PRÉ PÓS TUDO BOSSA BAND
Até me surpreendi quando descobri no Google que “Pré pós tudo bossa band”, oitavo disco de Zélia Duncan, tinha sido lançado em 2005. Ou eu ando muito desatualizado em relação aos artistas que admiro, ou Zélia Duncan está trilhando uma carreira cada vez mais discreta em relação à mídia. A resposta é: 50/50. Tanto eu ando meio desligado, como Zélia Duncan fez a inteligente escolha de se distanciar um pouco dos holofotes.
Na primeira canção título, que abre o CD, ela já deixa bem clara essa estratégia. A música “Pré pós tudo bossa band” fala exatamente da era das celebridades, da necessidade de aparecer, de ser o melhor. Com uma elegante ironia, tanto na letra quanto na interpretação, a música diz: Todo mundo quer ser bacana / Álbuns, fotos, dicas pro fim de semana / Filmes, sebos, modas, cabelos / Cabeça-feita, receitas perfeitas / Descobertas geniais. Um bom começo. Em seguida vem “Carne e osso”, que foi tema de abertura da novela Sete Pecados. Nela, Zélia exalta o pecado como forma de ser mais humano. Com uma dose sensata de incorreção política, se tornou chatinha depois de seis meses no ar diariamente.
Mas depois desse momento rede Globo, o CD cresce. E muito. “Vi não vivi” é uma canção de amor à primeira vista ás avessas. “Primeira vez que eu te vi / Meu coração não fez clique”, canta Zélia com originalidade. Em seguida, o blues “Mãos atadas”, em parceria com Frejat, faz lembrar aquela cantora de “Intimidade”. Suave, romântica e sem pieguices.
- Ouça "Vi não vivi":
O grande momento do disco continua com “Benditas”. A música fala da efemeridade do amor em relação ao famoso “Eu vou te amar pra sempre” que os amantes costumam se dizer. “A vida é curta / Mas enquanto dura / Posso durante um minuto ou mais / Te beijar pra sempre / O amor não mente / Não mente jamais”, canta ela.
Depois disso, um momento estranho. Diante de tanta poesia, “Braços cruzados” fala sobre violência urbana. Definitivamente, não encaixa no clima das primeiras músicas. E prejudica a audição de “Eu não sou eu”, balada romântica que soa mais melosa do que deveria.
Mas Itamar Assumpção , sempre ele!, salva a pele da cantora. Escrita com Alice Ruiz, “Tudo ou nada” tem a cara das músicas do autor. “Come on, baby / Transformar esse limão em limonada”, diz a letra, que é uma declaração de amor e de humor ao mesmo tempo, com uma bem-vinda pitada de rock’n’roll. Divertida e poética como só Assumpção sabe fazer.
A primeira metade do CD vale por todo ele. Por isso, pulo da música 8 direto pra 16 (o que fica nesse ínterim é a falta de surpresa, com sambas que soam antigos e até são bons, uma homenagem a Gilberto Freire numa vinheta dispensável, exaltações ao Rio, etc – tudo realmente acessório, muito embora bom de ouvir).
“Milágrimas”, essa sim, encerra em grande estilo “Pré pós tudo bossa band”. Mais uma letra de Itamar Assumpção e Alice Ruiz, “Milágrimas” é cantada por Zélia Duncan e por Anelis Assumção, a filha do autor. Minimalista, sutil, tem cara de poema musicado. E que poema! Reproduzo aqui a primeira estrofe: “Em caso de dor, ponha gelo / Mude o corte do cabelo / Mude como modelo / Vá ao cinema, dê um sorriso / Ainda que amarelo / Esqueça seu cotovelo / Se amargo for já ter sido / Troque já este vestido / Troque o padrão do tecido / Saia do sério, deixe os critérios / Siga todos os sentidos / Faça fazer sentido / A cada milágrimas sai um milagre”. Essas frases cantadas com a dor de Zélia e a doçura de Anelis derretem qualquer coração duro.
“Pré pós tudo bossa band” não é memorável, mas é respeitável. Ao não cair na esparrela da mídia, que quase lhe transformou em deusa na época de “Catedral”, Zélia Duncan assumiu cada vez mais controle artístico sobre o seu trabalho. O Cd, portanto, tem a cara dela. Nessa época de fabricação de celebridades, é louvável.
- Ouça "Milágrimas":
22/11/08
no torrent: zélia duncan
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