensaiosobreacegueirafilme.com.br
Cotação: 10,0

13/10/2008

cinema de geração

Saca só. O filme fala de universitários discutindo a vida em meio a milhões de referências ao universo da cultura pop. O detalhe é que é cinema nacional. Torceu o nariz? Não vá tão rápido.

Com influências de Nick Hornby (Alta Fidelidade), Kevin Smith (O Balconista), Cameron Crowe (Quase Famosos), etc, etc, etc, o filme "Apenas o fim", segundo o Omelete, é um dos mais promissores da década. Tudo isso por retratar uma geração inteira que chegou à idade adulta bombardeada por internet banda larga, TV a cabo, blockbusters e por aí vai.

A obra é do cineasta estreante Matheus Souza e acaba de ganhar o prêmio de Melhor Longa Metragem no Voto Popular do Festival de Cinema do Rio de Janeiro. Segundo a bíblia nerd Omelete, "a exibição do filme no Festival do Rio foi mais que uma epifania e a reação do público a cada cena será lembrada".

Curioso? Veja o trailler.